Andrew Mangum para The New York Times
Andrew Mangum para The New York Times

Recuperando o sentido de identidade perdido na guerra

Jovem veterano de guerra americano, que perdeu ambas as pernas em uma explosão, recebeu também um transplante de pênis

Denise Grady, The New York Times

05 Maio 2018 | 11h00

BALTIMORE – Em uma operação que durou 14 horas, um jovem veterano de guerra americano, cuja genitália foi destruída por uma bomba, recebeu um extraordinário transplante: pênis, escroto e uma parte da parede abdominal, doados pela família de um homem que acabara de falecer.

A cirurgia, realizada em março no Johns Hopkins Hospital de Baltimore, Maryland, permitiu o maior transplante de pênis até o momento, e o primeiro em um veterano de guerra , mutilado por uma explosão. Já haviam sido feitos outros dois transplantes de pênis bem-sucedidos, mas apenas do órgão. Esta operação transplantou um pedaço de tecido de 25 centímetros por 28, pesando cerca de dois quilogramas.

O paciente, que pediu para não ser identificado, perdeu ambas as pernas acima do joelho, mas o mais devastador para ele foi o dano genital. “Por causa desta ferida, tive a sensação de que todo relacionamento estaria proibido para mim”, ele disse. “Como se eu estivesse acabado, e fosse obrigado a ficar sozinho pelo resto da vida. Durante muito tempo tive dificuldade para me ver como um homem”. Mas, quatro semanas após a cirurgia, afirmou, “voltei a me sentir inteiro”.

O dr. W. P. Andrew Lee, chefe da equipe de cirurgia plástica e reconstrutora do Johns Hopkins, disse que o objetivo deste tipo de transplante é “devolver o sentido de identidade e de virilidade à pessoa”. Para a maior parte dos homens, isto significa recuperar a capacidade de urinar em pé e manter relações sexuais.

O dr. Lee acredita que o transplante tornará ambas as coisas possíveis, embora leve tempo. O paciente recuperará antes a capacidade de urinar, daqui a alguns meses. Os nervos continuam crescendo no receptor com o órgão transplantado a uma média de cerca de 2,5 centímetros por mês. “Temos a esperança de poder restaurar a função sexual no que se refere a uma ereção espontânea e ao orgasmo”, ele disse.

Embora o saco escrotal tenha sido transplantado, os testículos do doador foram retirados por razões éticas: sua preservação poderia permitir que o receptor tivesse filhos que pertenceriam geneticamente ao doador do órgão. O receptor não poderá ter filhos biológicos, e a testosterona compensará a falta de testículos.

Depois da explosão, o soldado sabia que estava entrando em estado de choque. Desmaiou no helicóptero que o resgatou. A sua lembrança seguinte é de recuperar a consciência nos Estados Unidos, aliviado por estar vivo. Logo, porém, tomou consciência da gravidade do dano. Um médico militar avisou que seria irreparável.

Ele se sentiu isolado no meio dos outros soldados feridos. “Esta é uma das primeiras coisas quando eles sofrem uma explosão, verificar lá em baixo, e a reação é sempre: ‘Se perder o sexo, eu me mato’”, ele acrescentou . “Eu sei que falam isto sem nenhuma intenção, mas é a sua virilidade que é afetada”.

Ele afirmou: “se eu pensasse realmente em me matar, pararia e me perguntaria: ‘Vou mesmo me matar por causa do pênis?’” Ele aprendeu a caminhar com próteses nas pernas, saiu do hospital e continuou vivendo sozinho. Quando não precisou mais do OxyContin por causa da dor física, continuou tomando o remédio para entorpecer as emoções.

Também acabou não precisando mais do medicamento; consultou um terapeuta, formou-se na faculdade e começou a fazer planos para cursar medicina.

Em 2012, consultou o dr. Richard J. Redett, diretor de cirurgia plástica e restauradora do Johns Hopkins, a respeito de um procedimento que criaria um pênis com tecido do próprio corpo, possivelmente a pele da parte inferior do seu antebraço. Interessou-se pela cirurgia, mas o dr. Redett falou na possibilidade de um transplante no futuro.

Então decidiu esperar. Passou por um exaustivo processo de exames. Determinados nervos e veias precisariam estar intactos, juntamente com a uretra. Os candidatos também devem estar em boas condições psicológicas.

Os cirurgiões retiraram vértebras do doador, para fornecer células tronco que seriam transferidas para o receptor a fim de impedir a rejeição. O paciente contou que antes da cirurgia ficou pensando se estaria preparado, mental e emocionalmente, a aceitar partes de outro corpo.

“Eu pensei: será que vou aceitá-lo como se fosse meu?”, ele disse. “Pensava nisto continuamente. Mas , desde que fiz a cirurgia, só o vejo assim. É meu.”

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