Bryan Denton para The New York Times
Bryan Denton para The New York Times

O preço da reciclagem de laptops: fumaça tóxica nos pulmões da Tailândia

A indústria de lixo eletrônico está crescendo no sudeste da Ásia, assustando os moradores preocupados com sua saúde

Hannah Beech e Ryn Jirenuwat, The New York Times

25 de dezembro de 2019 | 06h00

KOH KHANUN, TAILÂNDIA - Agachadas no chão da fábrica escassamente iluminada, as mulheres cavavam entre os refugos descartados no mundo moderno: baterias, placas de circuito e emaranhados de fios. Com martelos e mesmo com as mãos nuas, quebravam os refugos - o chamado lixo eletrônico. Alguns homens, com o rosto envolvido em trapos para não respirar os gases, jogavam os refugos em uma máquina que recupera o material aproveitável.

Enquanto trabalhavam, a fumaça se espalhava pelas aldeias e fazendas. Os moradores não têm a menor ideia do que esta fumaça contém: plástico, metal, quem sabe? Eles sabem apenas que fede e que eles sentem enjoo. A fábrica, a New Sky Metal, é uma demonstração da próspera indústria de lixo eletrônico no Sudeste Asiático, nascida com a decisão da China de não mais aceitar os refugos eletrônicos do planeta.

A Tailândia tornou-se um centro deste setor enquanto os ativistas a combatem, e o seu governo tenta contrabalançar os interesses concorrentes da segurança da população com os ganhos provenientes deste comércio lucrativo. No ano passado, a Tailândia proibiu a importação de rejeitos eletrônicos de outros países. Entretanto, novas fábricas continuam surgindo em todo o país, e toneladas deste lixo são processadas, informam os monitores do ambiente e os especialistas da indústria.

“O lixo eletrônico precisa ir para algum lugar’, observou Jim Puckett, o diretor da Basel Action Network, que luta contra o acúmulo de lixo nos países pobres, “e os chineses estão simplesmente transferindo todas as suas operações para o Sudeste Asiático”. “A única maneira de ganhar dinheiro é transformar o imenso volume graças a uma mão de obra ilegal, barata, poluindo  tremendamente o meio ambiente”, acrescentou.

A cada ano, são produzidas em todo o globo 50 milhões de toneladas de lixo eletrônico, segundo as Nações Unidas, porque os consumidores jogam fora o modelo do ano passado e adquirem o novo. A ideia de reciclar estes aparelhos parece algo virtuoso, um círculo infinito da utilidade tecnológica. Entretanto, extrair minúsculas quantidades de metais preciosos - ouro, prata e cobre - de fones de ouvido, computadores e televisores desprezados é uma tarefa suja e perniciosa.

Durante anos, a China aceitou grande parte dos refugos eletrônicos de todo o mundo. Em 2018, Pequim fechou suas fronteiras a esse tipo de lixo externo. A Tailândia e outros países do Sudeste Asiático - onde vigoram leis brandas em defesa do meio-ambiente, sua mão de obra facilmente explorada e uma relação confortável entre as empresas e o governo - viram nisso uma oportunidade.

“Cada circuito e cada cabo é muito lucrativo, principalmente quando não há nenhuma preocupação com o ambiente ou com os trabalhadores”, disse Penchom Saetang,  diretor da organização de monitoramento Ecological Alert and Recovery Thailand. Uma recente visita a Koh Khanun mostrou que a New Sky Metal, assim como outras, ainda funciona apesar da proibição do governo, um reflexo do fraco sistema de regulamentação e da corrupção que assola o país.

Desde a proibição do lixo eletrônico, entraram em operação mais 28 novos centros de reciclagem em uma província a leste de Bangkok. Em 2019, 14 estabelecimentos receberam a licença para o processamento deste lixo. Segundo as autoridades tailandesas, as fábricas estão queimando estoques antigos.

Se algum tipo de lixo eletrônico não for incinerado a uma temperatura suficientemente elevada, as dioxinas, causadoras do câncer, se infiltram na comida. Metais pesados tóxicos impregnam o solo e o lençol freático. Moradores que combatiam a enxurrada de lixo foram atacados. Em setembro, homens de motocicleta fizeram disparos no ar perto da casa de um ativista.

Nas proximidades da New Sky Metal, Metta Maihala, cuidava de sua plantação de eucaliptos. A água do lago com a qual ela irriga a fazenda está turva, o cheiro é nauseabundo. “Não podemos escolher o ar que respiramos”, afirmou Maihala. “Todos estamos morrendo de morte lenta”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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