Anissa Baty/The New York Times
Anissa Baty/The New York Times

Vigílias com violinos honram a memória de Elijah McClain, vítima da violência policial nos EUA

Atenção para o caso foi renovada com os recentes episódios de violência racial no país; três policiais foram demitidos após serem flagrados sorrindo e zombando em memorial montado para lembrar McClain

Giulia Heyward, The New York Times

02 de agosto de 2020 | 05h00

Ashanti Floyd não conseguia dormir.

Como negro, Floyd estava acostumado a sofrer com casos como o de Elijah McClain, 23 anos, que morreu enquanto era detido pela polícia em Aurora, Colorado, no ano passado. Mas, conforme ele lia a respeito do caso em junho, um dos muitos encontros mortais entre negros e policiais que estão recebendo novo escrutínio nos últimos meses, um detalhe chamou a atenção de Floyd: McClain era violinista, assim como ele.

"Tudo o que me lembro é de rezar pela paz", disse Floyd em uma recente chamada por Zoom. "Eu senti que aquele garoto poderia ter sido eu."

Ele passou a noite inteira virando de um lado para o outro da cama depois que descobriu isso. E quando soube pelas mídias sociais na manhã seguinte a respeito de uma vigília em Aurora, onde violinistas e outros músicos de cordas planejavam se apresentar em um parque para homenagear a memória de McClain, Floyd decidiu que ele deveria estar lá.

Ele reservou um voo de Atlanta e embalou o violino. Quando ele desembarcou no Colorado, foi recebido por um amigo e colega violinista, Lee England Jr., que acabara de chegar de Nova York. Depois que conversaram com as pessoas que montaram o evento, começaram a organizar as partituras.

"Trabalhamos em parceria com os organizadores", England disse durante a mesma chamada de Zoom que Floyd participava. "Mas quando se tratava de música, basicamente assumíamos o controle".

Quando chegaram à vigília em 27 de junho, a dupla se apresentou com dezenas de outros músicos de cordas, tocando músicas como Amazing Grace e Hallelujah. Os espectadores gravaram vídeos da apresentação, da qual participaram membros da família McClain, e também capturaram imagens do Departamento de Polícia de Aurora intervindo com equipamento para dispersar as pessoas e bombas de gás lacrimogêneo, depois que os oficiais declararam a reunião ilegal. Os manifestantes então deram os braços uns aos outros formando um círculo ao redor dos músicos.

"Nós podíamos escutá-los enquanto tocávamos", England disse. "Mas eu sabia que iria apenas continuar tocando."

O incidente se tornou um viral. Floyd e England não esperavam vigílias semelhantes em outros lugares - mas agora uma estava marcada em Nova York, dois dias depois. Então houve uma em Boston no dia seguinte e outra em Portland, Oregon - uma dúzia em duas semanas. Inclusive em cidades como Nova Orleans, Chicago e Bowling Green, Ohio, músicos e organizadores da comunidade continuam a realizar vigílias de violino - quase 20 e contando - em homenagem a McClain, atraindo centenas, às vezes milhares, de participantes.

"Lembro-me de fazer um cartaz para a vigília no meu telefone", disse Karla Mi Lugo, artista performática que ajudou a organizar o evento inicial em Aurora. "Falei com pelo menos 10 pessoas diferentes em cidades diferentes que me procuraram para falar que estavam organizando suas vigílias."

A atenção renovada às circunstâncias da morte de McClain teve efeito. O governador Jared Polis, do Colorado, nomeou um promotor especial para investigar o caso. E três policiais de Aurora foram demitidos por causa de fotos tiradas perto de um memorial montado em memória de McClain que mostra dois deles sorrindo e zombando de sua morte.

À medida que as vigílias de violino se proliferam, vários artistas com formação clássica estão a postos: as salas de concertos estão fechadas há meses por causa da disseminação do novo coronavírus, deixando os músicos desempregados em todo o país. Organizadores em Boston, em Columbus, Ohio; e Portland relataram um padrão semelhante: os eventos planejados em apenas alguns dias estão recebendo rápidas respostas e um comparecimento impressionante de pessoas.

"Não tínhamos ideia de que isso iria acontecer", disse Floyd. "Não achamos que criaríamos essas ondas. Mas acho que é isso o que acontece quando você é músico e tudo o que tem é tempo disponível. "

Embora muitos músicos se alegrem com a chance de se apresentar após meses sem shows, eles observaram que essa ocasião é sombria. "Estou realmente em conflito", disse Zack Brock, violinista da banda Snarky Puppy, quanto a sua experiência em ajudar a organizar a vigília em Maplewood, Nova Jersey. “Foi horrível que a primeira vez que me apresentei desde o início da pandemia tenha sido porque um negro foi morto pela polícia. Eu sentia falta de tocar para as pessoas, porque fazia muito tempo que não fazia isso. Mas eu realmente estava lá porque queria ajudar.”

Esse sentimento é compartilhado por Floyd e England, que inicialmente se preocuparam com o fato de as pessoas confundirem as vigílias com autopromoção ou celebração. "É tudo em nome de Elijah McClain", England disse. "E realmente espero que as pessoas vejam que há mais do que apenas uma maneira de protestar. Não queremos que isso seja apenas algo como um ato de publicidade. "

England relembrou uma conversa com o escritório de comunicações do prefeito de Aurora, que entrou em contato com ele alguns dias após a vigília no local. O gabinete do prefeito, disse ele, sabia que eles "tinham estragado tudo" porque o Departamento de Polícia havia interferido no protesto e queria "compensar" - ele e Floyd.

"Eu disse a eles que eles devem fazer o que precisa ser feito pela família McClain", England disse. "Não é sobre nenhum de nós. Nós estávamos lá pela família de McClain. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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