Giulia Marchi para The New York Times
Giulia Marchi para The New York Times

Rebelde do Direito chinês enfrenta tempestades políticas

Sob o governo do presidente Xi Jinping, He Weifang sobre por posições favoráveis à independência judicial e aos limites legais do poder

Chris Buckley, The New York Times

14 Junho 2018 | 10h15

PEQUIM - Estes são dias calmos, mas difíceis para He Weifang, que passou 20 anos na linha de frente  das batalhas pelo governo da lei na China. Ele é talvez o professor de Direito mais conhecido do seu país, onde, sob diversos aspectos, é também persona non grata.

As universidades em que os estudantes outrora se aglomeravam para ouvir suas aulas não podem convidá-lo. Os jornais que regularmente publicavam os seus artigos e o celebravam como inovador, não podem mencionar o seu nome. Ele desistiu de procurar falar pela internet da China, onde sua conta na mídia social Weibo, hoje silenciada, tem cerca de 1,9 milhão de seguidores.

“Os últimos cinco anos foram realmente sufocantes”, disse He em um café perto da Universidade de Pequim, onde ensinou por 23 anos.

He é um dos intelectuais liberais chineses que se encontram no meio de uma tempestade política. Sob o governo do presidente Xi Jinping, o líder do Partido Comunista, a China se voltou duramente contra os defensores do pluralismo político e os limites legais do poder do partido.

Alguns amigos de He, e pelo menos um dos seus antigos discípulos foram presos pelas suas atividades em defesa dos direitos; outros estudiosos se aposentaram e se calaram ou se transferiram para o exterior. Mas He, 57, disse que a vida lhe ensinou a adotar uma visão mais a longo prazo da evolução política do país.

He nasceu na província de Xandong, onde seu pai, He Shuanyon, era um médico que havia exercido a medicina nas forças armadas. Mas o pai foi tragado pelas perseguições em massa da Revolução Cultural, e em 1970 se suicidou, contou He.

“Eu me dei conta de que a Revolução Cultural foi uma tragédia que nunca mais poderá se repetir”, afirmou. Em 1978, He obteve um cargo ambicionado na educação superior, depois que Deng Xiaoping, o líder reformista do partido, reinstituiu os exames de ingresso extremamente competitivos. Ele foi enviado a Chongqing para estudar Direito.

Foi ali que, aos 18 anos, mergulhou na atmosfera de grande fermentação de ideias possibilitada pelas liberalizações de Deng. “Foi uma época de otimismo”, ele disse. “Havia a sensação de que a sociedade chinesa estava lentamente descongelando”.

Mas no final dos anos 80, quando Deng e outros líderes recuaram do abrandamento político, os estudantes e os acadêmicos liberais exigiram maior rapidez nas mudanças. A certa altura em 1989, os estudantes ocuparam a Praça Tienanmen em Pequim, o que provocou uma violenta repressão em que morreram centenas de pessoas.

Dali em diante, uma transformação total do sistema unipartidário chinês se mostrou absolutamente fora do alcance. He discutia com outros como encorajar o progresso dentro de certos limites, principalmente por meio de medidas destinadas a promover a independência judicial e difundindo ideias sobre os direitos legais.

Em 2006, He fez um discurso direto em uma conferência a portas fechadas em Pequim, criticando energicamente o Partido Comunista por se colocar fora da lei. Seus comentários vazaram para a internet, provocando pressões oficiais.

Desde que Xi chegou ao poder em 2012, as pressões sobre He e outros intelectuais se intensificaram. Mas ele disse que estava preparado para esperar os tempos.

Em um jantar com amigos, no final do ano passado, ele recitou “Somos seres de madeira”, um poema de um escritor de Pequim.

“Somos seres de madeira, proibidos de falar, proibidos de rir, sem permissão para nos mover”, leu He. “Se eu morrer, morrerei a caminho da minha humanidade”.

Mais conteúdo sobre:
China [Ásia] Xi Jinping

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.