Daniel Zender
Daniel Zender

Quer esquecer? É preciso prática

Esquecer pode ser crucial para a recuperação da memória, a estabilidade mental e a preservação do nosso sentido de identidade 

Benedict Carey, The New York Times

05 de abril de 2019 | 06h00

Quaisquer que sejam as suas outras propriedades, a memória é uma encrenqueira em que podemos confiar. Dez minutos depois de começar uma entrevista para um emprego, surgem lembranças de um desastre acontecido no passado: o café com leite derramado, uma dolorosa tentativa de fazer graça. Dois encontros no início de um relacionamento caloroso e então afloram os flashbacks de um parceiro anterior, agressivo. Por que estes acontecimentos não podem ser enterrados juntamente com muitas outras vagas lembranças da mente?

Os cenários, os sons e as sensações deixam um traço neural mais profundo quando provocam uma forte reação emocional; isto ajuda a evitar estas mesmas experiências no futuro.

Entretanto, esquecer também é um mecanismo de defesa. Em geral, pessoas encontram uma maneira de enterrar, pelo menos de modificar, a maioria dos seus piores momentos. Acaso este processo poderá ser controlado?

Talvez. Um novo estudo, publicado no Journal of Neuroscience, sugere que algumas coisas podem ser intencionalmente relegadas ao esquecimento, embora o método usado para isto não seja intuitivo.

Recuperação da memória 

Esquecer foi considerado por muito tempo um processo passivo de declínio. Entretanto, acabamos de descobrir que esquecer é uma capacidade dinâmica, crucial para a recuperação da memória, a estabilidade mental e a preservação do nosso sentido de identidade. Isto ocorre porque rememorar é um processo dinâmico. No plano bioquímico, as lembranças não são tiradas da prateleira como vídeos que estavam lá guardados, mas reconstruídas pela mente.“Quando lembramos de alguma coisa, o ato de lembrar ativa um processo bioquímico que pode consolidar e reorganizar a lembrança armazenada”, disse Andre Fenton, neurocientista da New York University.

Mas a ativação da memória também  a torna momentaneamente frágil e vulnerável à mudança. É aí que entra o esquecimento intencional. Ele tem menos a ver com cancelar e mais com editar: uma nova revisão, um ajuste do foco e potencialmente um ofuscamento do incidente central daquela lembrança. Esquecer intencionalmente é lembrar de maneira diferente, de propósito. O esquecimento intencional talvez seja uma capacidade que pode  ser praticada e fortalecida.

No novo estudo, uma equipe chefiada por Tracy Wang, pesquisadora de pós-doutorado em psicologia na Universidade do Texas em Austin, pediu a 24 participantes que se sentassem em uma máquina de tomografia, enquanto realizavam um teste de memória.

Cada sujeito estudava uma série de cerca de 200 imagens, uma mescla de rostos e cenas, e deveria identificar os rostos como masculinos ou femininos, e as cenas como internas ou externas. Cada imagem aparecia por alguns segundos, depois desaparecia. Então,  o participante era solicitado a lembrá-la ou a esquecê-la; depois de alguns segundos, aparecia a imagem seguinte.

O efeito ficou claro com os resultados das imagens. Quando a atividade cerebral de um sujeito, uma medida da atenção mental, era particularmente elevada ou baixa, em geral correspondia a uma tentativa frustrada  de esquecer uma imagem. O esforço concentrado para esquecer a lembrança indesejada não contribuiu para ofuscá-la, e nem desviar mentalmente o olhar. Ao contrário, aparentemente havia um lugar ideal – uma atenção mental nem demasiado reduzida, nem muito grande – que permitia que a lembrança voltasse à mente e depois desaparecesse, pelo menos em parte.

“Isto seria um novo caminho bem-sucedido para o esquecimento”, concluíram os autores. “Para esquecer uma lembrança, a sua representação mental deveria ser realçada a fim de provocar o enfraquecimento desta lembrança". Esta percepção soma-se a uma quantidade de evidências que fazem duvidar de um modelo linear de esquecimento, segundo o qual uma menor atenção mental significa uma rememoração menor. Este modelo parece válido para alguns tipos de lembranças; ignorar deliberadamente é fundamental para a estratégia conhecida como supressão.

Outras estratégias exigem  alguma ligação com a lembrança. Uma delas é a substituição: ligar deliberadamente uma lembrança indesejada a outros pensamentos. Por exemplo, poderíamos diminuir a intensidade de uma lembrança humilhante concentrando-nos menos no sentimento de vergonha e mais nos amigos que posteriormente nos ofereceram apoio.

Os cientistas ainda não concluíram quais são as estratégias mais adequadas para determinados tipos de lembranças indesejadas. Mas uma compreensão mais clara seria um presente para terapeutas que trabalham com pessoas com as lembranças trágicas de traumas, de algo que nos envergonhou ou que negligenciamos.

Jarrod Lewis-Peacock da Universidade do Texas, coautor do estudo, afirmou que o seu laboratório procura usar o neurofeedback em tempo real com a finalidade de levar as pessoas ao estado mental sugerido pelo novo estudo: uma ligação moderada com a lembrança, nem excessiva, nem muito reduzida. “Esperamos que eles possam usar isto para dizer ‘Pense mais’, ou ‘Pense menos’, para eles mesmos entrarem nesse ponto mental ideal”, afirmou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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