Wojciech Konarzewski via The New York Times
Wojciech Konarzewski via The New York Times

Quem compraria uma guilhotina? Objeto é leiloado por 8 mil euros

Christophe Février não sabe onde colocá-la, pois não quer exibir a réplica em um "ambiente familiar"

Alex Marshall, The New York Times

01 Agosto 2018 | 10h15

Em 2014, Christophe Février, empresário e pai de quatro filhos da cidadezinha de Château-Gontier, no noroeste da França, decidiu que havia uma coisa que ele devia possuir: uma guilhotina.

Certa vez, vira uma em um leilão em Paris. Tinha três metros de altura, a estrutura de carvalho, alguns dentes na lâmina, e com as palavras “Tropas da República” gravadas em suas placas de metal.

Na realidade, o engenho não havia sido usado para execuções durante a Revolução Francesa. Mas tinha certo valor histórico: foi construída em meados do século 19, aproximadamente na época em que a monarquia francesa foi abolida pela segunda vez.

Lady Gaga tentou adquirir a guilhotina em 2011, contou Février, 48, em um e-mail. Mas perdeu para um colecionador russo, que a arrematou por 223 mil euros, ou cerca de US$ 260 mil no câmbio atual.

Mas o russo esbarrou em um problema: a França não permite a exportação, ou importação, de instrumentos de tortura. Por isso, ela permaneceu em sua casa, um clube de jazz de Paris chamado Le Caveau des Oubliettes. Em julho, o objeto reapareceu em um leilão depois que o clube faliu. Os lances duraram apenas dois minutos; Février a arrematou por 8 mil euros - uma pechincha, alguns diriam.

Apesar do preço baixo e do fato de que se trata de uma réplica, a venda causou controvérsia. Um funcionário do departamento de imprensa da agência que supervisiona os leilões da França disse ao jornal “Le Parisien” que alertara o vendedor de que a venda era de mau gosto, embora a organização não tivesse nenhum meio para suspendê-la. As guilhotinas foram usadas para executar cerca de 4,6 mil pessoas na França, antes que a pena de morte fosse abolida no país em 1981.

Février declarou que não estava interessado no “simbolismo da morte” da guilhotina, mas que a considerava “um símbolo histórico relacionado à herança comum da humanidade”. E acrescentou: “Este objeto ocupa um lugar único na história do meu país e do mundo como um todo. E estará para sempre relacionado à identidade da França”.

“Nós somos livres para comprar o que quisermos”, afirmou Février. “Eu não me impeço de imaginar-me comprando certos objetos considerados ‘proibidos’”. E acrescentou que também estava interessado em comprar um carro que pertenceu a Pablo Escobar, o colombiano rei da cocaína.

Février disse que a compra da guilhotina não tinha nada a ver com qualquer tipo de fetiche, como “peças raras de arte e carros de corrida com históricos excepcionais”.

“Além do trabalho, gosto de arte, de viagens, corridas, gosto que me surpreendam e de surpreender os outros”, respondeu quando pedi que descrevesse a si mesmo.

Ele disse que ainda não decidiu onde colocará a nova aquisição. “Com quatro filhos, não quero exibi-la em um ambiente de família”, afirmou.

“Amigos e colegas ficaram extremamente surpresos e intrigados quando a comprei”, disse Février, acrescentando que logo eles admitiram que a compra combinava com a sua personalidade e que muitos já haviam expressado o desejo de vê-la. “Acho que é uma aquisição divertida”, disse.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.