Dado Galdieri para The New York Times
Dado Galdieri para The New York Times

'Queermuseu' sobrevive a controvérsias e reabre no Rio de Janeiro

Mostra propõe debate sobre arte e liberdade de expressão

Ernesto Londoño, The New York Times

29 Agosto 2018 | 15h00

RIO DE JANEIRO - Se as coisas tivessem transcorrido conforme o planejado, a exposição inaugurada no ano passado no Brasil - que incluiu um desenho de crianças com as palavras 'travesti' e 'criança gay' - provavelmente teria sido apenas um episódio no ativo cenário artístico do país.

Gaudêncio Fidélis, o curador que reuniu as 264 peças que compõem a mostra do "Queermuseu", previra as críticas à mostra de arte. Mas nada o preparara para a torrente de polêmicas que fechou a mostra em poucos dias.

Mesmo depois do fechamento, a tempestade de críticas manteve o projeto na mídia, alimentando um debate, que se prolongou por meses, sobre a liberdade de expressão e sobre o que define a arte.

Após quase um ano de discussões, a mostra - que também incluiu um quadro da Virgem Maria embalando um macaco, e hóstias sacramentadas com palavras como "vagina" e "pênis" - reabriu recentemente no Parque Lage, no Rio de Janeiro, que também hospeda uma famosa escola de arte.

"Apesar da censura e do fechamento do 'Queermuseu', não houve alternativa senão reagir e acreditar que o futuro nos reservava esta vitória", afirmou Fidélis diante de uma multidão entusiasmada na cerimônia de abertura da mostra. Enquanto ele falava, foi interrompido por um pequeno grupo de manifestantes com a bandeira brasileira e cartazes com símbolos religiosos.

A controvertida exposição chamou a atenção para a batalha que se trava a respeito dos direitos dos homossexuais e transgêneros no Brasil.

Nos últimos dez anos, a região mostrou avanços pela igualdade legal de gays e pessoas Transgêneros. O Brasil começou a reconhecer a união homossexual em 2004, e em 2013 tornou-se um dos primeiros países das Américas a legalizar os casamentos entre pessoas do mesmo sexo.

Mas os defensores dos gays e dos transgêneros no Brasil também conseguiram algum progresso, é verdade que mais nos litígios do que na legislação, enquanto os eleitores vêm escolhendo políticos cada vez mais conservadores.

"A correlação entre as mudanças na área jurídica e uma maior aceitação social dos LGBTIs não é tão simples", afirmou Fabrice Houdart, representante da área dos direitos humanos na ONU. "Em vários países da América Latina, os direitos legais mudaram mais rapidamente do que as atitudes da sociedade".

À medida que o cenário político se tornava cada vez mais hostil, ativistas passaram a recorrer às artes e ao setor privado para reunir o apoio popular.

Este é um dos fatores que levaram Fábio Szwarcwald, diretor doa escola de arte do Parque Lage, a ressuscitar a mostra do "Queermuseu". Para sustentá-la, ele lançou uma campanha de financiamento coletivo, que levantou mais de R$ 1 milhão, valor recorde no Brasil.

A luta pela mostra do "Queermuseu" eclodiu dias depois de sua abertura, em setembro do ano passado, no centro cultural do Banco Santander, em Porto Alegre. Manifestantes denunciaram as obras expostas, as quais, segundo eles, ofendiam símbolos católicos e promoviam a zoofilia e a pedofilia. A arquidiocese de Porto Alegre emitiu um comunicado em que definiu as obras "um ataque à cultura judeu-cristã que contribuiu para a formação cultural do Ocidente". A nota também dizia que "em tempos de terrorismo e intolerância, não se constroem pontes com a agressão e o desrespeito por aquilo que há de mais íntimo e sagrado no outro: sua convicção religiosas e seu corpo".

O duelo entre dois lados da polêmica levou os executivos do Banco Santander a encerrarem a mostra. Fidélis primeiramente tentou transferir a exposição para o Museu de Arte do Rio. Mas Marcelo Crivella, prefeito da cidade e evangélico, disse que a instituição, mantida por verbas públicas, não aceitaria. Foi então que a escola de arte entrou em campo.

No dia da abertura da mostra, mais de 20 manifestantes foram alguns dos primeiros a chegar. Eles gritavam agitando seus cartazes: "A blasfêmia não pode se esconder na arte". Seus slogans logo foram sufocados por um grupo de mulheres acompanhadas por tambores.

Pouco depois do meio-dia, a fila de pessoas que queriam entrar se estendia por mais de um quarteirão. Na primeira semana após a inauguração, o "Queermuseu", que ficará exposto até 16 de setembro, atraiu cerca de 7 mil visitantes.

"Esta presença maciça é a prova de que os cariocas não aceitarão a censura", declarou Szwarcwald.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.