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‘Rede de Intrigas’ é encenado em tempos de ‘fake news’

Em 1976, filme previa que emissoras se tornariam braço direito de grandes corporações e que o factual daria lugar a emoção

Dave Itzkoff, The New York Times

30 de novembro de 2018 | 06h00

Em uma tarde de sexta-feira, Bryan Cranston precipitou-se escada abaixo no saguão do Belasco Theater, em Nova York, vestindo pouco mais do que um roupão de banho. Abandonando por uns instantes o seu papel, exibiu um sorriso simpático e declarou calmo: “vou enlouquecer”.

Então, subiu correndo a escada e se sentou atrás de uma mesa no palco. Retomando o personagem de âncora do noticiário de televisão de uma estação que está em último lugar em audiência, daqui a pouco Cranston irá pronunciar um monólogo inflamado em que instiga os telespectadores, tão irados e frustrados quanto ele, a botarem a cabeça fora da janela e gritar: ‘Estou p** da vida, não vou mais aguentar isto!”

É o momento mais forte de “Network (Rede de Intrigas)”, o filme que ganhou o Oscar de 1976, com roteiro de Paddy Chayefsky, em que uma emissora de TV perdeu todo o senso moral e apostou o seu futuro em um apresentador maluco chamado Howard Beale. 

Esta cena não é menos explosiva na adaptação para o teatro de “Rede de Intrigas”, que estreia em Nova York no dia 6 de dezembro, depois de ter sido encenada no National Theater de Londres. Ela foi adaptada do filme de Lee Hall, o autor de “Billy Elliot”, e dirigida por Ivo van Hove, o diretor experimental de novas encenações de “As bruxas de Salém” e de “Panorama visto da ponte” na Broadway.

Cranston, o inflamável intérprete de “Breaking Bad” e “All the Way” (Até o fim), é Beale, o frenético apresentador interpretado no filme por Peter Finch. No elenco estão também Tony Goldwyn (“Escândalo”) como Max Schumacher, o desmoralizado presidente do noticiário da emissora, e Tatiana Maslany (“Orphan Black”) como Diana Christensen, ambiciosa executiva da programação, personagens interpretados na tela por William Holden e Faye Dunaway.

Os criadores e os atores desta versão teatral, ambientada nos mesmos anos 1970 do filme, acreditam que poderão tornar relevante cada parte deste trabalho para um público contemporâneo. Sua história não precisou de qualquer atualização para se impor na era Trump, de fatos alternativos e notícias falsas. E tampouco precisou de grandes esforços para estabelecer estes paralelos.

Além de sua estranhamente cuidadosa previsão da transformação das emissoras de notícias em braços de grandes corporações, e da degradação da verdade, esta “Rede de Intrigas” tem uma mensagem oportuna e mais fundamental sobre o poder da ira e sobre o que acontece quando a sociedade em massa a libera.

“A nossa sociedade não vê de bom grado a emoção da ira. Não é algo apropriado. E trabalhar com isto, me fez perceber: por que não? Ela é um grande elemento motivador. É legítima. Por que não aceitá-la sendo quem somos?”, disse Cranston.

O personagem de Howard Beale - que se transforma em uma sensação populista depois de ameaçar suicidar-se ao vivo na frente das câmeras, e cuja audiência vai se tornando cada vez maior e mais assídua à medida que a sua noção da realidade se torna mais tênue - é a criação mais famosa de Chayefsky.

“Rede de Intrigas” escandalizou as emissoras desinteressantes da época de Chayefsky com seu terrível prognóstico de que a reportagem factual se tornaria obsoleta em razão dos frenéticos apelos para a emoção. Ele morreu em 1981, sem ter visto a realização das suas previsões mais funestas.

Van Hove contou que ainda lembra da sensação que experimentou ao assistir “Rede de Intrigas” na adolescência. “Foi um filme muito impressionante, mas, ao mesmo tempo, parecia exagerado: ‘Isto nunca irá acontecer. É pura ficção científica’”, afirmou. Entretanto, depois de ler a adaptação de Hall, ele chegou a uma conclusão diferente: “achei que esta ficção científica se tornou a nossa realidade”.

Quando Goldwyn a viu, os acontecimentos dos últimos anos haviam deixado bem clara a mensagem de “Rede de Intrigas”. “A ira se tornou a força dominante do nosso diálogo político e, consequentemente, do nosso diálogo na mídia”, ressalta.

Mas Hall sugeriu que a peça tinha uma lição “sobre o perigo das convicções absolutas - o perigo de qualquer tipo de fundamentalismo”. Hall afirmou que a peça teria de acabar com Beale passando por um “momento de anagnorise” - a percepção da verdade da sua experiência. Mas o que seria?

Em uma das hipóteses que contemplou, o “último discurso seria o dele mesmo, demitindo-se no ar, dizendo que estava enganado”. E logo acrescentou: “Não é assim que nós vamos fazer”. Van Hove afirmou que a sua peça poderia ter um tom mais otimista, sugerindo a possibilidade de que as coisas nem sempre serão como são. 

Mudanças, recuperação e o retorno à compaixão sempre serão possíveis. “No fim da era do gelo, de repente uma florzinha brotou, e a vida se renova”, ele disse. “Mas isto leva algum tempo”.

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