Jillian Adel/The New York Times
Jillian Adel/The New York Times

Para casais inter-raciais, ativismo é a linguagem do amor

Ter conversas difíceis sobre racismo e brutalidade policial não é opção para negros e brancos em relacionamentos românticos, mas algo essencial

Brianna Holt, The New York Times - Life/Style

03 de agosto de 2020 | 05h00

Nos últimos meses, pessoas de todo o mundo usaram as redes sociais e foram às ruas para protestar contra a brutalidade da polícia contra pessoas negras. Os protestos eclodiram nos Estados Unidos, impulsionados pelas recentes mortes de negros, incluindo os assassinatos de George Floyd, Ahmaud Arbery e de Breonna Taylor.

Embora conversas difíceis - com a intenção de informar e provocar mudanças - possam ser novas entre amigos e colegas, elas não são novidade entre casais inter-raciais, nas quais apoio e ativismo não são apenas bônus. Eles são imperativos. "É importante ter alguém que esteja lhe ouvindo e apoiando com entusiasmo, e com quem você nem sempre precise estar no modo educacional", diz Bill Schaefer, escritor e ator, de 29 anos, em Nova York.

Ele e sua esposa, Jenny Rubé, de 28 anos, que é branca, estão casados há um ano e meio. Eles discutem ativamente a respeito do racismo e os efeitos sistêmicos e descarados que teve sobre Schaefer, que é negro. Mas a frequência de suas conversas e o ativismo de Jenny nem sempre foram tão predominantes quanto são agora.

“Houve um incidente específico quando estávamos em Vancouver e alguém fez um comentário para mim que me pegou completamente desprevenido”, disse Schaefer. “E ela não disse nada – não porque concordava com ele, mas porque ela também estava muito chocada.”

O incidente causou certa tensão em seu relacionamento e, simultaneamente, fez Jenny se sentir mal, resultando em uma discussão bem recebida e em mudanças imediatas. "Nunca havia vivido diretamente um ato de racismo e não sabia qual era a resposta apropriada", disse Jenny.

“Eu o decepcionei por não falar nada e apoiá-lo quando era importante. Minha falta de ação falou por si e às custas da dor do meu parceiro." E com a atenção nacional que esses casos estão recebendo, mais conversas estão acontecendo e mais ações estão ocorrendo. “Eu acho que, para ela, o que mudou foi perceber que não ser racista não é o mesmo que ser antirracista e, agora, ela realmente está levando isso a sério”, disse Schaefer.

“Ela realmente está comprometida em chamar a atenção ao que vê e reavivar pontos cegos em si mesma. Enquanto antes, ela poderia provavelmente ter ficado em seu canto.” Uma compreensão lúcida das provações e tribulações que os negros enfrentam nos Estados Unidos é algo que não é fácil de se alcançar, mas relacionamentos íntimos provaram criar entendimento e maior conscientização para parceiros não-negros.

Em um estudo de 2007, liderado por George Yancey, da Universidade do Norte do Texas, 21 parceiros brancos em relacionamentos inter-raciais foram entrevistados. A pesquisa mostrou que os brancos que se casam com pessoas de outras raças provavelmente mudam de ideia a respeito de como a raça desempenha um papel na sociedade.

Além disso, as pessoas brancas que se casam especificamente com parceiros negros são ainda mais propensas a pensar além das ideias teóricas como resultado da exposição ao racismo por estarem com seus parceiros. Infelizmente, problemas com familiares e amigos não são raros nos relacionamentos entre parceiros negros e brancos, geralmente fazendo com que o parceiro negro responsabilize o parceiro branco e este último tendo que, figurativamente, escolher um lado.

Racine Henry é terapeuta de casais e família em Nova York. “A questão mais comum que vejo para os casais inter-raciais, especificamente entre casais com brancos e negros, é, à medida que o relacionamento avança e se torna mais significativo, ter que ajudar as pessoas ao redor deles a aceitá-los – e eu odeio a palavra "aceitar" porque implica que há algo para ser aceito – não apenas como um casal que está saindo em uma fase preliminar, mas querendo morar juntos ou se casar ou ter filhos”, disse ela.

“Isso traz à tona aspectos culturais diversos e diferentes conversas com temas raciais que afetam a forma como o casal se relaciona". A clientela de Racine varia entre casais de diferentes origens, tanto intrarraciais quanto inter-raciais, mas são os casais com brancos e negros que geralmente sofrem com a dificuldade de navegar de modo que cada um se apoie adequadamente. “Eu sempre incentivo os casais a ter essas conversas difíceis em relação à raça fora do consultório, quando estão em casa, porque o objetivo da terapia não é o que você faz ali, é o que você faz o tempo todo na sua vida real", disse.

“Ter essas conversas os conscientizará do que acontecerá para cada um deles individualmente. Você sabe, se o parceiro branco sente que o casal está sempre tentando se defender, o que isso diz a respeito do parceiro? O que significa para eles aceitar o fato de que podem ter sido ofensivos e ignorantes e que nunca entenderão verdadeiramente o que é estar na pele negra e o que isso pode significar para quando tiverem filhos, comprarem uma casa ou viajarem pelo mundo juntos."

Rancine disse que é igualmente importante para o parceiro negro pensar em seu possível racismo internalizado e talvez em algumas das maneiras pelas quais estar com alguém que não é negro é fonte de vergonha ou culpa para eles. Esse sentimento, ela disse, pode resultar de mensagens que eles podem ter recebido desde a infância ou de sua família, ou mesmo de amigos que sugerem que estão fazendo algo errado ou algo que não é progressivo por estar com alguém que é branco. Mesmo os casais mais jovens enfrentam esses problemas.

Sharon Nealy, de 21 anos, conheceu seu noivo, Buck Barfield, de 22 anos, quando ela tinha 16 e viu enormes mudanças e desafios ao longo de seus cinco anos juntos. Sharon, que é negra, irá estudar na Medical University of South Carolina no próximo outono, enquanto Barfield, que é branco, trabalha como soldador, um trabalho que, segundo Sharon, obteve respostas negativas da maioria das pessoas negras em seu círculo social com o qual convivem em Lancaster, Carolina do Sul.

“Eu escuto um monte de ‘esse branco, que nem é tão bom assim, vem e tira a melhor de nossas mulheres negras. Há homens negros por aqui que estão se saindo muito bem e seriam um parceiro melhor para você e mais fácil de se conviver''', disse Sharon. Em momentos como esses, Sharon defende o relacionamento deles. E embora a família fortemente republicana de Barfield tenha causado uma ferida no relacionamento, o apoio mútuo e a possibilidade de discutir abertamente o tema raça continuam sendo sua principal prioridade.

"Sempre foi importante para mim ter certeza de que tenho um parceiro que me apoia e tenta fazer um esforço para entender o máximo que pode. É algo do qual não poderia abrir mão”, disse Sharon. "Sempre conversamos a respeito de raça, mas isso aumentou com tudo isso que está acontecendo. Fomos a um protesto juntos outro dia e ele está aprendendo, ele está ouvindo e tentando apoiar sem tentar tomar minha voz também.”

Rancine disse que ser aberto quanto às diferenças é a única maneira de alcançar algum nível de entendimento em relação a como os casais lidarão quando elas surgirem. “A raça nunca vai desaparecer. Ela sempre estará presente e será agravada quando você fizer coisas como morar juntos, ter filhos, mudar ou aceitar novos empregos ", disse ela. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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