Observatório de Arecibo via The New York Times
Observatório de Arecibo via The New York Times

Radiotelescópio de Arecibo está temporariamente danificado por um acidente

O telescópio foi por mais de meio século um dos grandes ícones do anseio interestelar do homem

Dennis Overbye, The new York Times - Life/Style

05 de setembro de 2020 | 22h00

A estrada que leva ao Observatório de Arecibo, no noroeste de Porto Rico, sobe sinuosa em meio a fazendas e trechos de mata tropical. Galinhas cruzam a estrada. Depois, repentinamente, chega-se ao topo: uma cerca, guardas e luminosos edifícios e torres brancos, como se tivéssemos tropeçado no covil de um vilão dos filmes de James Bond.

Pendendo no céu como o esqueleto de um disco voador, suspensa por cabos das três torres no cume da montanha, há uma gigantesca estrutura triangular de vigas. Cento e oitenta metros vertiginosos abaixo, aninhado em um vale semelhante a um buraco, há um prato de alumínio de 310 metros de largura - uma antena que capta ondas de rádio do cosmos ou as envia para lá.

No início de agosto, todos os corações do universo tremeram quando se espalhou a notícia de que um cabo caíra rasgando 33 metros da antena, que ficou temporariamente fora de serviço. O telescópio de Arecibo foi por mais de meio século um dos grandes ícones do anseio interestelar do homem. Construído em 1963, foi o grande feito na procura de inteligência extraterrestre, SETI, a busca otimista por sinais de rádio de civilizações alienígenas.

Em 1974, os astrônomos enviaram sua mensagem para o vazio, rumo a um grupo de estrelas conhecido como Messier 13. (A duração da jornada será de 25 mil anos, por isso não deveremos esperar uma resposta por pelo menos 50 mil anos.) Os astrônomos usaram o observatório para mapear perigosos asteroides que passam perto da Terra, e para medir a frequência de rotação de Mercúrio.

Graças à extrema sensibilidade da antena, eles sintonizaram os enigmáticos blips do mecanismo de pulsares distantes, discernindo em seus ritmos mutantes os segredos da física extraterrestre. Há anos, o National Astronomy and Ionosphere Center, como o observatório é conhecido oficialmente, hospeda a maior antena de rádio do planeta, só superada em 2016 por um novo telescópio de 500 metros de diâmetro, da China.

“É um instrumento científico notável, emblemático dos nossos anos de confiança na ciência”, disse em um e-mail Michael Turner, um cosmólogo hoje na Fundação Kavli e ex-diretor assistente da National Science Foundation. “Tão notável que os chineses o copiaram”. Na manhã de 10 de agosto, um dos cabos que prendiam a estrutura triangular em que se encontram os receptores de rádio da antena, se soltou e despencou sobre ela. Cerca de 250 dos 38.778 painéis de alumínio que formam o prato foram danificados. Ninguém se feriu.

O diretor de Arecibo, Francisco Córdova, da Universidade da Flórida Central, e Ramon Lugo, diretor do Instituto Espacial da universidade da Flórida e principal investigador do observatório, informaram em uma videoconferência pela Zoom, dias mais tarde, que ninguém tinha conhecimento do motivo pelo qual o cabo, de mais de 8 centímetros de diâmetro, se soltou.

O cabo havia sido instalado nos anos 1990 para reforçar o suporte de um novo acréscimo à plataforma do instrumento de 800 toneladas, e deveria durar mais de 15 a 20 anos, disse Córdova. Nem tampouco os dois pesquisadores sabiam quanto levaria para reparar o dano, ou quanto custaria. Fabricar e enviar um novo cabo poderia levar meses, disse Lugo. A perda de algumas centenas de painéis não é muito significativa, segundo Córdova.

O problema maior é garantir que a plataforma de instrumentos seja estável do ponto de vista da estrutura. “Já fomos testados antes”, acrescentou Córdova, referindo-se a uma longa história de acidentes e crises, até terremotos, o furacão María, em 2017, e agora a pandemia da covid-19. “Este é apenas mais um obstáculo no caminho”.

O observatório de Arecibo foi construído e administrado pela Universidade Cornell sob contrato com o Air Force Research Laboratory, em parte pelo desejo de compreender as propriedades de objetos como ogivas nucleares que despencam da atmosfera superior.

Como resultado, foi construído para ser um telescópio e um radar planetário. Um dos seus diretores, ao longo dos anos, foi Frank Drake, famoso por ser o primeiro a apontar um radiotelescópio para outra estrela em busca de alienígenas amistosos, na época por uma equação, usada ainda hoje, que tenta prever quantos “deles” estão lá fora. No dia 16 de novembro de 1974, Drake transmitiu o equivalente a uma mensagem de 20 trilhões de watts para a M13, uma nuvem de cerca de 300 mil estrelas, algumas a cerca de 25 mil anos-luz da Terra, como parte de uma comemoração pela modernização da antena.

A mensagem consistia de 1.679 zeros e uns. Colocada em 73 fileiras e 23 colunas, os bits formavam os desenhos de um homem doente, do rádiotelescópio, de uma hélice de DNA, o sistema solar, os números de 1 a 10 e outras coisas. Antes de enviar a mensagem, Drake a testou com seus colegas de Cornell, incluindo Carl Sagan, autor e defensor da busca de vida no cosmo. Nenhum deles conseguiu decodificá-la totalmente.

Mas o futuro de Arecibo tornou-se precário. Em 2007, a National Science Foundation que administrava o observatório desde o início dos anos 1970 com um orçamento cada vez menor, disse que o observatório poderia fechar se não fosse encontrado um parceiro para arcar com parte do ônus financeiro.

Em 2011, Cornell passou a administração do observatório à SRI International e a dois parceiros administradores, a Universities Space Research Association e a Universidad Metropolitana de Puerto Rico, entre outros colaboradores. Desde 2016, está sendo gerido pela University of Central Florida mediante um acordo de cooperação com a Universidade Ana G. Méndez e Yang Enterprises. A verba anual é de cerca de US$ 12 milhões, incluindo recursos da NASA e da National Science Foundation, segundo a University of Central Florida. No entanto, os problemas continuam.

Dias depois do acidente, a University of Central Florida enviou um release descrevendo o trabalho de uma equipe chefiada por Jian Li, um astrônomo da Deutsches Elektronen-Synchrotron de Zeuthen, na Alemanha, que usa o telescópio de Arecibo e outros instrumentos. A equipe descobriu o que chamou de “batimento cardíaco” de raios gama que emanam de uma nuvem de gás na constelação Aquilla.

Os raios gama – uma forma de luz de energia extremamente alta – eram produzidos no ritmo das explosões de um misterioso buraco negro oscilante chamado SS 433, a 100 anos luz da nuvem. Não se sabe ao certo como este buraco negro poderia espalhar a sua influência através de uma distância tão grande. “Este resultado desafia as interpretações óbvias e é inesperado pelos modelos teóricos previamente publicados”, disse Li em um documento publicado pela University of Central Florida. Os corações interestelares continuam pulsando. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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