Elbphilharmonie
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Recuperando o som da sanfona, instrumento de mil anos de idade

Realejo ganha vida nova nas mãos do músico austríaco Matthias Loibner

Corinna da Fonseca-Wollheim, The New York Times

11 Março 2018 | 10h00

HAMBURGO, Alemanha - No final do grande ciclo de canções de Franz Schubert “Winterreise”, destaca-se Der Leiermann, um esfarrapado tocador de realejo tão repulsivo que os cachorros só rosnam para ele de longe.

Entretanto, há algo neste velho pedinte, e na música que ele repete incessantemente em seu instrumento de manivela, também chamado de sanfona e viola de roda, que fascina o narrador deste ciclo sombrio.

O Leiermann de Schubert voltou à vida em uma recente apresentação do “Winterreise” (Uma Jornada no Inverno), da vocalista Natasa Mirkovic, na sala de concertos Elbphilharmonie da cidade. Natasa estava acompanhada por Matthias Loibner, um dos inúmeros mestres da sanfona que apresentam este instrumento de mil anos de idade em uma das suas reencarnações.

O arranjo de Loibner explora a misteriosa melancolia deste instrumento de cordas acionado por uma manivela, com seu rosnado metálico e um zumbido que lembra uma gaita de fole.

“No momento em que você pega na mão um realejo no palco, as pessoas esperam que você conte uma história”, disse Loibner, nascido em Graz, na Áustria, em 1969.

Os realejos agora aparecem em concertos de músicas do barroco francês, em novas encenações de obras medievais e em espetáculos de música folclórica; o seu zumbido serve de apoio à música de transe e ao jazz experimental.

Na Idade Média, o realejo funcionava como um auxílio no ensino coral nos mosteiros, mas logo se tornou conhecido como acompanhamento rústico das danças dos vilarejos. Dali, transformou-se em acessório fundamental dos aristocratas franceses do século 18, que gostavam de participar de festas em trajes de pastores e de camponeses pobres.

Os fabricantes do instrumento passaram a produzir realejos maravilhosamente ornamentados que muitas vezes eram cobiçados pelas mulheres; Maria Antonieta é famosa por ter tocado um realejo. (O termo francês é “vielle à roue; o termo inglês - hurdy-gurdy - imita o som do instrumento).

Mas, no século 19, os realejos começaram a ser tocados principalmente por pedintes. Regiões como a Savoia na França, e a área hoje pertencente à Polônia e à Ucrânia, produziram grande número de músicos itinerantes - em geral, cegos - que tocavam por algumas moedas.

Loibner disse que muitos dos tocadores de realejo do Leste Europeu passavam os meses mais quentes do ano na Áustria e na Alemanha, depois regressavam para as suas casas no inverno, com o seu pequeno ganho.

Robert Green, um tocador americano e especialista em barroco, afirmou que a razão pela qual o realejo “sobreviveu tão bem está no fato de que o instrumento conseguiu reinventar-se”.

Parte de sua última reinvenção é uma versão atualizada eletronicamente, que pode funcionar como banda de um tocador só ou soar como um bando de guitarras elétricas.

Loibner muitas vezes acompanha DJs e conjuntos folclóricos de diferentes tradições, e toca com um trompetista e um percussionista no Brot und Sterne, um trio famoso pelos improvisos de jazz. Mas a figura icônica do Leiermann de Schubert permanece o elemento fundamental em sua concepção do instrumento.

Aos 17 anos, ele fugiu de casa com um amigo com o plano de se apresentarem nas ruas para ganhar dinheiro e ir para a Índia. Só chegaram até a Grécia, mas jamais esqueceu da experiência de músico de rua mal capaz de sobreviver.

“Para mim, a coisa mais próxima do Leiermann de Schubert são os grupos de punks que às vezes passam pela rua”, ele disse. “Algumas vezes eles têm um cachorro, e sempre um deles toca violão. Está tão bêbado que toca com uma corda só continuamente - e o instrumento está desafinado. Mas eles vivem esta liberdade e - para mim, por um momento - o sonho de partir e deixar para trás todas as regras da sociedade”.

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