Ilustração de Edmon de Haro para The New York Times
Ilustração de Edmon de Haro para The New York Times

Quem irá vencer o novo Grande Jogo mundial?

Diferentemente da polarização vivida na Guerra Fria, agora vivemos uma colisão de grandes poderes que estão tentando conter as esferas de influência uns dos outros

Jochen Bittner, The New York Times

05 Maio 2018 | 10h00

HAMBURGO, ALEMANHA - Afirmar que estamos vivendo uma nova Guerra Fria é um eufemismo e um erro categórico. O confronto entre o Oriente comunista e o Ocidente capitalista no século XX foi, ideologias à parte, a história de duas superpotências tentando se refrear. O conflito global de hoje é muito menos estático.

O que estamos testemunhando agora é um novo Grande Jogo, uma colisão de grandes poderes que estão tentando conter as esferas de influência uns dos outros. Ao contrário do Grande Jogo do século XIX, entre os britânicos e o Império Russo, que culminou na luta pelo domínio sobre o Afeganistão, o Grande Jogo de hoje é global, mais complexo e muito mais perigoso.

Você pode chamá-lo de Jogo dos Três. Envolve três atores principais, Rússia, China e Ocidente, que estão competindo de três maneiras: geográfica, intelectual e economicamente. E há três lugares onde as diferentes reivindicações de poder se chocam: Síria, Ucrânia e Pacífico. Muitos dos conflitos decisivos do nosso tempo podem ser definidos por uma combinação desses três conjuntos.

Em diferentes graus, governos e cidadãos do Cairo a Copenhague se mostram cada vez mais céticos sobre a democracia liberal e o internacionalismo do pós-guerra terem sido, ou virem a ser, a escolha certa para eles. Para todos os que duvidam, a China e a Rússia estão à disposição, como modelos alternativos e poderes protetores, oferecendo novos arranjos para alinhamentos bilaterais e multilaterais. Você não quer seguir o direito internacional, a integração europeia ou os esquemas anticorrupção? Venha conosco!

O que se provará mais atraente para o governo egípcio, por exemplo, no caso provável de uma nova revolta em massa no país: um alinhamento com a Europa, que está irritantemente rigorosa no respeito aos direitos humanos, ou um alinhamento com a Rússia, que já mostrou que vai fazer vista grossa diante da opressão no plano doméstico – mesmo se um aliado usar armas químicas contra seu próprio povo?

Enquanto a Rússia oferece ferocidade militar, a China oferece uma variante mercantil. Ao contrário do Ocidente, a China não permite que os direitos humanos e o Estado de Direito atrapalhem os investimentos. No final de 2017, Pequim aumentou seu investimento na Ucrânia, anunciando-o como um importante passo em sua nova Rota da Seda para a Europa. O governo de Kiev já declarou, alegremente, que 2019 será “o ano da China” na Ucrânia.

Consideremos os Balcãs. Como primeiro-ministro de um Estado balcânico, você pode esperar indefinidamente que a União Europeia permita que você entre no clube, depois de aceitar rígidos padrões de conformidade e implementar 80 mil páginas de leis exigidas. Ou pode recorrer a investidores chineses, que não vão pedir nada disso. Em 2016, o presidente da China, Xi Jinping, passou três dias em uma visita de Estado à Sérvia. No ano anterior, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, parou lá por apenas algumas horas.

Desde então, empresas chinesas controladas pelo Estado compraram a maior siderúrgica da Sérvia, o aeroporto internacional de Tirana, na Albânia, uma importante usina de carvão na Romênia e alugaram parte do porto de Pireu, na Grécia, só para citar algumas de suas aquisições estratégicas na Europa.

Embora a China não pareça impulsionada por agressivos sentimentos antiocidentais, como a Rússia, Pequim e Moscou compartilham um mesmo objetivo estratégico: reduzir a influência ocidental em todo o mundo. A China distribui dinheiro para fortalecer novas alianças, enquanto a Rússia distribui veneno político para enfraquecer as antigas. É um par perfeito.

Assim como no Grande Jogo do século XIX, o Kremlin tem a vantagem de não precisar se preocupar com as críticas públicas no plano interno, enquanto impõe uma agenda não liberal no exterior. Pelo contrário: se a aplicação de força militar no exterior tende a desestabilizar os governos ocidentais, parece apenas reforçar o regime do presidente da Rússia, Vladimir Putin.

A população russa, aliás, glorifica as atrocidades de seus ex-líderes e também as do atual. De acordo com uma pesquisa de 2017 do Levada Center, 38% dos russos consideram o assassino em massa Joseph Stalin a “pessoa mais marcante” da história mundial, seguido por Putin, com 34%.

É aí que entra a dimensão intelectual do Grande Jogo: a autocrítica social, algo estranho a boa parte da sociedade russa, é uma característica definidora de muitos países ocidentais. Tensões publicamente expressas e debatidas entre o Estado e o povo, e entre os vários segmentos do público, são o que fazem uma sociedade liberal funcionar.

Mas a força desse ceticismo pode se revelar uma fraqueza se explorada por um poder que busque a destruição do próprio conceito de verdade. Como força intelectual, a Rússia é para a Europa o que Mefisto foi para Fausto: “Eu sou o Espírito que nega!” Parafraseando Johann Wolfgang von Goethe, que escreveu a versão mais famosa de sua história: tudo que o Ocidente construiu corre justamente para a destruição.

É por isso que a desinformação russa e sua grotesca distorção dos fatos são tão eficazes. Putin sabe que os europeus estão profundamente desconfiados de seus governos em questões de guerra e paz, especialmente depois que vários deles se basearam em informações de inteligência distorcidas para justificar a guerra no Iraque. O veneno usado no ex-agente russo Sergei Skripal e em sua filha, na Inglaterra, e as armas químicas que caíram impunemente sobre crianças na Síria mataram não apenas pessoas, mas também a confiança nos representantes eleitos em Londres, Paris e Berlim.

Não há dúvida de que a comunidade internacional às vezes violou seus próprios padrões, conduzindo ações legalmente questionáveis ou flagrantemente ilegais no Kosovo, no Iraque e na Síria. Rússia e China estão fazendo o oposto: usam seu poder de membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas para barrar a justiça e minar o Ocidente.

Quem vai ganhar a longo prazo? É muito cedo para saber se o Ocidente está disposto a enfrentar o desafio coletivamente. A boa notícia, porém, é que a Rússia e a China ainda podem perder no novo Grande Jogo. Jogar é caro, e o poder que tenta agarrar uma visão mais ampla da ordem global tende a fraquejar, pois recursos e vidas gastas no exterior não conseguem trazer paz e progresso em casa.

O poeta alemão Theodor Fontane descreveu a catástrofe que acabou com a tentativa do exército britânico de assegurar sua hegemonia contra a Rússia no Indocuche, em 1842: “A jornada começou com 13 mil – um voltou do Afeganistão”. De uma forma ou de outra, Rússia e China podem colher resultados semelhantes em breve./ Jochen Bittner é editor de política na revista semanal Die Zeit.

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