Francisco Robles/Agence France-Presse - Getty Images
Francisco Robles/Agence France-Presse - Getty Images

Recém-eleito presidente mexicano reduz promessas de campanha antes de assumir posto

Mudanças podem ser resultado de ajuste à realidade mexicana para que possa governar

Elisabeth Malkin e Paulina Villegas, The New York Times

25 de outubro de 2018 | 06h00

CIDADE DO MÉXICO - O fato de conseguir eleger-se presidente do México não abateu o ritmo de Andrés Manuel López Obrador. A três meses da posse, ele está viajando pelo país para agradecer aos eleitores, reiterar os compromissos assumidos na campanha e prometer: “Não os decepcionarei”.

Agora, porém, frequentemente faz uma advertência: “Gostaríamos de poder fazer mais”. López Obrador foi eleito em julho com grande vantagem para combater a corrupção, reduzir a violência crescente e tratar da profunda desigualdade que reina no país. Mas estas promessas estão colidindo com a realidade.

Consequentemente, teve de recuar e de contemporizar a respeito dos compromissos assumidos, na tentativa de reduzir as enormes expectativas dos seus eleitores.

Ele está renovando as promessas de oferecer ajuda em dinheiro aos jovens, aposentadorias maiores aos idosos, a sustentação dos preços aos produtores agrícolas e empréstimos às pequenas empresas. Só que agora ele acrescenta: “Não vamos gastar mais dinheiro do que arrecadarmos”, como afirmou recentemente em um comício.

Em vez de tirar o exército das ruas, como sugeria anteriormente, López Obrador já admite que a polícia mal treinada e mal paga do México não pode proteger os cidadãos e que os soldados continuarão mantendo a ordem no futuro próximo.

Mas tem declarado alternadamente que a economia do México está em condições sólidas e que o país está falido. Além disso, reformulou um plano para aumentar a produção perolífera. Em julho, afirmou que o aumento seria de cerca de 30% em dois anos. Agora, diz que o plano levará seis anos.

Segundo alguns mexicanos e analistas, tais mudanças podem ser o resultado de um ajuste à realidade mexicana a que lhe permita governar.

Enquanto prepara sua transição para passar da oposição à função de presidente, no dia 1º de dezembro, López Obrador “está enxergando o México com olhos diferentes pela primeira vez”,segundo Jesús Silva-Herzog, um cientista político da Escola de Governo da Tec de Monterrey, na Cidade do México.

Outros se mostram menos caridosos.

“Alguém que tem quase 20 anos de experiência em campanhas políticas e ainda não sabe o que fazer demonstra que ou não está muito preocupado com a mudança pela ação política - ou não sabe como levar isto adiante”, disse Vidal Romero, um cientista político do Instituto Tecnológico Autônomo do México, uma universidade na Cidade do México.

O presidente eleito, que prometeu abster-se do estilo de vida luxuoso da elite política mexicana, até tropeçou no que diz respeito à imagem. Quando o opulento casamento do seu assessor de imprensa apareceu na capa de uma revista, López Obrador o minimizou alegando tratar-se de um evento particular. Mas o artigo dizia algo completamente discordante de sua mensagem de austeridade pessoal.

López Obrador “ainda não é presidente e já está administrando a decepção”, afirmou Carlos Bravo Regidor, diretor do programa de jornalismo da CIDE, uma universidade da Cidade do México.

Governar exige sólidas capacidades institucionais, que o México não tem, acrescentou Bravo. Criá-las, afirmou, é uma lenta e dolorosa tarefa que não dá resultados no curto prazo. “Ele acredita que uma liderança forte e honesta pode fazer tudo”, prosseguiu Bravo. “Mas a certa altura, esta vontade férrea não basta”.

E isto não poderia ser mais óbvio do que na questão da violência do México, em que o novo governo terá de se defrontar com uma taxa de assassinatos que não para de crescer e com a impunidade associada a 12 anos de guerra ao narcotráfico travada pelo governo.

López Obrador prometeu trabalhar com organizações internacionais para tratar da questão das dezenas de milhares de mexicanos que desapareceram na guerra ao tráfico. Também aceitou a ideia de uma comissão da verdade, e o próximo governo concordou em discutir outras medidas, por exemplo, um mecanismo para oferecer justiça e reparação às vítimas.

Tratar do problema exige mais do que a boa vontade do presidente, afirmaram analistas. Exige a aplicação efetiva da lei - e o México tem um sistema jurídico e uma polícia fracos, que, em muitos casos, foram cooptados ou compactuaram com o crime organizado.

Embora López Obrador já tenha feito correções significativas às suas promessas, afirmou Silva-Herzog, terá de fazer outras.

“A realidade”, segundo ele, “se revelará muito mais obstinada do que o que ele prevê”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.