Mahmud Turkia/Agence France-Presse
Mahmud Turkia/Agence France-Presse

Rebeldes líbios usam o Facebook como arma

Combatentes usam a rede social, que tem grande influência na Líbia, com o objetivo de multiplicar sua força

Declan Walsh e Suliman Ali Zway, The New York Times

14 Setembro 2018 | 10h15

CAIRO - Quando uma nova rodada de combates entre milícias rivais tomou a capital líbia recentemente, abalando o frágil governo apoiado pelas Nações Unidas, alguns milicianos apanharam fuzis e lança-foguetes e correram para as ruas. Outros se voltaram para o Facebook.

Enquanto choviam foguetes em partes de Trípoli, atingindo um hotel popular entre estrangeiros e obrigando o aeroporto a fechar e culminando na fuga de 400 prisioneiros de uma cadeia, uma batalha paralela se desenrolava na internet. Em suas páginas do Facebook, grupos rivais faziam ameaças, provocações e contavam vantagem - um deles prometeu "purificar" a Líbia de seus adversários.

Alguns "combatentes do teclado", como são conhecidos os milicianos do Facebook na Líbia, publicaram notícias falsas ou comentários de ódio. Outros ofereceram orientações para o campo de batalha. Numa página de debates, um usuário publicou, no dia 30 de agosto, mapas e coordenadas para ajudar seus asseclas no ataque à base aérea de um grupo rival.

As redes sociais exercem uma influência desproporcional na Líbia, país de baixa densidade demográfica que se encontra dilacerado entre grupos armados que disputam território e legitimidade. Eles lutam pelo domínio nas ruas e nos smartphones. Mas o Facebook não funciona apenas como espelho desse caos: a rede social pode multiplicar sua força.

Os grupos armados usam o Facebook para encontrar adversários e críticos, alguns dos quais foram posteriormente detidos, mortos ou obrigados a se exilar, de acordo com grupos de defesa dos direitos humanos e ativistas líbios. Os comandantes se gabam de seus feitos no campo de batalha ou reúnem mais seguidores semeando a discórdia e o ódio étnico. Documentos forjados circulam livremente, muitas vezes com o objetivo de enfraquecer as poucas instituições que sobreviveram na Líbia, principalmente o Banco Central do país.

O Facebook vem sendo investigado em todo o mundo por causa das brechas que a plataforma abre para a violência e a manipulação políticas. A empresa insiste que está policiando rigorosamente sua plataforma líbia. São empregadas equipes de revisores de conteúdo em árabe, a inteligência artificial da empresa está se desenvolvendo para remover preventivamente o conteúdo proibido e há parcerias com organizações locais e grupos internacionais de defesa dos direitos humanos. 

"Não permitimos que organizações ou indivíduos ligados à violência organizada ou ao tráfico de seres humanos tenham uma presença no Facebook", afirmou um porta-voz da rede social.

Ainda assim, o Facebook líbio está repleto de atividade ilegal. A reportagem do New York Times encontrou evidências do comércio aberto de armamento militar. Traficantes de seres humanos anunciam seu sucesso ao ajudar imigrantes ilegais a chegarem na Europa pelo mar. Praticamente todos os grupos armados da Líbia têm sua própria página no Facebook.

"A guerra mais perigosa e suja é travada agora nas redes sociais e algumas outras plataformas de mídia", disse no mês passado Mahmud Shammam, ex-ministro da informação, enquanto os combates varriam os subúrbios de Trípoli. "Mentiras, falsificações e fatos distorcidos. Todos têm um exército eletrônico e todos usam essa força de combate, sem exceção".

A influência do Facebook é, principalmente, um produto da disfunção generalizada da Líbia. A maioria dos jornais e emissoras de TV do país está ligada a grupos armados, facções políticas ou potências estrangeiras, como o Catar e os Emirados Árabes Unidos.

Muitos líbios passam horas isolados dentro de suas casas porque pode ser perigoso sair. Falta eletricidade por até 12 horas por dia. Assim, eles se voltam para o Facebook para descobrir o que está acontecendo.

Em 2011, o Facebook refletiu a "extraordinária" abertura da sociedade líbia após quatro décadas de ditadura do coronel Muammar el-Qaddafi, disse a pesquisadora Mary Fitzgerald. "Todo mundo foi para o Facebook. Surgiu um debate bastante caótico".

Com o passar dos anos, porém, os responsáveis pelo conflito começaram a "comentar como as redes sociais são uma de suas armas mais importantes", disse ela. Os líbios acabaram desenvolvendo uma atitude de ambivalência em relação às redes sociais.

"Muitas vezes ao longo dos sete anos mais recentes", acrescentou ela, "ouvi pessoas dizendo que, se pudéssemos desativar o Facebook por um dia, resolveríamos metade dos problemas do país". / Max Fisher contribuiu com a reportagem.

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