Polícia Metropolitana via The New York Times
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Rap violento é citado como causa do aumento do crime em Londres

Os ataques a faca detalhados em vídeos, como no "Take It There" do grupo drill 67 de Londres, são executados nas ruas

Ceylan Yeginsu e Anna Codrea-Rado, The New York Times

07 Junho 2018 | 15h00

LONDRES - Dean Pascal-Modeste, um produtor musical de 22 anos, estava indo para uma sessão de gravação, no ano passado, em pleno dia, quando homens armados se aproximaram dele de moto.

Ele tentou escapar por uma rua transversal. Mas o grupo perseguiu e esfaqueou Dean 14 vezes.

Dois jovens foram condenados pelo seu assassinato, no mês passado, e o juiz, Nicholas Cooke, o definiu como “mais um abominável exemplo de crime perpetrado com arma branca em Londres”. Depois, ele se referiu a outro motivo: uma série de vídeos de grupos musicais de “drill” rivais, que incluem ameaças e esfaqueamento.

“Há uma preocupação legítima a respeito da globalização da violência em algumas músicas que ouvimos nestes casos”, disse o juiz Cooke.

O crime violento aumentou recentemente em Londres; os homicídios cresceram 44% de acordo com o relatório anual divulgado pelo Departamento de Polícia da prefeitura, em abril. E a polícia, os políticos e os especialistas em violência estão culpando em parte o drill, um estilo niilista de música rap que está fazendo grande sucesso nas cidades britânicas, principalmente nos conjuntos habitacionais da prefeitura de Londres.

Nos vídeos de música disponíveis online, rappers desta modalidade, mascarados, apresentam-se armados ameaçando deixar os seus rivais “mergulhados no molho” ou “nadando” - gírias que descrevem esfaqueamento ou sangramento.

“Os argumentos, os conflitos e a violência que são mostrados nestes vídeos são rapidamente postos em prática e amplificados no mundo real”,  disse o criminologista Craig Pinkney.

A polícia de Londres, que mantém um banco de dados de 1.400 vídeos para reunir informações, pediu ao YouTube que retirasse dezenas de vídeos; o site afirmou ter retirado mais de 30.

Há um debate em curso para determinar até que ponto a música é um reflexo de condições desesperadas de vida e não sua inspiradora, e sobre a linha que separa a segurança pública da censura. A relação entre a música e o crime tem sido amplamente circunstancial, e a Anistia Internacional, por exemplo, criticou o banco de dados da polícia por “estigmatizar os jovens negros pelo tipo de música que eles ouvem ou por seu comportamento na mídia social”.

Em vez de esperar meses para um selo divulgar a sua produção musical, os grupos de drill escrevem rapidamente suas músicas que ameaçam diretamente determinadas pessoas ou grupos e as disseminam no YouTube. Seus rivais respondem, criando um confronto cuja escalada de bravatas às vezes se transfere para o mundo real.

A música nem sempre é ameaçadora, e alguns grupos obtiveram reconhecimento comercial. Entretanto, afirmam as autoridades, outros grupos mal se distinguem de verdadeiras gangues.

Os dois homens condenados recentemente pela morte de Pascal-Modeste, Devone Pusey, 20, e Kai Stewart, 18, apareceram em um vídeo de drill do YouTube que zombava de uma gangue rival e a ameaçava. Segundo os promotores, Pascal-Modeste passou a ser visado porque era amigo de membros da gangue rival.

Em outro caso, o artista de drill, Junior Simpson, 17, estava no grupo de pessoas condenadas em fevereiro pelo assassinato de um adolescente de 15 anos, Jermaine Goupall, em South London.

Ao condenar Simpson à prisão perpétua, o juiz Anthony Leonard disse: “Você escrevia letras no seu celular que prediziam o tipo exato de crime que ocorreu”.

Embora somente alguns assassinatos recentes em Londres estejam diretamente ligados aos vídeos de drill, alguns especialistas afirmaram que as imagens e as letras violentas estão contribuindo para um ambiente que banaliza o uso de facas e de armas de fogo.

Por outro lado, Emil Proffit, 35, produtor de música drill, disse que considerar as letras a prova de intenções violentas é problemático. “A maioria das letras que saem das bocas destes garotos não tem nada a ver com a verdade”, afirmou.

“Retirar um vídeo do circuito não resolve a questão”, acrescentou Proffit. “Os juízes precisam analisar o problema um pouco mais a fundo e pensar do que é que estes meninos necessitam na realidade”.

Autoridades e especialistas que estudaram a onda de crimes notaram outras causas possíveis, inclusive o acesso às drogas e o corte da verba destinada aos serviços sociais em razão da austeridade.

Mas para os amigos e a família de Pascal-Modeste, a música e a violência são inseparáveis. Alguns estavam no tribunal em maio quando o juiz Cooke condenou os assassinos, que apareceram em um vídeo do grupo de drill B Side, a 37 anos de prisão no total.

“Certamente, fiquei aliviado, mas não consigo me sentir feliz”, disse Joanna Williamson, amiga íntima de Dean. “Toda esta cultura é uma trágica praga.”

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