Saumya Khandelwal para The New York Times
Saumya Khandelwal para The New York Times

Recordando a traumática divisão da Índia

Museu da Partilha apresenta em vídeo relatos dos sobreviventes da violência que se seguiu à partilha do país, em 1947, que deu origem ao Paquistão

Kai Schultz, The New York Times

28 de fevereiro de 2019 | 06h00

AMRITSAR, ÍNDIA - Como deve ser lembrado um holocausto cuja simples menção pode não ser segura, mesmo hoje, sete décadas depois de ocorrido? Em 1947, quando os britânicos se preparavam para deixar a Índia, eles abriram o mapa com a caneta em mãos e, em um derradeiro arroubo de uma potência colonial decadente, dividiu o país em dois, criando o Paquistão.

O que ocorreu a seguir diante do colapso da autoridade foi uma corrida desesperada em que mais de 10 milhões de hindus, muçulmanos e sikhs tentaram chegar ao lado correto das novas fronteiras, fuga esta registrada no depoimento de testemunhas no Museu da Partilha, em Amritsar.

Sudarshana Kumari viu uma turba empalar seu primo de 1 ano com uma lança. O pai de Amol Swani trouxe uma lata de combustível e fósforos, dizendo a ela que ateasse fogo em si se a multidão invadisse sua casa. E A. K. Anand viu famílias aterrorizadas fugindo dos vilarejos, a pé, em carros de boi e a cavalo, passando por estradas repletas de corpos já comidos pelos cães e inchados com a chuva.

"Consegue imaginar?", pergunta ele num vídeo do museu. "Todos perdemos o juízo e pensamos, 'Que Deus nos ajude, que Deus nos salve'".

O número exato de vítimas ainda é desconhecido, mas os historiadores dizem que até 3 milhões de pessoas podem ter morrido. Isso foi há 70 anos, mas os fantasmas da partilha e do caos que se seguiu a ela ainda pairam no país e em Amritsar, cidade indiana próxima à fronteira com o Paquistão, onde o museu foi inaugurado em 2017.

Algumas testemunhas entrevistadas para as exposições passaram a maior parte de suas vidas sem contar aos próprios filhos que tinham fugido atravessando a nova fronteira. Poucos queriam lembrar daqueles meses de vandalismo, sequestro, estupro e assassinato, quando vizinhos combateram vizinhos, multidões incendiaram trens de refugiados e muitas mãos ficaram sujas de sangue. E não houve muito incentivo para que os sobreviventes falassem a respeito do que aconteceu, segundo o professor Faisal Devji, da Universidade de Oxford.

"Nos primeiros anos após a independência, os governos da Índia e do Paquistão abafaram os relatos de violência durante a partilha, tanto para proteger as minorias religiosas que poderiam ser acusadas de tê-la cometido quanto para manter uma imagem positiva da liberdade alcançada", disse.

Mas, conforme as testemunhas oculares morrem de velhice, ao longo dos últimos anos tem havido uma campanha para registrar suas lembranças. Mas esse é um registro que deve ser compartilhado com cautela. 

Em 2009, a pesquisadora Guneeta Singh Bhalla começou a entrevistar sobreviventes nos Estados Unidos. Essa iniciativa se tornou o Acervo da Partilha de 1947, projeto em que estudiosos e voluntários fizeram mais de 7.500 entrevistas em 12 países e 24 idiomas.

Mas, preocupados com a real possibilidade de a divulgação das entrevistas colocar em perigo os participantes, os pesquisadores pensaram muito a respeito da melhor maneira de divulgá-los.

"Depois de consultar especialistas em memoriais do Holocausto e também psicólogos na Índia e no Paquistão, concluímos que seria irresponsável divulgar abertamente determinados relatos orais no YouTube", disse Guneeta, diretora do acervo.

As emoções continuam à flor da pele. Alguns indianos como o sikh Kartar Singh, 88, se indagam se algum dia o país poderá superar o trauma. Singh lembrou das multidões de sikhs que perseguiram os muçulmanos de sua pequena comunidade empunhando facas e pistolas. Ele contou que quando um dos muçulmanos se recusou a deixar a Índia, ajoelhando-se no chão em direção a Meca, um vândalo sikh o decapitou.

"Minha alma ficou arrasada", disse Singh aos prantos. "Éramos amigos, e um dia começamos a matar uns aos outros".

Na violência que se seguiu à partilha, mais de um terço dos edifícios da cidade foi destruído, e a população muçulmana caiu de quase 50% para menos de 1% do total. 

A diretora-executiva do museu, Mallika Ahluwalia, afirmou que numa cidade como Amritsar e seu histórico, a simples exposição deste acervo dava margem a um acerto de contas. A maioria dos visitantes que vivenciaram o período da partilha tem a mesma reação ao ver as exposições.

"Eles choram", disse o administrador do museu, Rajwinder Kaur.

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