Marijan Murat/DPA via Associated Press
Marijan Murat/DPA via Associated Press

Questões ambientais polarizam debate político na Alemanha

Algumas cidades alemãs devem proibir neste ano a circulação de automóveis com motores mais antigos a diesel, o que provocou revolta na população

Anna Sauerbrey, The New York Times

04 de maio de 2019 | 06h00

Quando Christian Lindner, presidente do Partido Liberal da Alemanha, afirmou recentemente que havia uma “guerra cultural com os automóveis” em seu país, as pessoas riram achando-o exagerado. Afinal,  os liberais são o partido alemão mais contrário à regulamentação e mais favorável às empresas, e ainda combate as medidas de proteção ao meio ambiente.

Lindner não deixa de ter razão. Há anos, a Alemanha esteve envolvida em uma guerra cultural a respeito da imigração, dos refugiados e da diversidade. Mas à medida que estes incêndios vão se apagando, outro começa a arder. O meio ambiente está se tornando a nova migração - um problema polarizador que a direita populista insufla e explora.

A migração é uma questão controversa  na Alemanha, é claro. Mas agora a histeria de 2015 e 2016 amainou. O número de pessoas que buscam asilo na Alemanha despencou - no ano passado, foram apenas 186 mil, ante 746 mil em 2016. E embora o partido Alternativa para a Alemanha (AfD) continue martelando  a imigração, a opinião pública em geral começa a deixá-la de lado.

Entretanto, os debates sobre o problema ambiental estão cada vez mais acalorados. Seja quanto à realidade do aquecimento global,  aos limites das emissões de gases do efeito estufa, ao futuro da mobilidade nas cidades ou à proteção das abelhas - o debate está se tornando polêmico e emocional, porque as pessoas começam a sentir as consequências  das políticas ambientais em suas vidas.

Este ano, algumas cidades alemãs proibirão a circulação nos centros urbanos de automóveis com motores mais antigos a diesel, com base nos limites estabelecidos pela União Europeia à emissão de dióxido de nitrogênio. As proibições, anunciadas em 2018, incitaram à revolta da população. Em janeiro, um grupo de médicos liderados pelo especialista em doenças pulmonares, Dieter Köhler, pôs lenha na fogueira questionando a validade dos limites da União Europeia. Há semanas, o médico Köhler vem sendo entrevistado por várias emissoras de televisão, e a AfD o enaltece como um herói, para falar contra o que considera mero paternalismo ecológico.

Andreas Scheuer, ministro dos Transportes, apoiou a declaração dos médicos - apesar das advertências da comunidade científica de que o Köhler não é epidemiologista, e não tem competência para se manifestar sobre a matéria. Na realidade, mais tarde soube-se que alguns dos pontos-chaves de Köhler estavam equivocados. Mas, àquela altura, já não importava. A proibição do diesel tornara-se politicamente tóxica.

Os alemães adoram seus carros - não só enquanto propriedade pessoal e como sinais de status, mas também como símbolos nacionais da capacidade dos alemães e do avanço da indústria. Por isso, faz sentido que o conflito na questão ambiental se concentre na proibição do automóvel.

Regine Günther, senadora dos transportes e meio ambiente de Berlim,  afirmou recentemente que "gostaríamos que as pessoas deixassem de lado seus carros”, e logo foi denunciada por demonstrar “o seu ódio pelos automóveis”, e foi chamada de “comunista verde” na mídia social.

Quando um relatório preliminar para o Ministério dos Transportes recomendou limites de velocidade nas autoestradas e um aumento do preço da gasolina a fim de reduzir as emissões de carbono, a resposta da população foi tão hostil que o ministério a desmentiu. Entretanto, há boas razões para se irritar quando o governo alemão pede sacrifícios aos cidadãos em nome da saúde do planeta, e permite que a Volkswagen e outras fabricantes de automóveis continuem enganando consumidores a respeito do nível das emissões.

Ao mesmo tempo, partidos populistas da Alemanha e da Europa promovem campanhas contra as normas ambientais. Esta oposição se enquadra perfeitamente nos discursos populistas com o seu ceticismo em relação à ciência, à ira pelo “politicamente correto” e ao reflexo libertário contra as regulamentações oficiais em geral. A direita tradicional segue o seu exemplo, afirmando que tenta excluir a extrema direita, mas na realidade ela se aproveita de um alvo político repentinamente atraente.

As questões ambientais produzem as mesmas divisões fundamentais da migração. Ambas as políticas visam objetivos globais e morais dos quais os cidadãos aproveitam somente em termos abstratos, ao passo que os custos são imediatos. Aceitar os que buscam asilo é uma responsabilidade moral global; os “custos” - escolas superlotadas, tensões nos bairros - são problemas locais. Deixar de lado carros velhos a diesel pode ser um passo vital para combater a mudança climática, mas agora como você imagina que irá para o trabalho?

Responsabilidade global

Quanto a temas como imigração ou meio ambiente, a posição de cada indivíduo é uma questão da sua visão de mundo. Se você dirige um carro ou vai de bicicleta tornou-se um símbolo dos valores que você adota ou rejeita no que se refere  ao conceito de responsabilidade global. Conservadores e tradicionalistas acham que estão sendo pressionados pelo imperialismo cultural das elites liberais urbanas que podem se permitir não ter um carro.

E é  nesta fratura, mais do que por uma política em particular, que o confronto é mais forte. Annegret Kramp-Karrenbauer, nova líder dos cristãos democratas, recentemente se virou contra  os “consumidores de latte macchiato” de Berlim, enquanto Scheuer, ministro dos Transportes, afirmou que, "no cenário político de Berlim, as pessoas tripudiam com discussões que muitas vezes nada têm a ver com a realidade cotidiana das pessoas fora da capital”.

Estamos de volta a 2015: Na época, eram os idealistas ingênuos defensores das fronteiras abertas contra os xenófobos. Agora, são os ideólogos urbanos sentimentais que abraçam árvores contra o ignorante devorador de diesel. O debate sobre a imigração dividiu os alemães, e tornou mais difícil chegar a uma política justa, coerente sobre a migração para o país e para a Europa. Pelo menos desta vez, as apostas - aliás, trata-se do futuro do planeta - são mais elevadas.

Como evitaremos cometer os mesmos erros? O primeiro passo é baixar a temperatura. O pessoal de esquerda precisa reconhecer que as políticas ambientais têm seus custos, e que eles precisam encontrar soluções se quiserem melhorar o seu ônus de todos os alemães. Os conservadores devem também resistir à atração de garantir votos explorando ressentimentos contra o bicho-papão do imperialismo cultural.

Proteger a saúde da Alemanha e o clima global são coisas muito importantes para estes jogos políticos. Nós sabemos a que se assemelha uma polarização deste tipo. Queremos realmente trilhar novamente esse caminho? / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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