Nicolas Ortega para The New York Times
Nicolas Ortega para The New York Times

Quando os milionários estão fugindo

A migração de pessoas ricas indica quais são as nações com problemas - ou as que prosperam

Ruchir Sharma, The New York Times

09 Junho 2018 | 10h00

Monitorar os ricos tornou-se algo que tem a ver com voyeurismo no mundo inteiro. Por outro lado, também pode fornecer indicações sobre os rumos tomados por determinada nação. Quando um país começa a passar por dificuldades econômicas e políticas, os ricos são, frequentemente, os primeiros a colocar seu dinheiro em portos mais seguros no exterior. Eles nem sempre emigram juntamente com o dinheiro, mas, quando o fazem, é um sinal ainda mais claro de problemas. 

A New World Wealth, empresa de pesquisa sediada na África do Sul, acompanha desde 2013 as migrações milionárias, estudando registros de imóveis, programas de vistos, artigos de jornal, informações de agentes de viagens e outros mais que atendem a classe afluente. Nesta população global de 15 milhões de pessoas, cada uma valendo mais de US$ 1 milhão em ativos líquidos, cerca de 100 mil mudaram seu país de residência em 2017.

Na maioria dos países, é correto supor que o êxodo dos milionários seja composto principalmente de cidadãos locais, e não de investidores estrangeiros, porque as classes ricas são dominadas por cidadãos do lugar ou pessoas que ali residem há muito tempo. Em 2017, os maiores êxodos foram registrados na Turquia (onde impressionantes 12% da população de milionários emigraram) e na Venezuela. 

Não por acaso, a lira turca agora está em queda livre. Houve também emigrações significativas da Índia, controladas de maneira cada vez mais rigorosa pelas autoridades fiscais, e da Grã-Bretanha, na a perspectiva nebulosa do Brexit. Por outro lado, a redução das saídas pode ser um sinal positivo, e em 2017, a maior mudança para melhor ocorreu no país que sempre se mostrou hostil aos ricos: a França.

Igualmente surpreendente foi a ausência de mudanças nos Estados Unidos, onde a chegada de um presidente bilionário aparentemente não atraiu e nem repeliu os milionários. Ao todo, 9 mil milionários migraram para os Estados Unidos no ano passado, mas eles representam uma gota no oceano de 5 milhões de milionários americanos.

Assim como os menos ricos, os milionários pareceram inseguros quanto aos rumos do país com um presidente imprevisível que oferece cortes de impostos e a desregulamentação para os ricos, mas também critica os estrangeiros e, ocasionalmente, fala como um populista enfurecido.

Grã-Bretanha e França são mercados que atraem a riqueza como ímãs. Durante dezenas de anos, os ricos se sentiram atraídos para a Grã-Bretanha por seus bancos circunspectos, uma regulamentação frouxa e os confortos de Londres. Até 2016, a Grã-Bretanha recebia anualmente um fluxo considerável de milionários, mas o fluxo de repente se inverteu no ano passado, com um êxodo de 3 mil, temerosos de que, com a saída da Grã-Bretanha da União Europeia, Londres deixasse de ser uma capital financeira.

A França, há muito tempo, é considerada antibritânica, uma fortaleza esquerdista de burocratas à espreita e impostos altos que assustaram os ricos, levando-os a emigrar, apesar do charme de Paris. Mas o crescente êxodo de milionários chegou ao seu pico em 2016 com a saída de 12 mil deles, depois, arrefeceu consideravelmente para apenas 4 mil no ano passado. O motivo mais provável foi a eleição em maio de Emmanuel Macron, o mais jovem presidente da história da França, que prometeu uma burocracia com a mão menos pesada e menos hostil às empresas e à redução de impostos.

Indubitavelmente, os milionários que se mudam despertam poucas simpatias, mas nenhum país ganha perdendo o talento e o capital de seus moradores mais ricos, particularmente países emergentes, como a Índia. É impressionante que a Índia tenha registrado uma perda de 7 mil membros (2%) da sua população milionária em 2017, o que ocorreu apesar do otimismo global em relação às perspectiva de crescimento da Índia e acompanhou fuga da economia estagnada da Rússia. 

Essa fuga inusitada da economia de grande crescimento da Índia pode ser causada pelos temores cada vez maiores da elite com uma política oficial de combate à corrupção e à autoridade ilimitada concedida às autoridades fiscais para visar os ricos. Com o primeiro-ministro Narendra Modi, o governo ultimamente começou a atender à forte tendência socialista da nação, usando o poder do Estado para taxar os ocultos bolsões de riqueza.

Nos piores casos, a fuga de capitais pode se intensificar até o colapso do valor da moeda, mergulhando a nação em uma crise. Dados da balança de pagamentos mostram que dez das últimas 12 maiores crises cambiais, iniciadas com o derretimento do peso mexicano em 1994, começaram quando os habitantes passaram a enviar dinheiro ao exterior, o que ocorreu tipicamente dois anos antes do colapso da moeda. Frequentemente, os políticos atribuem a especuladores estrangeiros “perversos” e “imorais” a responsabilidade por estas crises, no entanto, foram os próprios cidadãos que perceberam a aproximação dos problemas.

Neste exato momento, peritos forenses apresentam provas incontestáveis do avanço das dificuldades financeiras em outro importante país: a Turquia. Desde o início do ano passado, os turcos afluentes efetivamente transferiram grandes somas de dinheiro para fora do país, trocando seus depósitos bancários em liras turcas por dólares e euros, enquanto os estrangeiros continuavam comprando ativos turcos.

O declínio de 12% da população milionária turca,em 2017, foi maior do que o de qualquer importante economia, superado apenas pelo declínio de 16% na Venezuela, com sua pequena economia hiperinflacionada. Os milionários da Turquia aparentemente estão fugindo da deterioração das condições financeiras do país, agravadas por uma inflação muito elevada e pela repressão violenta imposta pelo presidente Recep Tayyip Erdogan contra seus críticos.

A migração dos milionários pode ser um sinal positivo para a economia de uma nação. As perdas para Índia, Rússia e Turquia representaram ganhos para paraísos como Canadá e Austrália, aos quais se uniram recentemente os Emirados Árabes Unidos. Em grande parte por causa da estabilidade e da excelente situação do emirado mais famoso, Dubai, os Emirados Árabes Unidos receberam um fluxo de 5 mil milionários em 2017, aumentando o tamanho de sua população afluente em 6%, o maior ganho do mundo. 

Os cidadãos espertos são também os primeiros a regressar quando a sorte de um país começa a mudar para melhor. Em sete das últimas 12 principais crises cambiais, os habitantes começaram a trazer seu dinheiro de volta antes dos estrangeiros.

Os milionários não são tão numerosos, mas podem nos revelar muitas coisas a respeito do que vai bem - e do que vai mal - na economia e nos ecossistemas políticos de um país. Os líderes que criam as condições certas para fazer que os milionários não deixem o país descobrirão que todos os seus residentes enriqueceram por esta razão.

Mais conteúdo sobre:
economia Dinheiro

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.