Damon Winter/The New York Times
Damon Winter/The New York Times

Quando um terrorista visita nossa cidade

O centro comunitário judaico virou palco de lamentos. A sinagoga se tornou uma cena do crime

Bari Weiss, The New York Times

10 Novembro 2018 | 06h00

PITTSBURGH - Quero contar a vocês como é quando nosso bairro se torna o cenário de um assassinato em massa. A primeira coisa que devem saber é que, quando o telefone receber uma mensagem da sua irmã mais nova dizendo “Há um atirador na sinagoga Árvore da Vida", seu cérebro vai insistir que não é verdade, que é tudo uma farsa.

Mas seus dedos vão responder imediatamente, sem pensar: “O papai está lá?”

Sua boca ficará seca enquanto você espera sua mãe confirmar que seu pai, frequentador das sinagogas de Squirrel Hill aos sábados, não estava no edifício.

Então, outra de suas irmãs vai enviar um link para a frequência da polícia e você vai ouvir enquanto ela telefona para casa a partir da cena do crime. Vai ouvir um policial informando que o atirador declarou que quer “matar todos os judeus". Já há policiais baleados. “Disparos no local. Disparos no local.”

Você vai cancelar todos os seus planos e comprar uma passagem de avião para casa. Antes de embarcar, vai ouvir boatos - um casal foi morto, um médico. Vai se perguntar quais famílias dos seus vizinhos terão as vidas destruídas.

O entorpecimento só vai ceder quando você descobrir que Cecil Rosenthal - o doce gigante com uma leve deficiência intelectual que sua mãe conhecia desde a escola - foi morto com o irmão, David. Vai imaginá-lo recebendo orgulhosamente os frequentadores da cerimônia, e vai se perguntar se ele cumprimentou também o assassino. E vai chorar.

Quando um assassino antissemita massacra judeus na sinagoga onde você celebrou seu bat mitzvah, talvez você se veja novamente naquele santuário. Mas, em vez de parentes e amigos, o santuário abrigará uma equipe de voluntários - a chevra kadisha - que passará a semana limpando cada gota de sangue, pois, de acordo com a tradição judaica, cada parte do corpo deve ser santificada na morte e, assim, enterrada.

O rabino de uma sinagoga ortodoxa da região, Daniel Wasserman, que também administra uma funerária, estará presente, bem como um agente do FBI chamado Nicholas Boshears. Você vai olhar para a arca, contendo a Torá que você leu aos 13 anos, e vai lembrar do seu horrível corte de cabelo e se perguntar por que vivia obcecada com terninhos em vez de vestidos, e a neblina das lembranças será dissipada pelas palavras “Por causa das questões balísticas…".

Vai notar subitamente que funcionários do FBI usando macacões brancos estão entrando na parte do edifício que é agora chamada de “cena do crime". O lugar onde há centenas de cartuchos vazios de munição. O lugar onde há rios de sangue que começam a secar.

Vai observar enquanto o rabino dá um abraço no agente do FBI e vai perceber que ele está chorando, e vai perceber que você também está chorando.

Quando um terrorista visitar sua cidade, talvez você se veja, dias mais tarde, sentado com o rabino Wasserman enquanto ele diz que “a não ser que a pessoa seja um soldado numa zona de guerra, duvido que alguém me diga que já viu o que acabo de ver". Ele vai dizer que viu Bernice e Sylvan Simon, que se casaram na sinagoga, mortos nos braços um do outro. Dirá que viu o pedaço do crânio de alguém e soube quem era o dono porque reconheceu o cabelo.

E, quando você perguntar como está se sentindo, ele dirá que ainda não pode responder. Que precisa esperar um momento até terminar de enterrar os mortos restantes.

Quando sua cidade natal se transformar no palco de um assassinato em massa, lugares conhecidos ficarão parecidos com negativos fotográficos. O Centro Comunitário Judaico onde você ia à creche e participava da equipe de natação vai se tornar uma reunião de enlutados onde a mãe da sua melhor amiga, uma assistente social, trabalha como voluntária ao lado de dúzias de outros que buscam confortar os sobreviventes.

A quadra de basquete onde você foi a pior jogadora de todos os times vai se tornar um salão para acomodar jovens e velhos, brancos e negros, todos amontoados nas arquibancadas para acompanhar uma transmissão ao vivo do funeral do Dr. Jerry Rabinowitz.

Quando um terrorista vier à sua cidade, o lugar será transformado num circo pelo jornalismo da TV a cabo. Âncoras de cabelo engomado e botas sujas vão retratar protestos pacíficos e respeitosos contra o presidente como se fossem um distúrbio. Talvez seu pai apareça no programa “Anderson Cooper". Talvez sua mãe sirva um chilli para alguns repórteres.

Quando um terrorista vier à sua cidade, esteja preparado para os imitadores. Talvez você acorde alguns dias depois do ataque com sua mãe gritando: “Levante! Há alguém armado na escola de Casey".

E você vai vestir uma calça de qualquer jeito e sair correndo na direção da escola Colfax Elementary, onde uma de suas irmãs é uma professora querida. Ela estará trancada numa sala do segundo andar com sua turma do quarto ano. Policiais com cachorros vão circular o edifício. E o marido dela, um bombeiro, pode chegar armado. Pais, chorando, vão se reunir do outro lado da rua. Uma mãe estará vestindo uma calça estampada com abóboras e você vai lembrar que é dia das bruxas.

Mais tarde, sua irmã dirá que as crianças seguiram o protocolo de segurança, e tudo não passou de um alarme falso, por sorte. Entre outras instruções, eles são orientados a pensar em “armas" que possam usar contra alguém com armas automáticas. Um menino de perna quebrada empunhou a muleta. Outro tinha um pote de manteiga de amendoim. Outro segurava um recipiente de álcool-gel. Sua irmã vai contar que estava agachada sob a mesa, contendo as lágrimas enquanto sussurrava às crianças que elas estavam se saindo muito bem.

Se tiver sorte, quando um terrorista vier à sua cidade, você verá alguns dos melhores anjos desse país em ação.

Anjos como o pai que caminhava pelo quarteirão do lado de fora da Árvore da Vida enquanto explicava calmamente para o filho: “Estão tentando dizer às pessoas que virão invadir nosso país. E isso não é verdade".

Anjos como Wasi Mohamed, o jovem diretor executivo do Centro Islâmico de Pittsburgh, que não se calou e disse que, se o que vocês precisam é de “pessoas do lado de fora de sua próxima cerimônia, protegendo vocês, é só avisar. Estaremos lá". Ele disse que, ao fazer a oferta, está apenas devolvendo um favor. “Essa comunidade nos fez a mesma oferta após a eleição, tão negativa, que produziu um aumento nos crimes de ódio contra muçulmanos".

Anjos como as irmãs Alisa Fall e Melanie Weisbord, que passaram a noite de domingo ocupadas com o shmira - vigiando o corpo de uma das vítimas para que, respeitando os costumes judaicos, a pessoa jamais ficasse sozinha.

Anjos como Brett Keisel, jogador dos Pittsburgh Steelers que ajudou a carregar o caixão de David Rosenthal.

Anjos como Nina Butler, que trouxe potes de sopa caseira de galinha para um policial da SWAT que levou sete tiros e estava se recuperando no hospital.

Anjos como o rabino Jeffrey Myers, que viu os membros de sua congregação serem executados e ainda encontrou uma forma de representar sua comunidade perante o mundo com dignidade.

Anjos como Michael Sampson, que veio com uma imensa bandeira de Israel, ao lado da mulher, Leslie, e seus dois filhos para participar da manifestação. Seu filho de 11 anos vai lhe dizer: “Estamos aqui porque o ódio chegou a um lugar que deveria ser seguro. E isso não pode ser tolerado".

Anjos como o reverendo Eric Manning, da Igreja Metodista Episcopal Africana Emanuel, de Charleston, Carolina do Sul, que conhece a sensação de passar por um massacre parecido e compareceu na sexta feira para falar no funeral de Rose Mallinger.

Mas, em silêncio, você também vai se perguntar se esses anjos serão suficientes para impedir a multiplicação de ameaças contra comunidades como a sua.

O que ocorreu no meu bairro pode parecer um pesadelo ou uma doença - algo que precisa ser suportado, até finalmente passar, com o tempo. Foi assim que me pareceu. Mas, para aqueles que passaram suas vidas em Karachi ou Aleppo, as coisas que os judeus de Pittsburgh dão como certas - nossa liberdade em relação à violência e ao medo - são apenas sonhos idealizados.

Quando sua cidade no oeste da Pensilvânia se torna o palco de um assassinato em massa, sabemos que, num piscar de olhos, a distância separando a realidade deles da sua pode se tornar insuportavelmente pequena.

Bari Weiss é editora e escreve para a seção editorial.

Damon Winter é fotógrafo e foi premiado com o Pulitzer em 2009.

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