Lam Yik Fei para The New York Times
Lam Yik Fei para The New York Times

Rediscutindo o papel da escrita na era tecnológica

Escrita à mão é benéfica para a memória, segundo neurocientistas e psicólogos

Robb Todd, The New York Times

21 de abril de 2019 | 06h00

A escrita manual tem detratores desde Sócrates. O filósofo grego achava que pôr palavras no papel era um processo que acabava com a memória. Ele preferia a oração. Mas a escrita à mão sobreviveu aos gregos, e, embora o seu valor seja contestado, é tão importante que o homem agora ensina os robôs a fazê-lo para ele.

Segundo notícia do jornal “The Times”, na China, uma menina não queria fazer o seu trabalho de escola, que consistia em copiar alguns dos milhares de caracteres chineses, então economizou 800 renminbi (aproximadamente US$ 120) e comprou um robô para fazer as suas tarefas escolares.

Os estudantes chineses fazem testes para provar o seu conhecimento em caracteres, e às vezes precisam transcrever textos literários de cor. A mãe da garota ficou surpresa com a rapidez com que ela concluiu a tarefa. Ao limpar o quarto da filha, ela encontrou a máquina e a quebrou. 

Nos Estados Unidos, trava-se uma batalha sobre a utilidade da escrita cursiva em uma sociedade dominada pela tecnologia como a dos dias de hoje. Será que a relação com o manuscrito se tornou mera nostalgia ou ela é importante para o desenvolvimento da criança? Será anti patriótico não ensiná-la?

“Enquanto teclados e telas vão substituindo o lápis e o papel nas escolas”, escreveu Emily S. Rueb no “The Times”, “parlamentares e defensores do cursivo fazem lobby para reintroduzir em todo o país a pedagogia da escrita usada na escola antiga, acendendo um debate sobre os valores e a identidade americana e denunciando o fosso que se criou entre as gerações”.

Segundo alguns neurocientistas e psicólogos, a escrita à mão é benéfica para a memória (que Sócrates nos desculpe), assim como para o desenvolvimento das habilidades motoras, do cérebro e da compreensão. Outros afirmam que há prioridades mais importantes. Noelle Mapes, professora da terceira série de Nova York, disse ao “Times” que promover o cursivo não é um bom uso do tempo limitado dos professores na sala de aula.

“Sou uma professora da geração do milênio, por isso parece quase uma iniciativa da geração do boom”, ela disse. “Acrescente-se aprender a datilografar, a pedagogia contra o racismo, o ativismo, a alfabetização digital. Há tantas outras coisas”. Embora os jornalistas tenham abandonado a caneta e o papel, ou até mesmo o teclado, Farhad Manjoo, colunista do “The Times”, evita digitar, pelo menos nos seus apontamentos iniciais.

“Em vez de escrever, eu falo”, escreveu em um dos seus recentes artigos. Manjoo usa fones de ouvido sem fio para falar, como Sócrates, em seu iPhone. Ele carrega a gravação em um serviço online que transcreve as suas palavras para então editá-las de uma maneira mais tradicional. Segundo ele, este processo revolucionou a sua maneira de trabalhar, tornando a sua escrita “mais próxima da conversação e menos rebuscada” e ampliando as suas possibilidades de expressão.

“Agora posso escrever como os fotógrafos clicam - em qualquer lugar, sempre que a musa me inspira”, escreveu. “A maioria das minhas colunas, inclusive grande parte desta, foi escrita desse modo: primeiramente com a boca, e não com os dedos”. Mas outros jornalistas evitam escrever à mão porque a sua escrita é ruim. “Falando honestamente, tenho uma caligrafia horrorosa, e decifrá-la é uma tarefa árdua”, disse Isabella Kwai, repórter de “The Times, Austrália“.

Em vez disso, ela digita anotações no seu iPhone, prática que, segundo conta, certa vez quase enlouqueceu uma fonte, que perguntou como ela conseguia fazer aquilo e ainda manter contato visual (com o interlocutor). Ela respondeu: “Com os polegares do milênio incrivelmente ágeis”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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