HAYOUNG JEON/EPA-EFE/REX
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Recordista de maratonas, corredor queniano leva filosofia para as pistas

Eliud Kipchoge acredita que disciplinar a mente é tão importante quanto o preparo do corpo para um bom desempenho em esportes de alto rendimento

Scott Cacciola, The New York Times

23 Setembro 2018 | 10h15

BERLIM - Eliud Kipchoge, o maratonista mais premiado do mundo, é um adepto da autodisciplina. Ele acorda às 5h da madrugada para correr. Divide seu tempo entre o lar em Eldoret, no Quênia, onde vive com a mulher e os três filhos, e um campo de treinamento 2.400 metros acima do nível do mar, onde divide as tarefas com os colegas de equipe. Kipchoge é um homem rico, mas ainda limpa banheiros.

Desde quando começou a levar o esporte a sério, ele registra cada treino num caderno. Os milhares de quilômetros documentados por ele o impeliram ao ápice da sua profissão, um corredor motivado a reduzir em mais alguns segundos um desempenho que já desafia a compreensão.

Mas talvez o mais incomum a respeito de Kipchoge, de 33 anos, seja aquilo que ele não faz: exagerar nos treinos de superação. Ele calcula que raramente ultrapassa os 80% de seu potencial máximo. Em vez disso, guarda o melhor de si (100%) para o dia da prova - para as maratonas que vence e os recordes que busca. 

"Quero correr com a mente relaxada", disse.

Kipchoge venceu 10 das 11 maratonas das quais participou. É o atual campeão olímpico. Acaba de superar em mais de um minuto o recorde mundial ao completar a Maratona de Berlim em 2 horas, 1 minuto e 39 segundos. 

"Tento apenas dar o meu melhor. Se isso resultar num recorde mundial, ficarei feliz. Mas tratarei esse desfecho como meu esforço mais dedicado", disse antes de começar a corrida.

Com cerca de 1,7 metro e 52 quilos, Kipchoge tem o porte físico de um desenho de anatomia, um corpo desenvolvido para o máximo desempenho cardiovascular. Ao mesmo tempo, as marcas no rosto dão a ele a aparência de alguém mais velho, uma pessoa que transmite sabedoria. Não se trata apenas de uma fachada. Quando ele fala, as palavras saem pausadamente, bem escolhidas.

Kipchoge é o tipo de pessoa que diz coisas como: "Apenas os disciplinados têm liberdade na vida. Quem não tem disciplina vive sob o jugo dos próprios humores e paixões". E: "O melhor momento para plantar uma árvore foi há 25 anos. O segundo melhor momento para plantar uma árvore é hoje". Trata-se do tipo de pessoa capaz de inserir provérbios de sua autoria numa conversa casual sem perder o ar de sinceridade.

Leitor voraz, seu gosto literário vai de Aristóteles a biografias de atletas, passando por manuais de autoajuda. "Os sete hábitos das pessoas altamente eficazes", de Stephen R. Covey, é um de seus favoritos.

Quando lê, Kipchoge faz anotações. Certa vez ele escreveu a fórmula: Motivação + Disciplina = Consistência. Nenhum outro maratonista da era moderna teve tamanho domínio do esporte. 

Recentemente, comentários segundo os quais Kipchoge poderia se revelar o maior corredor de longas distâncias de todos os tempos se tornaram quase um coro, comandado por pessoas como David Bedford, que já foi dono do recorde mundial dos 10 mil metros. "Será possível vencê-lo?", indagou Bedford. "Não, acredito que não".

Quando criança, Kipchoge ia correndo até a escola e de volta para casa. O mais novo de quatro filhos cresceu no pequeno vilarejo de Kapsisiywa. A mãe trabalhava como professora. O pai morreu quando ainda era pequeno.

Depois de concluir a escola, Kipchoge ajudou a sustentar a família levando o leite dos vizinhos para vender no mercado. Continuou a correr, inspirado por Patrick Sang - uma figura respeitada na região.

Sang tinha partido para a Universidade do Texas e ganhou uma medalha olímpica de prata na corrida com obstáculos antes de voltar a Kapsisiywa, onde organizou eventos esportivos. Num desses eventos, em 2001, ele conheceu um jovem Kipchoge de 16 anos.

"Havia um rapaz que me procurava pedindo um programa de treinamento", disse ele. "Assim, a cada duas semanas, eu lhe dava um programa para seguir, e isso durou meses".

Um dia, Kipchoge participou de uma corrida e venceu. Sang finalmente perguntou o nome dele, e ficou surpreso. "Sua mãe foi minha professora no jardim da infância", disse-lhe Sang. Os dois são quase inseparáveis desde então.

A ascensão de Kipchoge incluiu um campeonato mundial em 2003, quando venceu o astro marroquino Hicham El Guerrouj na prova de 5 mil metros disputada em Stade de France. Kipchoge tinha apenas 18 anos. Em seguida, ganhou um par de medalhas olímpicas nos 5 mil metros: bronze em 2004 e prata em 2008. Num raro dia de baixo desempenho, ficou em 7.º lugar na prova de qualificação para os 5 mil da equipe olímpica queniana para 2012, e ficou de fora.

Kipchoge decidiu se dedicar à maratona. Venceu em sua estreia em Hamburgo, no primeiro semestre de 2013, com o tempo de 02:05:30. Alguns meses depois, ficou em 2.º em Berlim, perdendo para o também queniano Wilson Kipsang, que estabeleceu um novo recorde mundial. Desde então, Kipchoge não foi mais derrotado, obtendo inclusive a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 2016.

A mecânica de seus movimentos é de uma eficiência notável. Seus ombros quase não oscilam - sinal que indica fadiga até mesmo nos melhores corredores do mundo - e ele parece tocar o asfalto com o pé da frente a cada passada longa. "Eu me sinto bem quando estou correndo. Minha cabeça clareia. Durmo livremente e aproveito a vida", explicou.

No ano passado, numa pista para carros de corrida na Itália, Kipchoge quase realizou seu maior feito até o momento: completar uma maratona em menos de duas horas, num projeto organizado pela Nike chamado "Breaking 2". Auxiliado por uma equipe rotativa de corredores para ajudá-lo a manter o ritmo olímpico, ele terminou a prova em 2:00:25, cobrindo a distância de uma maratona mais rapidamente que qualquer ser humano na história. O tempo não valeu como recorde mundial, mas foi impressionante mesmo assim.

Kipchoge tem objetivos desproporcionais. Quer defender seu título olímpico. Quer melhorar suas marcas pessoais. Quer influenciar as gerações futuras - "Bilhões de pessoas", segundo ele - viajando pelo mundo para falar dos benefícios da corrida.

Ele tem o hábito de correr sempre que sente dor. Ele se distrai com outros pensamentos - a alegria de correr, a aproximação da linha de chegada. Então a dor vai embora. Nesse processo, ele faz do esporte algo mais parecido com a arte performática.

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