Todd Spoth para New York Times
Todd Spoth para New York Times

Recuperação global corre o risco de empacar

A mera possibilidade de uma guerra comercial pressiona economia mundial

Peter S. Goodman, Ian Austen e Elisabeth Malkin, The New York Times

24 Junho 2018 | 10h00

LONDRES - Há apenas poucos meses, todos os principais países pareciam estar crescendo em uníssono. Agora, o destino do mundo é colocado em risco em razão de uma guerra comercial que se aprofunda. Enquanto o governo Trump impõe tarifas tanto a aliados quanto a rivais, provocando ampla retaliação, o comércio global está sofrendo perturbações, sinais de pressões que podem prejudicar o crescimento econômico.

O transporte de mercadorias está diminuindo em portos e terminais aéreos de carga em todo o mundo. Preços de matérias-primas essenciais estão aumentando. Em fábricas da Alemanha ao México, encomendas são canceladas e investimentos, postergados. Fazendeiros americanos estão perdendo vendas, enquanto parceiros comerciais contra-atacam com taxas alfandegárias próprias.

Os trabalhadores metalúrgicos canadenses se mobilizaram para que vagões de trem a caminho da fronteira americana retornassem após o presidente Donald Trump ter imposto tarifas à importação de metais este mês. Um cliente de Seattle logo cancelou um pedido.

“O impacto foi sentido imediatamente”, afirmou Jon Hobbs, presidente da AltaSteel, de Edmonton.

Mesmo antes de as medidas comerciais surtirem efeito, as empresas estão lutando contra ameaças aos seus estoques e incertezas em relação aos termos do comércio, remoendo-se de receio sobre o que está por vir.

“A mera menção do protecionismo está causando turbulência”, afirmou Marie Owens Thomsen, economista-chefe global da Indosuez Wealth Management, em Genebra. “Isso representa um risco existencial para a economia mundial”.

Após dois anos de expansão, o volume de tráfego de frete aéreo ficou estável nos primeiros três meses deste ano, de acordo com a Associação Internacional de Transporte Aéreo. Quedas foram notadas especialmente na Europa e na Ásia.

Os navios de contêineres, burros de carga do comércio global, não tiveram qualquer tipo de elevação no frete desde o último trimestre do ano passado, em termos sazonais ajustados.

 

Ao monitorar o comércio mundial, a empresa de pesquisa Oxford Economics registrou, recentemente, os mais baixos resultados desde o começo de 2017.

“Não podemos menosprezar o impacto macroeconômico”, alertou este mês Christine Lagarde, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), falando a respeito dos conflitos comerciais. “Esse impacto seria grave não apenas se os Estados Unidos entrassem em ação, mas especialmente se outros países retaliassem, principalmente aqueles que seriam mais afetados, como Canadá, Europa e Alemanha”.

E há outros desafios econômicos.

A decisão do governo Trump de reinstituir sanções contra o Irã elevou o preço do petróleo, pressionando importadores de todo o mundo. A economia europeia está se enfraquecendo, com a Alemanha - a maior economia do continente - especialmente vulnerável. Bancos centrais nos Estados Unidos e na Europa estão retirando o dinheiro fácil que injetavam a juro baixo no sistema global após a crise de 2008.

O governo Trump envolveu os EUA em conflitos cada vez piores com enormes parceiros comerciais.

No ano passado, os Estados Unidos importaram mais de US$ 600 bilhões em mercadorias e serviços do Canadá e do México, os dois outros países do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta) - um pacto ao qual Trump ameaçou pôr fim. Os americanos compraram mais de US$ 500 bilhões em produtos da China e outros US$ 450 bilhões da União Europeia. Coletivamente, isso representa quase dois terços das importações americanas.

“Se você prejudica qualquer um desses três (atores), sentirá os efeitos”, explicou Adam Slater, principal economista da Oxford Economics. “Se você prejudica os três de uma vez, isso será sentido bem acentuadamente”.

Em Houston, que ainda se recupera de um devastador furacão, as tarifas do aço se assomam como mais uma tempestade no horizonte. O Porto de Houston é um dos mais movimentados terminais de carga marítima do planeta. É um grande gerador de empregos locais e o maior importador de aço na América do Norte. As importações de aço têm aumentado, especialmente de canos utilizados na indústria de energia.

Dezesseis anos atrás, quando o presidente George W. Bush aplicou tarifas ao aço, as importações caíram substancialmente. Essas recordações alimentam o medo atual.

“Estamos esperando para ver o que vai acontecer”, afirmou Roger Guenther, funcionário da autoridade portuária.

A Espanha saiu da depressão e se tornou uma das economias que cresce mais rapidamente na Europa. Mas o conflito comercial está dificultando esta trajetória.

Na Extol, uma empresa da cidade espanhola de Toledo que fabrica peças para as indústrias automobilística e ferroviária, os contratos de fornecimento de seus produtos não têm tido duração maior do que três meses, em vez dos usuais contratos com duração de um ano que eram assinados anteriormente. Segundo o executivo-chefe da companhia, Fernando Busto, com o preço do alumínio em elevação, os compradores estão receosos de se comprometer.

Agora, os pequenos negócios e os consumidores estão começando a sentir os efeitos do conflito.

No México, a ansiedade em relação ao comércio tem persistido desde que Trump ameaçou rasgar o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio. Os mexicanos comuns têm absorvido o impacto diante da queda de valor do peso, que elevou os preços dos produtos de consumo cotidiano importados dos EUA.

“Esse presidente está nos levando à bancarrota”, afirmou Gustavo Ferreyra Olivares, vendedor de frutas na Cidade do México há 35 anos.

Sob o Nafta, o México tornou-se o maior importador de maçãs produzidas nos EUA. O governo mexicano impôs recentemente tarifas de 20% às maçãs americanas, em resposta à taxação de Trump ao aço.

O mercado global de commodities também é afetado.

Enquanto a classe média chinesa tem crescido, aumenta também seu apetite por carne de porco. Criar mais porcos tem forçado a China a importar mais soja dos EUA.

Mas a China tem como alvo direto as fazendas americanas, ameaçando taxar a soja que importa dos EUA. Criadores chineses de porcos se voltaram para Brasil e Argentina, únicos países que atualmente produzem soja suficiente para oferecer uma potencial alternativa.

Do outro lado do Atlântico, em Copenhague, Jesper Pagh observou o resultado a partir de seu escritório: preços da soja em elevação nos mercados mundiais. Veterano do mundo das commodities, Pagh está acostumado com a flutuação dos preços. Mas aqui há uma nova variável. 

“Não é algo que tem tirado meu sono, mas, claro, pode haver uma escalada”, afirmou Pagh. / David Montgomery, Rachel Chaundler, Christina Anderson, Gaia Pianigiani e Cao Li colaboraram com reportagem.

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