Caitlin Ochs/The New York Times
Caitlin Ochs/The New York Times

Não precisamos gostar das estátuas, mas apenas compreendê-las

A eliminação dos monumentos deveria ser abordada caso a caso; as imagens políticas públicas nunca são inocentes

Holland Cotter, The New York Times - Life/Style

23 de julho de 2020 | 12h22

NOVA YORK – Algumas coisas são tão chocantes que a gente não para de olhá-las. E, gostemos ou não, acabamos vendo o mundo através delas. A realidade não mudou; a gente é que mudou: e tal constatação faz a gente querer modificar a realidade. Neste instante. Isto descreve claramente a física da causa e efeito a respeito da liberação, no dia 25 de maio, do vídeo do celular de George Floyd, imobilizado no chão por um policial de Minneapolis, enquanto a vida lhe era tirada, segundo por segundo.

Nos protestos que se seguiram, as imagens de supremacistas brancos de todos os tipos – memoriais de confederados, estátuas de donos de escravos, tributos erguidos a colonizadores – passaram a ser atacadas. Algumas foram destruídas, outras foram arrancadas do seu pedestal e guardadas em algum depósito; outras ainda foram deixadas em seu lugar, à espera de um destino incerto.

Mais recentemente, o movimento contra os monumentos aparentemente está indo além da reivindicação de justiça racial. Em Madison, Wisconsin, os manifestantes derrubaram uma estátua de Hans Christian Heg, um abolicionista que morreu tentando acabar com a escravidão.

Entre as diversas imagens na cidade de Nova York, uma das mais polêmicas, a estátua equestre de Theodore Roosevelt na entrada do Museu Americano de História Natural, teve enfim o seu dia de acerto de contas. O próprio museu pediu à prefeitura a permissão para retirar a estátua, permissão que lhe foi concedida.

Em uma declaração à imprensa, o museu tomou o cuidado de explicar que a razão de sua solicitação para a retirada de Roosevelt – cujo pai foi um dos fundadores do museu – não constituía o problema principal. E sim a ótica do museu. Roosevelt é uma figura histórica complexa, um composto ético instável de bem e de mal. Ardente conservacionista, ele colocou enormes extensões de terra dos EUA sob a proteção federal, só que as tirou, na maior parte, de americanos nativos.

Ele tinha uma visão internacionalista, mas em geral considerava os recursos mundiais, particularmente partes do mundo pertencentes a populações de pele escura, presa fácil. Com uma altura de pouco mais de 7 metros e uma base de cerca de 2,5, a obra datada de 1940, de James Earle Fraser, retrata Roosevelt, armado de pistolas e a cavalo de um impetuoso corcel. Embaixo dele, caminhando de cada lado do cavalo há outras duas figuras masculinas, um americano nativo, um africano, ambos em trajes “nativos”, suas cabeças pouco mais altas do que suas costas.

Ambos carregam um rifle. Seriam os carregadores de armas de Roosevelt? Seus guias? O seu aparato de segurança? Seja como for, ele parece não precisar dos dois. O rosto do presidente está atento, resoluto, em sua marcha para frente; o deles é passivo, humilde, os olhos voltados para o chão.

Evidentemente, a imagem é uma fantasia, que pode ser, e foi interpretada de várias maneiras. Um historiador considerou as figuras a pé uma personificação alegórica da África e da América. Para o próprio Fraser, elas representaram “a afabilidade de Roosevelt para com todas as raças”. Mas para olhos contemporâneos, a postura do supremacista branco em sua composição, é inconfundível, inaceitável: o heroico homem branco no topo do mundo.

Sem dúvida, o sentido deve ser este mesmo. E no alardeado “grande despertar” para a injustiça racial do momento atual no nosso país (quanto irá durar? Até que ponto será profundo?) o museu, e a prefeitura, procuraram entender isto. Mas há outra pergunta. O que faremos com os outros monumentos que têm uma composição semelhante, mas imagens e histórias mais complexas, e são, além disso, obras de distinção estética (afirmação raramente feita para a estátua de Roosevelt)? Penso no memorial a Robert Gould Shaw e no 54º Regimento de Massachusetts, em Boston – um monumento que foi rabiscado com pichações durante os protestos de maio.

Este baixo-relevo em bronze de Augustus Saint-Gaudens, instalado no parque Boston Common em, 1897, também se concentra em uma figura equestre, neste caso cercado por homens pretos em uniforme militar. Ele celebra Shaw como comandante da primeira brigada armada de voluntários pretos da União que foi formada em Boston, em 1863, e marchou para uma batalha na Carolina do Sul, onde muitos soldados, inclusive Shaw, morreram, e onde todos eles foram sepultados juntos. A interpretação neste caso vê também o “supremacista branco”: a composição hierárquica em termos raciais, a dedicatória com um único nome, a sugestão de segregação que vigorava no exército da União.

Ao mesmo tempo, será que todo um discurso sobre lealdades inter-raciais entre o líder e a tropa, abrandaria de certo modo o julgamento da obra? Ou o fato de que Frederick Douglass foi a Boston para a inauguração da estátua em 1897? (Dois dos seus filhos estavam no 54º Regimento). Ou mesmo o fato de o baixo-relevo de Saint-Gaudens ser considerado uma obra prima da arte pública americana? A avaliação completa de tais fatores exige algum conhecimento de história, disciplina que há muito deixada de lado na educação.

A história de Shaw e do 54º Regimento, ou pelo menos uma versão fortemente romanceada, tem a vantagem da exposição popular: Ela foi o tema do filme Tempo de glória, de 1989. Mas mesmo assim, o monumento foi o alvo dos manifestantes. E a questão real é, qual é a resposta correta – no sentido de útil – à imagem de uma notória dinâmica de poder racial do monumento? Eliminá-lo ou escondê-lo? Ou explicá-lo? Tudo isto para dizer que a eliminação dos monumentos deveria ser abordada caso a caso. As imagens políticas públicas nunca são inocentes.

Mas algumas são complexas, com perguntas a serem feitas e lições a serem ensinadas, enquanto outras - os chamados monumentos confederados da Causa Perdida, criados muito depois da Guerra Civil para reafirmar o poder branco – são, e pretenderam ser, armas de assalto racistas, pura e simplesmente. Na atual tendência saudável, a neutralizar as imagens que nos chocam, é necessário, em nome da história, que, de início, nos afastemos, olhemos cuidadosamente, e façamos uma escolha.

Quanto à eliminação do monumento de Roosevelt, que não foi oficialmente anunciada, tenho uma ideia. Claramente um artefato racista, a obra não pode continuar servindo como introdução visual a uma instituição que, por meio do seu moderno departamento de etnologia, se destina intensamente ao estudo da cultura humana.

Sugiro que o museu conserve a escultura, mas a exiba por aquilo que ele é: um espécime etnológico em tamanho superior ao normal, produto de uma era e cultura específicas (foi inaugurado em 1940, um ano depois do lançamento do filme sobre a Causa perdida, E o vento levou) , hoje, na era e na cultura diferentes, de Vidas Negras Importam, sujeito a uma avaliação crítica.

Esta mudança conceitual no seu uso e valor exigiria que ela fosse transferida, menos a base, para uma galeria – e um contexto adequado para ser exibida já existe. Em 2019, em resposta a protestos anteriores a respeito da escultura, o museu organizou uma pequena mostra documental que ainda é exibida, chamada Sobre a estátua, que detalha a história da obra e inclui comentários de etnólogos, historiadores sociais, historiadores da arte e artistas contemporâneos.

Quase todos eles dizem, de maneiras diferentes, que o monumento não é uma coisa boa, e nunca foi. E que seria útil para que públicos contemporâneos e futuros pudessem aprender por que razão não é uma coisa boa, e porque esta coisa não boa – grande e agressiva como um Tiranosauro – ficou onde ficou nesta cidade por tanto tempo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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