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Reality show britânico é abrandado para se adequar à TV escandinava

'Love Island' precisou se ajustar ao perfil dos dinamarqueses, que falam abertamente sobre sexo, mas não sobre namoro

Lisa Abend, The New York Times

21 de novembro de 2018 | 06h00

COPENHAGEM - Duas semanas antes do início das filmagens, os produtores da versão dinamarquesa do programa de TV “Love Island” finalizavam a lista de personagens dos primeiros capítulos. No dia anterior, haviam rejeitado uma candidata promissora - uma linda skatista apaixonada pelo filme “World of Warcraft” - por que achavam que ela não era emocionalmente madura.

“Estou muito feliz por Olivia”, disse Louise Ellebaek, a produtora executiva do programa, apontando para a foto de uma jovem de 22 anos com tatuagens elaboradas. “Ela é uma mulher forte e cheia de confiança, que se refere a si mesma como uma obra de arte”, afirmou Louise. “Mas, além disso, ela é realmente esquentada”.

Na Grã-Bretanha, “Love Island” foi o sucesso do verão. Na quarta temporada, solteiros esculturais mais uma vez mudaram-se para uma Villa espanhola, onde tentariam encontrar alguém para namorar, competindo e externando continuamente seus critérios românticos. Quase oito semanas mais tarde, o público votou no seu casal preferido.

Mas com as mulheres de biquíni e papéis de gênero retrógrados, o programa foi criticado por ser sexista. Em um artigo publicado no “New York Times”, Eva Wiseman escreveu que “Love Island” era “uma espécie de cenário em tecnicolor de todas as ansiedades sexuais e de gênero dos britânicos”.

O programa, produzido pela ITV, já foi além da Grã-Bretanha: há versões exibidas na Austrália e na Alemanha, e uma planejada para os Estados Unidos. Assim como novas versões destinadas ao público da Finlândia, Noruega e Suécia, a da Dinamarca, que vai ao ar seis noites por semana desde 22 de outubro, mostra o apelo enorme do programa. Contudo, nas versões sueca, finlandesa e norueguesa, o álcool - rigorosamente controlado nesses países - aparece muito pouco.

Na versão dinamarquesa, as diferenças mais óbvias referem-se às atitudes em relação ao namoro e ao sexo, disse Jeanet Rosenkjaer, editora chefe do Reality Portalen, um site de notícias. Os dinamarqueses, ela afirmou, “não fazem julgamentos a respeito do sexo. É um paradoxo: nós somos muito abertos em relação ao sexo, mas fechados na questão do namoro”.

Isto ficou evidente durante um jogo em que as mulheres apalpavam o corpo dos homens, inclusive a região da virilha. “Desde os anos 60 e 70, as mulheres na Dinamarca aprenderam a controlar o seu corpo e a sua sexualidade”, disse Bastian Larsen, terapeuta do sexo e conselheiro de relacionamento amoroso em Copenhagem. “Por isso é normal que agora elas tomem a iniciativa”.

Na versão britânica do jogo, as mulheres se limitaram a tocar bíceps e músculos abdominais. As versões nórdicas de “Love Island” não obtiveram as mesmas notas da sua antecessora britânica. Lars Sejr, um repórter do jornal dinamarquês “Ekstra Bladet”, disse que um programa de sucesso na TV3, a emissora que o produz, normalmente tem de 150 mil a 250 mil visualizações. “Esta recebeu 78 mil na estreia. E, a partir daí, caiu”, afirmou.

Cecilie Hviid, uma estudante de 21 anos, compreende o porquê. Ela gostou do “Love Island” britânico, afirmou, mas acha o dinamarquês tedioso. “Os participantes parecem que têm medo de se abrir completamente a respeito de si mesmos”. Entretanto, a falta de uma trama dramática pode ser explicada por causa de outro forte valor cultural: o consenso. 

Na versão norueguesa, Andreas Kronheim, 27,  programador em uma plataforma de petróleo, saiu do programa dois dias antes do final em uma decisão tomada em votação. “Todo mundo se dava muito bem”, ele disse. “Eu nunca fiquei com medo de que um dos outros caras me tirasse a namorada. Não era uma competição, parecia mais que a gente estava de férias”.

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