Ludovic Marin/Agence France-Presse - Getty Images
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Quando o colonizador francês pede desculpas

Emmanuel Macron, que classificou colonização argelina como um 'crime contra a humanidade', reconhece execução e tortura de jovem francês comunista na Batalha de Argel

Kamel Daoud, The New York Times

20 de outubro de 2018 | 06h00

ORAN, ARGÉLIA - Eu nasci oito anos depois da declaração de independência da Argélia. Não tenho experiência na guerra, mas ela esteve presente em minha imaginação, através dos meus pais, dos seus amigos e de suas discussões, e por causa do Estado: na escola, pela televisão, nos feriados nacionais e nos discursos oficiais. Como para muitas pessoas da minha idade, tudo o que ouvi provocou uma saturação e então a rejeição.

Quando era criança, uma maneira de fazer as pessoas rirem era ridicularizar os veteranos de guerra e sua tendência a exagerar ou inventar atos de bravura no passado a fim de conseguir privilégios no presente. A mentira era perceptível. 

Esta intuição foi reforçada pelos nossos pais, que nos falavam de falsos mujahideen - supostos ex-combatentes - que, a cada dia mais, reclamavam direitos, e também pelo espetáculo das injustiças decorrente destes direitos: acesso privilegiado à habitação e ao emprego, isenções de impostos, benefícios sociais especiais, entre outras coisas. Isto me fez sentir culpado por não ter nascido antes e não ter participado da guerra. 

Em dívida com aqueles que combateram a França, ordenaram que reverenciasse os mais velhos. Portanto, faço parte da geração para a qual a memória da guerra na Argélia - e, segundo os nossos livros de escola, seu 1,5 milhão de mártires - é motivo de desconfiança. Nós crescemos convencidos de que esta história deixara de ser um acontecimento épico, mas só dizia respeito ao proveito pessoal.

Hoje, a França de Emmanuel Macron - um presidente que tampouco teve a experiência da guerra - decidiu reconhecer um evento importante: a tortura e execução de Maurice Audin, um jovem francês comunista, pelo exército francês durante a Batalha de Argel, em 1957. Já em uma visita anterior à Argélia durante a campanha presidencial, no ano passado, Macron referira-se à colonização francesa como um “crime contra a humanidade”.

Foi uma declaração dramática e ao mesmo tempo inesperada. Eu estava na França na época, e me pediram que comentasse o fato. Tive dificuldade em encontrar algo sincero para dizer. Queria homenagear a coragem da afirmação de Macron, mas não queria fazer o papel do indivíduo descolonizado, que só pode reavaliar sua memória colonial e chorar por uma apologia. Queria homenagear o passado e afirmar minha isenção em relação a ele.

E agora aqui estou eu, comentando um comunicado recente do presidente francês que “reconhece, em nome da República Francesa, que Maurice Audin foi torturado e em seguida executado, ou torturado até a morte, pelos soldados que o prenderam em sua casa”. Audin era um jovem matemático que foi morto por apoiar a independência argelina, e foi esquecido por longas décadas, apesar das pressões de sua família e dos historiadores. 

Este reconhecimento oficial do Estado francês poderá limpar o caminho para um reexame de um período da história que foi negado por alguns e enfeitado por outros. Mas não posso deixar de perguntar: qual o sentido disto para mim, um argelino nascido depois da guerra?

Minhas preocupações e compromissos na Argélia hoje dizem respeito às liberdades individuais, a um regime incapaz de mudar e à ascensão do islamismo. O assassinato de Audin remonta a antes da guerra civil argelina dos anos 90, que por sua vez usou a tortura, desaparecimentos, massacres e se encerrou com 150 mil mortes. O reconhecimento de Macron poderia até abalar minha luta, reforçando uma conveniente explicação dos nossos fracassos. O governo argelino pode tentar promover a sua legitimidade apontando o seu dedo para a colonização.

Na realidade, a reação aqui foi morna. Para o ministro dos Assuntos dos Veteranos, o fato de a França “reconhecer o assassinato de Maurice Audin é um passo a frente”. Dificilmente, esta seria considerada uma resposta entusiástica. Pouco depois de afirmar isto, o ministro anunciou que seria realizado um recenseamento com a finalidade de levantar todos os crimes cometidos durante a colonização, entre 1830 e 1962. Sim, foi um trauma, mas a vítima continua a cultivá-lo.

Macron quer assumir a responsabilidade pelo passado, enquanto o governo da Argélia quer continuar vivendo nele. Portanto, será contraproducente reconhecer este passado colonial, esta dívida colonial? Hesito em afirmar isto.

Esta decisão parece necessária, principalmente na França. A guerra serve de desculpa para certos membros da sociedade francesa das ex-colônias, que lutam na França metropolitana, para se isolarem. Os radicais baseiam nisso suas posturas isolacionistas, justificando sua recusa a se integrarem. 

O desconforto das periferias também é um desconforto em relação à memória. Portanto, reconhecer o crime do colonialismo é também, para o governo francês, uma maneira de verificar quem quer atirar o passado, como um coquetel Molotov, no presente. Mas, e para mim, para nós? O que deveriam fazer as pessoas descolonizadas quando seu antigo colonizador lhes pede desculpas?

Para um segmento do público argelino, o gesto de Macron é um truque: aí está um líder francês que reconhece a tortura e o assassinato de um cidadão francês por soldados franceses. Em todo este episódio, não há argelinos.

Mas esta crítica valoriza a nacionalidade e a religião acima dos ideais. Para mim, Audin é um herói por causa do seu sacrifício, seja ele francês ou não. Revisitar a história argelina com base em suas origens levaria a outra forma de injustiça. O principal partido islamista da Argélia homenageou Audin como herói - “mesmo que o seu nome seja Maurice”, como disse o seu líder.

Os salafitas e os islamistas que não têm nenhum mandato político direto insistiram, ao contrário, no fato de que Audin era comunista e ateu. Para eles, a guerra de independência foi acima de tudo uma guerra religiosa.

Alguns afirmam que o gesto de Macron não é suficiente, e deveria ser apenas um começo. Acho que representa mais do que isso. Macron é o presidente da França, e não da Argélia, e se ele espera solucionar disputas ao longo deste período faz sentido para ele começar com uma figura merecedora de consenso - inclusive na Argélia (exceto entre alguns radicais).

Audin finalmente foi reconhecido como uma vítima da tortura, e a sua morte como um crime. Esta é uma coisa muito boa. Mas se os colonizadores precisam sair do passado colonialista com honra, os descolonizados devem ir além do passado, e assumir com sinceridade a responsabilidade por seu presente.

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