Matthew Abbott / The New York Times
Matthew Abbott / The New York Times

Queima preventiva ensina a controlar incêndios na Austrália

Prática tradicional de aborígenes, queimar vegetação rasteira ajuda a reduzir possibilidades de grandes incêndios; técnica deve levar em consideração temperatura do ar e condições do vento

Thomas Fuller, The New York Times

23 de janeiro de 2020 | 06h00

COOINDA, AUSTRÁLIA – Em uma época em que regiões da Austrália estão em chamas, Violet Lawson sempre tem um fósforo à mão. Nos bosques ao redor da sua casa, no extremo norte do país, ela costuma acender centenas de pequenos incêndios por ano. Estas práticas tradicionais dos aborígenes, com a finalidade de reduzir a vegetação rasteira que pode alimentar grandes incêndios, chamaram a atenção neste momento quando a Austrália se defronta com um futuro infernal.

Nos últimos dez anos, graças aos programas de prevenção de incêndios, principalmente nas terras dos aborígenes no norte do país, os incêndios florestais caíram pela metade. As organizações que utilizam as queimas defensivas ganharam US$ 80 milhões pelo sistema ‘cap-and-trade’, que limita a incidência destes desastres no país por reduzirem em 40% as emissões de gases do efeito estufa em decorrência dos incêndios no norte.

Estes programas estão sendo vistos como um modelo a ser adaptado para salvar vidas e habitações em outras regiões da Austrália, bem como nas diferentes partes do mundo sujeitas a incêndios, como Califórnia e Botsuana. “O fogo é o nosso principal instrumento”, afirmou Violet enquanto inspecionava um trecho queimado recentemente, onde a grama se tornou cinzas, mas as árvores ao seu redor estavam intactas. “É assim que protegemos a terra”.

Os programas de prevenção de incêndios, que receberam licenças do governo em 2013, hoje cobrem uma área que corresponde a três vezes a superfície de Portugal. Um dos objetivos destes antigos métodos aborígenes é reduzir a vegetação rasteira e outro tipo de combustível que acelera a propagação de fogos destruidores. Os indígenas, usando no momento adequado estes incêndios de baixa densidade, queimam deliberadamente as suas propriedades.

Quem estudou as técnicas aborígenes afirma que elas podem ser adaptadas em qualquer lugar. “Com certeza deveríamos aprender a usar o fogo como os aborígenes fazem”, indicou Bill Gammage, professor da Australian National University em Canberra. “Os nossos bombeiros têm métodos excelentes de combate ao fogo. Mas para impedir que se propaguem, não dispõem da técnica usada pelo povo aborígene”.

Recentemente, Victor Cooper, que trabalhou como guarda florestal no norte da Austrália, acendeu um monte de cascas ressequidas para mostrar qual é o tipo de fogo que queima a baixas temperaturas o suficiente para evitar danos às plantas sensíveis que servem de alimento para os animais.

Condições para pequenas queimadas

Os incêndios preventivos, ele afirmou, deveriam queimar sem se espalhar, e não alastrar-se repentinamente. E devem ser provocados no momento certo, de acordo com a temperatura do ar, com as condições do vento e da umidade, e com o ciclo de vida das plantas. As tradições dos aborígenes do norte dependem das monções, e queimam a terra parte por parte. “Nós não tememos o fogo”, disse Cooper. “Nós sabemos que, quanto mais cedo queimarmos, maior será a nossa proteção”.

Este ano, ele recebeu uma certificação para fazer parte do programa de créditos de carbono. O dinheiro ganho com este sistema incentivou a proteção da terra e criou centenas de empregos nas comunidades aborígenes, onde as taxas de desemprego são elevadas. Os recursos também contribuíram para financiar a construção de escolas.

Os que participam do programa estão frustrados pelo fato de outras partes do país relutarem em adotar o fogo como prevenção. “Tenho muitos amigos em outras regiões da Austrália que não conseguem entender que o fogo é um instrumento útil, que nem todos os incêndios são iguais e que é possível controlá-lo”, disse Andrew Edwards, especialista em incêndios da Charles Darwin University no norte da Austrália. “É difícil convencer as pessoas de que o fogo não é uma coisa ruim”.

Queima preventiva

Programas pioneiros de queima preventiva no norte do país foram fundidos nos anos 80 e 90, quando grupos aborígenes voltaram para os seus territórios nativos. Despovoada há dezenas de anos, a terra sofreu. Enormes incêndios dizimaram espécies e danificaram pinturas rupestres.

“A terra já não podia ser controlada”, lembrou Dean Yibarbuk, guarda de um parque, cujos moradores aborígenes mais antigos o haviam encorajado a buscar soluções. Yibarbuk, hoje presidente da Warddeken Land Management, uma das maiores organizações que participam do programa, emprega 150 guardas aborígenes. “Temos muita sorte, no norte, de poder preservar os nossos métodos tradicionais”, destacou. “Temos orgulho de voltar para o campo, para geri-lo e procurar solucionar o problema”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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