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Neste reality show da Netflix, os perfis podem não ser o que parecem

O programa 'The Circle' estreou na Grã-Bretanha em 2018 e foi comprado pela gigante de streaming; versão brasileira será lançada em breve

Etan Smallman, The New York Times

12 de janeiro de 2020 | 06h00

LONDRES - “Mensagem: ‘Olá, garotas. Quero começar esta conversa só para conhecer vocês todas. Garotas que permanecem unidas são garotas bonitas.’ Emoji de coraçãozinho ...” Alana Duval, de Brownsville, Texas, começa um chat com mais três das sete colegas concorrentes. Sentadas em diferentes apartamentos, elas nunca se encontraram pessoalmente, e só mantêm contato por meio de perfis online e uma plataforma de rede social ativada pela voz.

O drama já começou. “Quantos anos Alana tem mesmo?”, indaga outra concorrente, Samantha Cimarelli. “Porque ela se comporta como se estivesse ainda no secundário”. Quando The Circle estreou na Grã-Bretanha, em 2018, os críticos culturais se mostraram céticos. O jornal The Guardian previa idiotas famintos por fama sentados sozinhos em suas calças vomitando conversa fiada online.

Mas a série, uma competição do tipo reality show em que “qualquer um pode ser qualquer pessoa”, logo se tornou um sucesso. Em um mês, o mesmo jornal a definia “uma das melhores  comédias da TV do ano”, e a Netflix tratou logo de conseguir os direitos mundiais. No dia 1º de janeiro, estreou a versão americana, e as versões brasileira e francesa serão lançadas em breve.

As concorrentes definem os seus perfis online com precisão. E enquanto algumas optam pela honestidade total, outras exploram o artifício da rede social para fazer experimentos com a própria identidade, ou apenas para ajudar a ganhar o prêmio de US$ 100 mil. As impostoras anteriores mudavam de sexo ou de orientação sexual, fingiam ser seus filhos ou namoradas, e até inventavam bebês e animais de estimação mortos.

Mas como foi que os produtores transformaram esta enxurrada de emojis e hashtags em um interessante entretenimento compulsivo? Será uma experiência social digna? Ou resvalará para as piores bobagens do discurso online contemporâneo? “Estamos na era da rede social - é assim que seremos definidos daqui a mil anos”, disse Shubham Goel, um designer da realidade virtual de Danville, Califórnia,  que é um dos competidores na versão americana. “Acho que o programa é uma verdadeira amostra do nosso mundo mais do que qualquer outra coisa neste momento”.

Os índices do Circle britânico são modestos (1,2 milhão de telespectadores em média), mas a série é um sucesso entre as pessoas dos 16 aos 34 anos. A primeira temporada foi o programa “de perfil mais jovem” do Channel 4 em seis anos, segundo a revista sobre TV britânica Broadcast, em que a metade dos seus telespectadores está naquela ambicionada faixa etária.

Entre as várias atrações, destacam-se as histórias humanas. Na segunda temporada britânica, Georgina Elliott carregou uma foto de si mesma de biquíni e com uma bolsa de ileostomia para aumentar a consciência da doença de Crohn. E isto contribuiu para consolidar uma amizade com Paddy Smith, que começara mostrando somente imagens de si mesmo sem as muletas, porque queria esconder a sua paralisia cerebral.

“Não é que eu esteja envergonhado ou apavorado”, ele disse mais tarde a Georgina. “Só queria saber como era, por uma vez, ser eu mesmo e não aquele cara com deficiência”. Georgina respondeu com o hashtag #ProudOFYouProudGayDisabledMan (Orgulhosa de você, orgulhoso gay deficiente). Ambos acabaram a conversa virtual chorando de verdade, e Paddy logo revelou a sua deficiência para as outras pessoas do grupo.

Nem todos vivem uma situação tão dramática. Helen Piper, professora de televisão e cinema da Universidade de Bristol, acredita que “a obrigação de representar”, fundamental nos realities televisivos há dezenas de anos, tenha sido “turbinado” pela simulação estimulada pela rede social.

O fato de um impostor ter sido o vencedor da primeira temporada britânica, acrescentou, mostra como é oca toda essa conversa sobre “autenticidade’. “Mas agora todos nós costumamos inventar narrativas a respeito de nós mesmos; este é o mundo em que vivemos”, disse Piper. “A personalidade é tudo. A representação é tudo”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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