Giulia Marchi para The New York Times
Giulia Marchi para The New York Times

Reação negativa pode prejudicar efeitos da globalização

A economia mundial tornou-se mais interconectada nos anos 1990 e 2000, causando problemas a países ricos juntamente com benefícios que somente agora ficaram mais aparentes

Neil Irwin, The New York Times

09 Abril 2018 | 10h00

Ninguém deve se surpreender com a reação negativa contra a globalização, considerando a escala da perturbação provocada nas economias mais interligadas. O que surpreende é que esta reação só esteja sendo sentida agora.

É que a globalização se estabilizou há uns dez anos. E isso mostra o risco crucial da pressão que vimos percebendo em tempos recentes para o restabelecimento das condições da economia global - como as tarifas sobre o aço e o alumínio e medidas punitivas contra a China introduzidas pelo presidente Donald J. Trump.

Esta reação ocorre depois que o mundo já arcou com os enormes custos da globalização, e quando bilhões de pessoas que já se integraram à economia global, nos últimos 30 anos, começam a enriquecer o suficiente para se tornarem importantes consumidoras.

Em suma, a tendência atual contra a globalização que se espalha por todo o Ocidente talvez esteja surgindo no momento errado - tarde demais para salvar os empregos da classe trabalhadora que se perderam, mas por outro lado cedo demais, correndo o risco de prejudicar a capacidade das nações ricas de vender produtos e serviços avançados à classe média que está se expandindo rapidamente em todo o globo.

A globalização ingressou em uma nova fase, na qual o intercâmbio de bens e serviços entre as nações se mantém estável, como parte da economia, e o fluxo internacional de capitais é menor. O que está crescendo neste momento é a difusão da informação, com diversas implicações para os trabalhadores dos países ricos em relação à sua fase inicial.

“O interessante a respeito das tarifas sobre o aço e outras mercadorias é que esta medida trava a última batalha, e não a batalha futura”, explicou Susan Lund, parceira da empresa de consultoria global McKinsey. “A esta altura, a indústria mundial já se reconfigurou”.

Esta nova forma pode ser verificada no aumento do número de pessoas que usam as plataformas da mídia social para se conectarem com outras pessoas de outros países, e no fato de que as companhias passaram a depender da mão de obra trabalhadores locais em todo o globo, enquanto pequenas empresas operam com suas parceiras em todo o mundo por meio da internet.

Em outras palavras, não se trata de uma forma de globalização que ameaça os empregos nas fábricas, mas ela poderá ter graves consequências em outras áreas - levando a uma maior concorrência para os empregos de colarinho branco mais avançados na área tecnológica e, ao mesmo tempo, criando novas e enormes oportunidades para as empresas dos Estados Unidos e da Europa Ocidental.

David Autor, um economista do Massachusetts Institute of Technology (MIT), mostrou que o “choque da China” ocorrido depois do ingresso do país na Organização Mundial do Comércio causou um grande sofrimento às comunidades nos Estados Unidos que concorrem com as companhias chinesas na produção de uma variedade de produtos. Enquanto estes efeitos persistem, ele nota que os riscos envolvidos no comércio com a China estão sendo transferidos para outras partes.

“Na maior parte, o choque da China sobre a indústria em grande escala e seus enormes efeitos no emprego já ficaram para trás”, afirmou Autor. Agora, o desafio é a concorrência chinesa em produtos mais complexos do ponto de vista tecnológico, como automóveis, aviões ou microprocessadores. A fabricação de produtos de mão de obra mais intensiva, menos complexos do ponto de vista tecnológico, como vestuário está migrando para países em que os salários da mão de obra são menores, como Bangladesh e Etiópia.

Mas a mudança da fabricação de certos produtos para outros lugares é diferente do aumento da conectividade global. O grau de integração econômica se mantém equilibrado, enquanto o que está se alterando são os detalhes referentes ao que se produz exatamente em que país.

As tarifas impostas pelo governo Trump sobre o aço e o alumínio aparentemente visam mais a proteger a indústria americana. Sua estratégia poderá provocar uma reação contrária se desencadear, em retaliação, uma série crescente de tarifas sobre todo tipo de produtos, prejudicando o comércio global sem, contudo, sanar os problemas fundamentais nos setores de informação intensiva.

A criação de novas barreiras ao comércio internacional também poderia bloquear os benefícios que há muito tempo a globalização prognosticava: um novo universo de consumidores - as centenas de milhões que se tornaram mais conectados com a economia global e que, ao longo do processo, atingiram um padrão de vida mais elevado.

Homi Kharas, pesquisador sênior da Brookings Institution, que estuda a ascensão desta classe média global, antecipa uma enorme demanda de todos os tipos de serviços. “Os filmes de Hollywood, de Bollywood ou de Hong Kong, ou a possibilidade de comer em restaurantes como o KFC ou o McDonald’s, de usar aplicativos da internet ou de fazer um seguro estão permitindo mudanças maciças na estrutura da economia global que incluem o consumo de produtos em cuja fabricação os Estados Unidos se distinguem”, afirmou.

Dada a perspectiva de batalhas comerciais, a questão em aberto é se os Estados Unidos e a Europa, que já arcaram com o custo da concorrência com o mundo em desenvolvimento, continuarão aderindo ao comércio aberto por um tempo suficiente que lhes permita desfrutar de seus benefícios.

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