Será possível combater racismo com aulas de biologia?

Será possível combater racismo com aulas de biologia?

Pesquisa aponta currículo escolar como aliado para derrubar explicações genéticas sem fundamento para a desigualdade racial maciça

Amy Harmon, The New York Times

04 de janeiro de 2020 | 06h00

COLORADO SPRINGS — Os livros didáticos de biologia usados nas escolas americanas do ensino médio não comentam assuntos polêmicos como uma explicação genética para o número desproporcional de americanos negros entre os jogadores de futebol americano ou o número desproporcional de brancos e asiáticos entre os cientistas dos Estados Unidos.

Mas, em um estudo iniciado em dezembro, um grupo de pesquisadores de biologia de todos os EUA começou a testar a ideia segundo a qual a aula de ciências pode ser o melhor lugar para combater os equivocados achismos genéticos para explicar as diferenças entre os humanos, que muitas vezes se tornam a base da intolerância racial.

Em um treinamento recente realizado no Colorado, doze professores que se candidataram como participantes do experimento reconheceram o desafio de inserir temas como raça e descendência nas aulas a respeito do experimento de Gregor Mendel no século 19 e a função básica do DNA inserido em cada célula.

As categorias raciais de hoje surgiram muito antes da área da genética, e foram usadas para justificar todo tipo de política discriminatória. O conceito social de raça, relacionado à cultura e à família, não é um assunto estudado na genética da população humana, que costuma usar conceitos como “ancestralidade” ou “população” para descrever grupamentos genéticos geográficos.

Mas isso não impediu muitos americanos de acreditarem que os genes levam os grupos raciais a apresentar talentos, traços e habilidades diferentes. E, entre alguns professores de biologia, há a crescente sensação de que a ideia de evitar a menção direta à raça nas aulas de genética estaria saindo pela culatra.

“Sei que é ameaçador", disse Brian Donovan, pesquisador da ciência do ensino da organização sem fins lucrativos BSCS Science Learning, que comanda o estudo. “O importante é lembrar que as crianças já estão interpretando os conceitos de raça na biologia sem a nossa orientação.”

Em levantamento realizado em 2018 com 721 estudantes de escolas do ensino médio de público rico e predominantemente branco, o Donovan descobriu que um em cada cinco concordava com afirmações como “Membro de um grupo racial são mais ambiciosos do que membros de outro grupo racial por causa de questões genéticas."

“A crença nas causas genéticas para a desigualdade racial ainda é generalizada nos EUA", escreveu Ann Morning, da Universidade de Nova York, e seus colegas.

Novo currículo escolar

Donovan argumentou que aulas de biologia do currículo escolar podem oferecer a única oportunidade para derrubar explicações genéticas sem fundamento para a desigualdade racial maciça. Escolas do ensino fundamental e médio são o primeiro lugar onde a maioria dos americanos aprende a respeito da genética.

O novo currículo reconhece a existência de diferenças genéticas menores entre populações geográficas vagamente associadas a categorias raciais. Mas a unidade também transmite aquilo que os geneticistas reiteram: as pessoas herdam seu ambiente e sua cultura com os genes, e é desafiador separar um do outro. Uma parte fundamental da grade envolve ensinar os alunos a “compreender os limites do nosso conhecimento", argumentou Donovan.

Teste

Em um estudo-piloto, alunos de oito salas de aula expostos a uma versão do currículo apresentaram menor probabilidade de defender argumentos sugerindo que grupos raciais tenham qualidades definidoras determinadas pelos genes. 

Na sessão de treinamento, professores pensaram em formas de ajudar os estudantes, especialmente os alunos negros, que parecem defensivos ou assustados, cabisbaixos ou calados, e de reconhecer a natureza sensível do tema. “Algo entre ‘Essas ideias são perigosas’ e ‘Como fazer para se ter um debate seguro a respeito de ideias perigosas?’ ”, explicou um dos docentes. “Mas eu teria de praticar mais, para não engasgar com as palavras como agora.”

Preconceito racial

Os professores disseram que as crenças dos alunos a respeito das diferenças genéticas vêm à tona nos comentários casuais a respeito de quem sabe dançar e quem é inteligente. Alguns indicaram que também estariam por trás das expressões de intolerância que marcam muitas escolas. 

“Eles sabem que o DNA é o responsável por diferenças na cor da pele", afirmou um professor do estado de Washington, “e extrapolam para a ideia segundo a qual o DNA definiria a ‘raça’.”

Um grupo de alunos do terceiro ano do ensino médio que começou o curso de genética em dezembro ficou sabendo que os benefícios da participação incluem “um currículo com base em pesquisas para ensinar ideias complexas da genética". Em relação aos riscos, os alunos foram avisados que é possível que sintam menos à vontade em certas aulas de ciências. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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