Madeline Gray para The New York Times
Madeline Gray para The New York Times

Quando o estresse com os hospitais é a causa de internações

Noites de sono interrompidas, refeições sem gosto e dor são responsáveis pela 'síndrome pós-hospitalar'

Paula Span, The New York Times

19 Agosto 2018 | 11h00

Quando saiu de Michigan para viver mais perto da filha na Carolina do Norte, Bernadine Lewandowski insistiu em alugar um apartamento a cinco minutos de distância dela. Sua filha, Dona Jones, disse,  que ela sempre foi "muito independente".

Como a maioria das pessoas que chegam à casa dos 80 anos, Bernadine tinha várias doenças crônicas e tomava remédios para combater a osteoporose, a insuficiência cardíaca e a doença pulmonar. Foi diagnosticada com leve impedimento cognitivo e usava uma bengala. Ainda assim, ela vivia sem maiores problemas, disse sua geriatra, Dra. Maureen Dale: “Apesar dos pequenos problemas de saúde, ela se cuidava bem.”

Mas, em setembro, Bernadine foi internada depois que uma fratura de compressão numa vértebra provocou dores intensas demais para serem suportadas em casa. Ao longo de quatro dias, ela usou balões de oxigênio para respirar e recebeu doses intravenosas de morfina para aliviar a dor, passando em seguida para as cápsulas de oxicodona.

Mesmo depois de receber alta, o estresse provocado pela hospitalização a deixou desorientada e fraca, um estado generalizado de vulnerabilidade que alguns pesquisadores chamam de “síndrome pós-hospitalar". Acredita-se que esta seja a responsável pela alta incidência de reinternação entre os pacientes mais velhos.

Em 2016, cerca de 18% dos beneficiários do Medicare (programa de seguro saúde dos americanos) com mais de 65 anos que recebiam alta retornaram ao hospital num prazo de até 30 dias, de acordo com o governo. Bernadine voltou em questão de três semanas. 

Ela tinha desenvolvido um coágulo sanguíneo nos pulmões, possível resultado da inatividade. Isso exacerbou sua insuficiência cardíaca, levando ao acúmulo de fluido nos pulmões e ao inchaço das pernas. Ela sofreu outra fratura de compressão.

Com a saúde demasiadamente fragilizada para que vivesse sozinha, Bernadine, agora com 84 anos, foi morar com a filha.

O Dr. Harlan Krumholz, cardiologista da Universidade Yale, criou a expressão “síndrome pós-hospitalar” em 2013. Quando o Medicare começou a penalizar os hospitais pelas reinternações ocorridas em até 30 dias após a alta, ele reparou que a maioria das reinternações envolvia problemas de saúde que aparentemente não tinham relação com o diagnóstico inicial.

Ele argumentou que a alta marca o início de um período de 60 a 90 dias de grande vulnerabilidade a problemas de saúde decorrentes do estresse da hospitalização. Todo paciente hospitalar conhece esses fatores de estresse: sono interrompido, com coletas de sangue às 4 da madrugada; refeições pouco apetitosas em momentos inoportunos; redução da massa muscular e dificuldade de equilíbrio após dias na cama; quartos compartilhados; delírios; dor. “Isso afeta nossos hormônios, nosso metabolismo e nosso sistema imunológico", disse o Dr. Krumholz.

Embora a síndrome pós-hospitalar seja apenas uma hipótese por enquanto, o pesquisador Donald Edmondson, da medicina behaviorista do Centro Médico da Universidade Columbia, em Nova York, encontrou elos entre os níveis de estresse informados por vítimas de ataques cardíacos e sua probabilidade de reinternação. Numa meta-análise, ele descobriu que entre 12% e 16% dos pacientes internados por causa de ataques cardíacos desenvolvem a síndrome de estresse pós-traumático.

Tornar a estadia hospitalar menos desestabilizadora parece ser uma meta possível de se alcançar. Os hospitais têm essa preocupação em relação às crianças, destacou o Dr. Krumholz. Poderiam ajudar também os pacientes mais velhos, permitindo que vistam as próprias roupas, saiam da cama para caminhar, e comam o bastante para manter o peso. Podem avaliar quantos testes laboratoriais são realmente necessários para cada paciente. “Jamais deveríamos acordar um paciente que está dormindo, a não ser que haja um motivo concreto, que não deve ser a conveniência hospitalar", disse ele.

Alguns hospitais já oferecem ambientes menos estressantes para os pacientes mais velhos. Bernadine tinha um quarto privativo e foi incentivada a usar um andador para ir ao banheiro. Os efeitos foram profundos, mesmo com essas concessões. Já magra, ela perdeu sete quilos em dois meses. Depois da segunda internação, ela teve duas quedas. Em abril, desenvolveu um quadro de pneumonia, o que exigiu uma terceira internação.

A filha disse que agora ela está melhor. Depois da fisioterapia, Bernadine consegue subir as escadas, com alguém a ajudando, até chegar ao quarto. Seu peso ficou estável. Ela gosta de passar o tempo com os parentes e visitar o salão de beleza.

“Esperávamos que ela passasse algum tempo conosco e então voltasse ao seu apartamento", disse Dona. Mas isso nunca ocorreu.

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