Adam Dean para The New York Times
Adam Dean para The New York Times

Raios são um desafio para a visão humana

Pinturas de artistas, ao longo dos séculos, subestimaram o número de ramificações em um relâmpago, segundo pesquisadores

Steph Yin, The New York Times

18 de junho de 2018 | 10h15

Se compararmos os quadros que mostram um raio à fotografia de um raio, notaremos que a fotografia se aproxima mais da realidade.

A diferença entre a imagem da nossa imaginação e a real está no fato de que nos quadros não existem muitas ramificações. Este é um padrão que não muda, segundo um novo estudo publicado em “Proceedings of the Royal Society A”.

Pesquisadores húngaros constataram que os artistas costumam pintar o raio com um número menor de ramificações em relação às que são provocadas pelas explosões de eletricidade que ocorrem na realidade. A sua pesquisa destaca que os legados culturais podem distorcer a nossa percepção dos fenômenos naturais, até mesmo aqueles com que nos deparamos em geral.

Usando um programa de computador, Gábor Horváth, diretor do laboratório de óptica do meio ambiente da Universidade Eötvös Loránd de Budapeste, e seus colegas, examinaram 100 pinturas e 400 fotografias de raios. E concluíram que os quadros e as imagens diferiam principalmente no número de ramificações em forma de raízes, que ocorrem quando partículas carregadas tentam abrir caminho através do ar buscando uma menor resistência.

Enquanto os raios pintados tinham 11 ramificações, quando muito, as fotografias mostraram até 51. É até possível que os números reais sejam maiores, observaram os autores, porque alguns podem ser tênues demais para serem registrados pelas câmeras.

Em um experimento posterior, os pesquisadores pediram a dez pessoas que avaliassem rapidamente 1.800 fotos cada um. E constataram que os participantes contaram cuidadosamente até 11 ramificações. À medida que o número subia, as pessoas subestimaram consideravelmente o número das ramificações, com uma discrepância que aumentava  exponencialmente entre os dados reais e os aparentes.

As conclusões são consistentes com a maneira como o ser humano estima os números, observaram os autores. Abaixo de cinco, nós podemos intuir, ou julgar rapidamente o número de itens sem contar. Entre seis e dez, contamos. Acima de 10, estimamos, com precisão decrescente. Isto pode explicar por que os artistas raramente retratam o raio com mais de 11 ramificações, disse o dr. Horvath.

Simplificadas, as imagens em ziguezague do raio também têm raízes culturais. Elas se originam das representações gregas e romanas dos raios de Zeus e de Júpiter.

O novo estudo se enquadra em uma longa história de cientistas e artistas competindo entre si, disse Jennifer Tucker, professora da Wesleyan University em Connecticut que não participou do estudo.

Em meados do século 19, a meteorologia era uma disciplina nova, e os que a praticavam tinham dificuldade para fazer com que o povo deixasse de lado o folclore e compreendesse o tempo.

Mais ou menos na mesma época, os raios puderam ser fotografados pela primeira vez. Os meteorologistas adotaram o novo veículo como uma maneira mais objetiva de catalogar o céu, recriminando os artistas por “espalharem falsos boatos” sobre os fenômenos atmosféricos, disse o dr. Tucker. Mas nem todos acreditam que a arte precise ser cientificamente precisa. Segundo Lorraine Daston, diretora do Instituto Max Plank de Historia da Ciência em Berlim, a precisão científica e os objetivos artísticos no que se refere ao que “uma pintura deva ser, mudam constantemente através dos tempos”.

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