Bianca Bagnarelli
Bianca Bagnarelli

Não é só a raiva. É a fome falando

Psicólogos estudam como a falta de uma refeição afeta o humor

Benedict Carey, The New York Times

14 de dezembro de 2019 | 06h00

A caminhada antes de uma refeição em um dia de folga pode parecer uma demonstração de contenção antes do banquete. Mas saia devagar demais - ou vá para muito longe - e você irritará seus companheiros, que também pularam o café da manhã para deixar espaço para o banquete.

Os cientistas apenas começaram a explorar os efeitos emocionais e sociais da fome aguda. Mas eles já sabem uma coisa ou duas. Inúmeros estudos mostraram que um baixo nível de glicose no sangue - ou fome - está associado a sinais de agressão, um estado de humor conhecido como "fome nervosa".

Essa "fome nervosa” é uma sensação distinta de urgência e crescente impaciência, familiar para quem esperou em uma longa fila em uma lanchonete ou restaurante. Mas há muitos sabores de raiva, e os psicólogos agora estão tentando analisar como, exatamente, essa fome é diferente.

Jennifer K. MacCormack, doutoranda em Psicologia e Neurociência na Universidade da Carolina do Norte, Chapel Hill, descobriu que, quando estão com fome, as pessoas se descrevem como mais irritadas e com menos controle de suas emoções. Mas esse comportamento surgiu apenas em circunstâncias específicas, constatou MacCormack.

Em um estudo, ela testou a paciência de mais de 230 participantes famintos, deliberadamente travando seus computadores quando eles estavam no meio de uma tarefa tediosa. MacCormack dividiu os indivíduos em dois grupos, um focado em seu estado emocional enquanto trabalhavam no computador e outro que não focava em seu emocional. Somente os indivíduos do segundo grupo, presumivelmente menos conscientes de sua crescente agitação, mostraram sinais de estresse e aborrecimento quando o computador travou.

"Estar com fome claramente muda nosso estado emocional", disse MacCormack. "Mas essa evidência sugere que ela não leva automaticamente a pessoa a ter mais raiva ou ser mais egoísta".

Um experimento recente, liderado por Jan Hausser, da Universidade Justus-Liebig, na Alemanha, e Nadira Faber, da Universidade Oxford, chegou a uma conclusão semelhante. Os pesquisadores recrutaram mais de 600 participantes em uma lanchonete, metade antes de comerem e a outra metade depois do almoço. Cada participante recebeu dinheiro (10 euros) ou comida (pacotes de frutas secas e nozes) e logo depois foi abordado por um estranho com um pedido: “Você poderia me dar um trocado ou algo para comer? Eu estou com fome."

Os participantes famintos compartilharam tanto dinheiro ou comida quanto aqueles que acabaram de comer, revelou o estudo. "Descobrimos que essa grande sensação de fome não afetou o quão cooperativos esses estudantes eram", disse Paul A.M. Van Lange, psicólogo da VU Amsterdam e autor do estudo.

Michael Bang Petersen, cientista político da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, descobriu que as pessoas com fome têm tanta probabilidade de apoiar programas sociais e serem generosos quanto os indivíduos que já comeram.

"O senso comum é que estar com fome deixa as pessoas irritadas e, é claro, isso tem alguma base", disse Petersen. "O problema que enfrentamos atualmente é entender como podemos ter esses sentimentos de maior irritabilidade e uma percepção de que não temos autocontrole e, no entanto, muitas vezes não agir dessa maneira". / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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