Meghan Dhaliwal/The New York Times
Meghan Dhaliwal/The New York Times

Quando voltar para casa é sinônimo de exílio

Mexicanos deportados dos Estados Unidos vivem as incertezas e os choques culturais de uma terra natal que não reconhecem

Kirk Semple, The New York Times

08 Abril 2018 | 10h15

CIDADE DO MÉXICO - Lalo Aguilar nasceu na cidade de Juárez, na fronteira do México, há 29 anos, tem passaporte mexicano e mora na Cidade do México. Entretanto, ele se refere ao México como um lugar para o qual foi desterrado.

“Desterro”, é como ele o define.

Em 2016, depois de morar praticamente durante toda a sua vida como imigrante ilegal em Utah, foi deportado para o México após de uma briga com a polícia em um protesto contra um projeto de lei sobre imigração.

“Não sinto afinidade alguma com este país”, afirmou. “A terra onde cresci, as montanhas, as florestas, aquela sim, é minha pátria”.

Ele faz parte de uma população cada vez mais numerosa de mexicanos que passaram a maior parte da sua existência nos Estados Unidos antes de regressar ao México por vontade própria, ou pela força. Muitos agora precisam lidar com sentimentos de perda, deslocamento e confusão.

As experiências dos que retornam são sempre mais tocantes com a intensificação do debate no Congresso dos Estados Unidos sobre o futuro de jovens imigrantes cujos pais migraram quando eles eram ainda crianças. Se o Congresso não concordar com uma solução que estenda a proteção legal a estes imigrantes, conhecidos como “dreamers”, eles terão de enfrentar novas ameaças de deportação. O programa dos “dreamers” protege cerca de 800 mil pessoas, a maioria mexicana.

Os que voltam voluntariamente e os que são deportados afirmam que regressar ao México tem certas vantagens. Eles podem se movimentar sem medo da deportação. Podem reatar relações com parentes há muito perdidos. Podem estudar em uma faculdade.

Mas muitos chegam a um país que jamais conheceram quando adultos, ou do qual não lembram. Alguns têm até dificuldade para se expressar em espanhol. E seu retorno pode marcá-los com o estigma da criminalidade ou do fracasso.

“Os primeiros dias foram uma espécie de choque cultural”, disse Aguiar, que cresceu em “uma cidadezinha mórmon, de brancos”, em Utah, como ele a define. Voltando ao México, “eu me isolei pela maior parte do tempo no meu quarto”.

A resposta do governo mexicano não pode atender à dimensão da luta destes jovens cidadãos que regressaram. O governo federal criou uma rede de centros de recepção para acolher os deportados com comida e acesso a um telefone e para ajudá-los com o seguro saúde, transporte e trabalho. Mas críticos afirmam que o alcance do programa é mínimo e seus efeitos são temporários.

Em função disso, surgiu um ecossistema, pequeno, mas em expansão, de organizações baseadas nas comunidades, como a New Comenzos, que nasceu em 2015 na Cidade do México. O fundador Israel Concha, 38, afirmou que grupos como o seu são uma tábua de salvação para os mexicanos ilegais nos Estados Unidos.

“Eles fazem as perguntas mais simples: ‘Estou estudando. Posso continuar minha formação no México?’”, conta Concha, que foi deportado em 2014, depois de viver 30 anos nos Estados Unidos.

Maggie Loredo, membro-fundadora de outro grupo, Otros Dreams en Acción, disse que nada disso existia quando ela retornou ao México em 2008. Na época, segundo ela, os que voltavam frequentemente guardavam para si as suas experiências americanas e lidavam sozinhos com os problemas emocionais e o choque cultural.

“Tudo era muito mais escondido”, contou Maggie. Mas como o número dos que foram deportados e dos que retornaram cresceu, agora eles estão encontrando uma maneira de se expressar, contribuindo para criar um terreno mais propício para os que não param de chegar.

Os que enfrentam o regresso “estão apavorados”, disse Concha. “Mas pelo menos há uma luz no fundo do túnel, e uma segunda chance para eles no México”. / Paulina Villegas contribuiu para a reportagem.

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