Daniel Arnold para The New York Times
Daniel Arnold para The New York Times

Encenações da Guerra Civil entram em declínio nos EUA

A celebração pelo 155º aniversário da Batalha de Gettysburg mostrou fileiras com menos soldados

Bryn Stole, The New York TImes

23 Agosto 2018 | 10h15

GETTYSBURG, PENSILVÂNIA - O sol nasceu no segundo dia da Batalha de Gettysburg, em 2018, e revelou uma fileira de carros estacionados atrás das tendas do Exército da União.

O anacronismo histórico irritou o comandante da brigada Ted Brennan, 49 anos, que estava escovando os dentes com uma escova de crina de cavalo.

"Tentamos ser absolutamente autênticos, mas sem ficar com disenteria", disse Brennan a respeito de sua unidade. O acampamento de tendas de lona abrigava muitos dos 6 mil participantes da encenação. Atrás das arquibancadas para os espectadores e das barracas de cachorro-quente, estavam acampados os confederados.

A encenação comemorativa do 155º aniversário de Gettysburg, que aconteceu no segundo fim de semana de julho, foi uma chance para os dedicados entusiastas atirarem uns nos outros com rifles antigos e reavivarem velhas amizades com refeições em volta da fogueira. Os espectadores pagaram US$ 40 para assistir a quase uma dúzia de escaramuças ao longo de quatro dias. Um ator que representava Abraham Lincoln ficou à disposição para posar para fotos.

Gettysburg está entre as maiores encenações do ano e ainda atrai milhares de pessoas. Mas isso não é nada comparado às reconstituições das décadas de 1980 e 1990, quando apareceriam dezenas de milhares. Em 1998, no 135º aniversário de Gettysburg, havia cerca de 30 mil participantes e 50 mil espectadores.

Na última década, as multidões diminuíram. Os entusiastas de longa data estão envelhecendo - soldados em seus 50 e 60 anos de idade ocuparam grande parte do campo em Gettysburg - e os jovens não marcham sobre campos de batalhas simuladas na mesma quantidade.

É uma visão da história colocada em um contexto bem específico. Os detalhes militares são meticulosamente pesquisados e recriados, a verdadeira batalha de Gettysburg foi uma das mais violentas da Guerra Civil. Mas as realidades sociais e políticas mais amplas daquela época - os conflitos em torno da escravidão, da emancipação, do racismo e da igualdade - ficam, em grande parte, confinados às margens da encenação.

Um cavaleiro moderno, Nathaniel Williams, disse que cresceu cavalgando, mas só bem mais tarde ficou sabendo que seus ancestrais serviram na 2ª Cavalaria de Homens de Cor dos Estados Unidos, um regimento da União composto por negros livres e escravos libertos.

A primeira vez em que Williams organizou um grupo de encenação foi há cerca duas décadas. Neste ano, duas dúzias de pessoas de sua unidade foram até lá. Formaram a única unidade negra presente. No início da Guerra Civil, os comandantes faziam os regimentos negros executarem trabalhos braçais e só começaram a colocá-los em combate depois de Gettysburg.

De volta aos acampamentos do Exército, os encenadores pegaram garrafas de uísque e aguardente, contaram histórias e reeditaram debates históricos.

"Vamos falar sobre McClellan avançando bem devagar pela península e depois falaremos sobre o divórcio do Joe", disse Frank Beachem, 59 anos, de Manassas, Virgínia.

A maioria dos participantes tem fortes preferências, mas poucos aderem exclusivamente a um lado. Ao contrário, eles trocam uniformes da Confederação ou da União quando as fileiras opostas estão muito magras.

Ainda assim, alguns encenadores da União disseram que optaram usar o azul por causa de suas convicções políticas. Os confederados foram mais propensos a responder que a história da família tinha um papel decisivo na hora de escolherem o lado.

Alguns encenadores confederados disseram que a escravidão teve pouco a ver com a secessão do Sul. Don King, participante confederado que cresceu na Carolina do Norte e agora mora em Maryland, discordou. O Sul guerreou por causa da escravidão, disse ele, mas "você não pode fazer uma batalha com apenas um lado. Pense em como seria um filme de 'Star Wars' sem o Império", continuou. "Só porque você está atuando de um lado não significa que você abrace suas crenças históricas".

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.