Elizabeth Frantz para The New York Times
Elizabeth Frantz para The New York Times

Quem realmente quer Joe Biden como presidente dos EUA?

Segundo pesquisas, ele teria a maior chance de atrair eleitores independentes e republicanos moderados nas próximas eleições

Jill Filipovic, The New York Times

26 de maio de 2019 | 06h00

Qual é o requisito mais importante do candidato indicado para concorrer à presidência pelo partido Democrata? A elegibilidade. Ela é mais importante, segundo ouvimos continuamente, do que a indicação de um candidato que tenha em sua bagagem a aprovação de leis progressistas. Com certeza, ela é mais importante do que indicar uma candidata que poderia ser a primeira presidente. Infelizmente, poucas pessoas que afirmam colocar a elegibilidade em primeiro lugar entendem o significado de "elegibilidade".

Vejamos o caso em questão: em uma disputa em que se acotovelam quase 20 aspirantes, não há qualquer resposta que se possa dar à pergunta sobre elegibilidade e com maior convicção do que "Joe Biden". Biden, cuja campanha decolou oficialmente no dia 18 de maio na Filadélfia, é o tipo de sujeito que poderíamos ver sentado atrás de uma grande mesa de trabalho, agindo como o sábio guardião de nossa democracia sem constituir qualquer ameaça de uma mudança significativa. Ele vem de uma daquelas cidades industriais fragmentárias fetichizadas por inúmeros gurus - aquelas pessoas convencidas de que o imaginário eleitor branco da classe operária que entregará a Casa Branca aos democratas quer Joe Biden, e é isto, por sua vez, que torna Joe Biden elegível.

É verdade que, nas pesquisas, Biden está à frente dos outros democratas em campo por uma ampla margem, inclusive entre as mulheres e os eleitores negros. Entretanto, esta posição muito prematura nas sondagens reflete mais o reconhecimento de seu nome do que qualquer outra coisa; os dois principais candidatos para 2020, Biden e Bernie Sanders, são reconhecidos por 98% dos eleitores das primárias democratas nos EUA. A esta altura, em 2016, quem liderava para a indicação do lado republicano eram os candidatos Jeb Bush, Marco Rubio e Scott Walker.

O que as pessoas alegam para a elegibilidade de Biden não é que qualquer tipo de eleitorado se sente particularmente entusiasmado por ele, mas que ele tem a melhor chance de fazer com que os independentes, e talvez até mesmo alguns republicanos moderados, decidam votar em um candidato democrata. Contudo, o apagado eleitorado de esquerda votará nele, porque esta é uma emergência, e Donald Trump é muito pior. O cálculo é simples: o candidato mais próximo do eleitor mediano ganhará a maior fatia. Mas ser eleito não tem a ver com o fato de um candidato apelar para um eleitorado médio pouco entusiasta, mas para as pessoas que realmente se sentem motivadas a comparecer e votar.

O partido Democrata de 2019 não se parece muito com Joe Biden. Hoje, é muito mais provável que as mulheres´ e os eleitores afro-americanos, latinos e asiáticos digam que apoiam os candidatos democratas do que os republicanos. Os eleitores brancos, homens e principalmente os homens brancos em geral apoiam os republicanos. As estatísticas que mostram quem vota nos democratas também sugerem que o partido Democrata é mais diferenciado do que os especialistas que decidem quem é elegível.

Estes pressupostos sobre elegibilidade refletem mais preconceitos do que ciência política e, para começar, tem uma pitada de arrogância. Acredita-se que um candidato elegível precisa ser autêntico e exercer um apelo muito amplo. Mas a autenticidade em si, segundo os códigos, é branca e masculina, quando é definida pelos homens brancos.

Esta perpétua leitura das folhas de chá da classe trabalhadora branca (ou seria do lúpulo da cerveja?) só faz sentido se esses eleitores exercem realmente uma influência maior do que todos os outros. No partido Democrata, eles não são assim. Menos de um terço dos homens brancos sem formação universitária disseram que votaram em um democrata nas eleições de meio de mandato de 2018. E os democratas não precisam da maioria destes homens para ganhar.

As mulheres votam em maior número do que os homens. Os eleitores com formação universitária e pós-graduação comparecem às urnas em número maior do que os que não têm esta formação. Os grupos que apresentam maior comparecimento são os mesmos de tendência democrata. Se estiverem motivados para comparecer e votar, teremos um democrata na Casa Branca.

Mas, e os eleitores decisivos que passaram de Obama para Trump, que farão o sucesso ou o fracasso destas eleições, como fizeram na última? O partido Democrata não deveria deixar ninguém para trás, mas os brancos da classe trabalhadora estão encolhendo como parcela da base democrata, enquanto os brancos em geral declinam como parcela da população geral. Toda a premissa de que os homens brancos sem formação universitária são os únicos possíveis eleitores decisivos é falha.

Há também uma pequena evidência de que a maioria dos eleitores escolhe um candidato com base nas medidas que ele promete, e que um candidato moderado que elaborou os pontos de básicos da campanha de maneira a apelar para uma ampla gama de eleitores apresentará um resultado melhor do que um mais idealista. Mas os democratas terão melhores condições para considerar o que levará os eleitores às urnas. A derrota de Hillary Clinton pode ser explicada por diversos fatores, mas seguramente um deles foi a apatia: a certeza de que ela tinha as eleições ganhas foi provavelmente o que reduziu o comparecimento dos eleitores.

Desde a eleição de Donald Trump em 2016, nenhuma força foi maior do que as mulheres. A começar pela Marcha das Mulheres, depois o movimento #MeToo, e ao alcançar toda a força com a onda das mulheres nas eleições de meio de mandato em 2018, elas foram o eleitorado mais vibrante na América de Trump. Neste grupo, são as mulheres negras que constituem a espinha dorsal do Partido Democrata. Por isso, é desconcertante saber tudo isso e concluir que o candidato mais elegível é Joe Biden, um homem branco, idoso, estreitamente ligado ao assédio sexual e ao racismo.

Um democrata branco não conquista a Casa Branca há mais de 20 anos. Apesar disso, muitas pessoas concluíram que Joe Biden é o mais elegível do grupo. Esta conclusão diz muito a respeito de quem ainda supomos que sejam os guardiões mais apropriados do poder. Mas isso não esclarece muito quem poderá realmente ganhar em 2020.

Jill Filipovic é autor do livro The H Spot: The Feminist Pursuit of Happiness.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.