Kate Dehler/The New York Times
Kate Dehler/The New York Times

O próximo alvo do Facebook? A experiência religiosa

A empresa está intensificando parcerias formais com grupos religiosos em todos os Estados Unidos e moldando o futuro da experiência religiosa

Elizabeth Dias, The New York Times – Life/Style, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2021 | 05h00

Meses antes da inauguração da mega-igreja Hillsong em Atlanta, o seu pastor buscou conselho sobre como criar uma igreja em uma pandemia.

Através do Facebook.

A rede social tinha uma proposta, segundo o pastor Sam Collier: usar a igreja como estudo de caso para analisar de que maneira elas poderiam “ir muito mais longe através do Facebook”.

Durante meses, os desenvolvedores da rede social se reuniram semanalmente com a Hillsong e estudaram de que maneira a igreja apareceria no Facebook e que aplicativos eles poderiam criar para doações financeiras, capacidade de vídeo ou livestreaming. Quando chegou a hora da grande inauguração da Hillsong, em junho, a igreja divulgou um boletim de informações comunicando que estava “se associando ao Facebook” e começou a mostrar os seus serviços de streaming exclusivamente na plataforma.

Além disso, Collier não pôde adiantar muitos detalhes, porque havia assinado um acordo de sigilo.

“Eles estão nos ensinando: nós estamos ensinando a eles”, explicou. “Juntos, estamos descobrindo qual poderá ser o futuro da igreja no Facebook”.

A rede social, que passou a cifra de US $ 1 trilhão em valor de mercado, poderá ser considerada uma parceira inusitada para uma igreja cujo objetivo fundamental é espalhar a mensagem de Jesus. Ocorre que, nos últimos anos, a empresa vem cultivando parceria com uma ampla variedade de comunidades religiosas, desde congregações individuais a grandes confissões, como as Assembleias de Deus e a Igreja de Deus em Cristo.

Agora, depois que a pandemia do coronavírus levou os grupos religiosos a explorar novos caminhos, o Facebook encontrou maiores oportunidades estratégicas para atrair para a sua plataforma usuários extremamente empenhados. A empresa pretende tornar-se o lar virtual da comunidade religiosa e quer que as igrejas, mesquitas, sinagogas e outras introduzam a sua vida religiosa em sua plataforma, desde hospedar os serviços de adoração e socialização mais casuais até a solicitar dinheiro. Está desenvolvendo novos produtos, como compartilhamento de áudio e orações, visando os grupos religiosos.

A vida religiosa virtual não substitui a comunidade presencial, por enquanto, e até mesmo os seus apoiadores reconhecem os limites de uma experiência unicamente online. Mas muitos grupos religiosos veem novas oportunidades de influenciar espiritualmente um número maior de pessoas ainda pelo Facebook, a maior e mais influente empresa de rede social do mundo.

As parcerias revelam que as grandes empresas de tecnologia e a religião estão convergindo muito além da simples transferência dos serviços para o online. O Facebook está projetando o futuro da própria experiência religiosa, como fez para a vida política e social.

O esforço da empresa para convencer os grupos religiosos ocorre no momento em que tenta limpar a sua imagem entre os americanos que perderam a confiança na plataforma, principalmente em questões de privacidade. O Facebook enfrenta investigações por seu papel na crescente crise da desinformação do país e na quebra de confiança da sociedade, principalmente no campo da política, e as autoridades reguladoras tornaram-se cada vez mais preocupadas com o seu poder desmedido. O presidente Joe Biden recentemente criticou a empresa por seu papel na disseminação de falsas informações a respeito das vacinas contra a covid-19.

“Só quero que as pessoas saibam que o Facebook é um lugar em que, quando se sentirem desencorajadas, deprimidas ou isoladas, poderão ir até a rede social e entrar imediatamente em contato com um grupo de pessoas que se preocupam com elas”, afirmou Nona Jones, diretora do setor de parcerias religiosas globais e ministra não confessional na empresa.

Em junho, executivos do Facebook dirigiram os seu esforços para grupos religiosos em uma cúpula religiosa virtual. Sheryl Sandberg, diretora operacional da empresa, apresentou um centro de recursos online com ferramentas para a criação de congregações na plataforma.

“As organizações religiosas e redes sociais se complementam naturalmente porque tratam essencialmente de conexão”, afirmou Sandberg.

“A nossa esperança é que um dia as pessoas hospedem serviços religiosos também em espaços de realidade virtual ou usem a realidade aumentada como instrumento educacional para ensinar aos filhos a história da sua fé”, afirmou.

A cúpula do Facebook, semelhante a um serviço religioso, incluiu testemunhos de líderes religiosos sobre a ajuda da plataforma para o seu crescimento durante a pandemia.

O imã Tahir Anwar da South Bay Islamic Association, na Califórnia, disse que a sua comunidade captou recursos recordes fazendo uma transmissão em vídeo ao vivo no Facebook durante o Ramadã, no ano passado. O bispo Robert Barron, fundador de uma influente empresa de mídia católica, afirmou que o Facebook “deu às pessoas algo como uma experiência íntima da missa que normalmente elas não teriam”.

As colaborações levantam não apenas questões pessoais, mas também filosóficas e morais. Há muito tempo, a religião é uma maneira essencial graças à qual os seres humanos formaram a comunidade, e agora as redes sociais estão entrando neste papel. O Facebook tem cerca de 3 bilhões de usuários mensais ativos, o que a torna maior do que o cristianismo no mundo, que tem cerca de 2,3 bilhões de seguidores, ou o Islã que tem 1,8 bilhão.

Por outro lado, existem também preocupações com a privacidade, porque as pessoas compartilham alguns dos detalhes da vida com as suas comunidades espirituais. O potencial do Facebook na obtenção de valiosas informações sobre o usuário cria “enormes” preocupações, segundo Sarah Lane Ritchie, professora de teologia e ciência na Universidade de Edimburgo. Os objetivos das empresas e das comunidades religiosas são diferentes, acrescentou, e muitas congregações, frequentemente com membros mais velhos, talvez não compreendam como podem ser visados pela publicidade ou outras mensagens baseadas em sua adesão religiosa.

“As corporações não estão preocupadas com códigos morais”, ela disse. “Acredito que nós ainda não conhecemos todas as maneiras pelas quais este casamento entre grandes empresas de tecnologia e a igreja se dará”.

Um porta-voz do Facebook afirmou que os dados que a empresa coletou junto às comunidades religiosas serão tratados da mesma maneira que os dos outros usuários, e que os acordos de sigilo constituem um processo padrão para todos os associados que tratam do desenvolvimento de produtos.

Entre as várias parcerias do Facebook, muitas implicam em pedir às organizações religiosas que testem ou façam sessões de discussão de ideias a respeito dos novos produtos, e esses grupos aparentemente não se abalam com as grandes controvérsias da empresa. Este ano, a rede social testou um formato de oração em que os membros de alguns grupos podem postar pedidos de orações e outros podem respondê-los. O criador do YouVersion, o popular aplicativo da Bíblia, trabalhou com a empresa para testá-lo.

A abordagem do Facebook constituiu a primeira vez que uma importante empresa de tecnologia quis colaborar em um projeto de desenvolvimento, disse Bobby Gruenewald, o criador de YouVersion, e pastor da Life Church, em Oklahoma, lembrando que também trabalhou com o Facebook em um formato de versos diários da Bíblia, em 2018.

“Obviamente, existem maneiras diferentes que, tenho certeza, poderão servir a estes parceiros”, ele disse. “Do nosso ponto de vista, o Facebook é uma plataforma que nos permite constituir uma comunidade e comunicar com ela para cumprir a nossa missão. Por isso, ela serve perfeitamente a todos, acredito”.

Para alguns pastores, o trabalho do Facebook levanta questões a respeito do futuro da igreja como um todo em um mundo virtual. Por isso, grande parte da vida religiosa continua física, como os sacramentos ou a imposição das mãos para oração de cura.

A igreja online nunca pretendeu substituir a igreja local, disse Wilfredo de Jesús, pastor e tesoureiro geral das Assembleias de Deus. Ele disse que agradece ao Facebook, mas que, no fim das contas, “nós queremos que todos coloquem o seu rosto (face) em outro livro (book)”.

Para as igrejas como a Hilsong de Atlanta, o objetivo último é a evangelização.

“Nós nunca nos posicionamos mais para a Grande Comissão do que agora”, disse Collier, referindo-se ao chamado de Jesus para “fazer discípulos em todas as nações”.

Ele virou um parceiro do Facebook, afirmou, “com a finalidade de impactar diretamente e ajudar as igrejas a procurar e chegar melhor até o consumidor”.

“Consumidor não é a palavra certa”, disse, corrigindo-se. “Chegar melhor até o paroquiano”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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