Paul A. Hebert/Invision/AP
Paul A. Hebert/Invision/AP

Quando sua banda favorita não é mais a mesma

A fama traz o preço de manter um grupo na ativa, independentemente de sua formação original

Rob Tannenbaum, The New York Times

07 de abril de 2019 | 06h00

O cantor Ian Hunter anunciou recentemente uma reunião e turnê da banda britânica Mott the Hoople, que gravou alguns sucessos memoráveis no início dos anos 1970. Mas Hunter reconheceu tacitamente que não se tratava exatamente de uma reunião.

Dos quatro colegas de banda de Hunter da formação original do Mott, que gravou o memorável álbum All the Young Dudes, de 1972, dois já morreram e um ficou incapacitado após sofrer um derrame.

A morte raramente marca o fim das grandes bandas de rock. Assim, Hunter fará a turnê com o guitarrista e o tecladista que entraram para o Mott na gravação do último álbum, The Hoople, de 1974. Demonstrando um grau de sinceridade raramente visto entre aqueles que buscam vender entradas para apresentações, ele chamou esta banda de Mott the Hoople '74.

O grupo Kiss está numa turnê de despedida contando com metade da formação original, Gene Simmons e Paul Stanley; o mesmo vale para a banda The Who. O Styx faz turnês sem Dennis DeYoung, que compôs e cantou os maiores sucessos do grupo (DeYoung está atualmente em turnê, apresentando-se como Dennis DeYoung and the Music of Styx). O grupo Foreigner viaja com um único integrante da banda original, o guitarrista e compositor Mick Jones - e, anos atrás, quando Jones adoeceu, a banda continuou sem ele.

Cada vez mais, meias verdades calculadas fazem parte do repertório de bandas mais antigas. Depois que o nome de uma banda se transforma no nome de uma marca, o incentivo para seguir adiante é mais forte, mesmo com formações que levam os fãs a perguntar, "Quem são essas pessoas no palco?".

  

Quando o Styx começou a se apresentar sem DeYoung, ele era um dos quatro sócios da banda que dividiam a propriedade do nome. Ele abriu um processo, alegando uso indevido da marca Styx, e os ex-colegas de banda responderam com outro processo. "Chegamos a um acordo", disse DeYoung. "Não posso divulgar os detalhes, mas não terei de ficar na esquina vendendo biscoitos".

Disputas envolvendo os direitos ao nome de uma banda são espinhosas porque combinam elementos do direito das marcas registradas e do direito contratual, de acordo com a advogada Loren Chodosh, que trabalha na indústria do entretenimento.

Nomes de bandas são habitualmente considerados nomes de marcas, e as marcas registradas protegidas podem ser designadas contratualmente. Ainda segundo Loren, sob certos aspectos, o contrato de uma banda não difere muito de um acordo pré-nupcial. "Trata-se de definir o que ocorrerá se as coisas derem errado e um dos envolvidos partir, coisa que ninguém quer imaginar. Os integrantes das bandas não começam a se odiar mutuamente antes do sucesso".

O baterista Bobby Colomby é cofundador do grupo de jazz-rock nova-iorquino Blood, Sweat & Tears, que chegou a ter oito integrantes no momento de sua estreia, em 1968. Já em 1974, Colomby era o único membro original. "Tínhamos um acordo: o último que ficar seria o dono de tudo", disse ele.

Colomby cedeu temporariamente o nome Blood, Sweat & Tears a David Clayton-Thomas, que cantou os principais sucessos da banda, mas não era um dos integrantes originais. Depois de cumpridos os 20 anos de licenciamento do nome, Clayton-Thomas formou nova banda em 2004, e Colomby contratou músicos para fazerem turnês da banda como seus funcionários assalariados. "Até onde sei, enquanto eu for o responsável por trás do grupo, ainda estamos falando da banda original", disse ele.

O Blood, Sweat & Tears ainda faz entre 55 e 65 shows por ano, de acordo com o empresário do grupo, Larry Dorr. Em entrevista concedida por telefone com Dorr e Colomby, nenhum dos dois conseguiu citar o nome de todos os integrantes atuais da banda. Mas Colomby compara a situação à propriedade de uma franquia: "Quando vamos a um jogo de beisebol dos Yankees, quem vemos em campo? Não temos Babe Ruth nem Mickey Mantle. Mas todos querem ver o uniforme listrado, a tradição, o estilo". 

Ele insiste que o Blood, Sweat & Tears não é um grupo de pessoas específicas, mas "um conceito musical". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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