Sara Krulwich / The New York Times
Sara Krulwich / The New York Times

Reescrevendo tragédias gregas como histórias de imigrantes

'Contar estas histórias primordiais é uma missão cultural,' diz dramaturgo Luis Alfaro

Daniel Pollack-Pelzner, The New York Times

18 de julho de 2019 | 14h57

Luis Alfaro não imaginou que encontraria a heroína de uma tragédia grega em um centro de detenção juvenil em Tucson, no Arizona. Ali, o dramaturgo, que em 1999 viajava para dar oficinas a criminosos juvenis, conheceu uma estudante promissora: uma garota de 13 anos americano-mexicana que matara a mãe porque mandara assassinar seu pai, um narcotraficante.

Fascinado pela história da menina, naquela noite ele foi ao teatro e na livraria do saguão viu uma pechincha: 10 tragédias gregas por US$ 10. “A primeira era Electra, a história de uma filha que assassina a mãe por ela ter matado seu pai”, contou Alfaro recentemente. “Pensei: ‘Meu Deus, vou ter de adaptar esta peça’”.

Electricidad: Uma visão chicana da Tragédia de Electra, é uma adaptação da obra de Sófocles, parte por parte, para a nativa Los Angeles de Alfaro. A personagem título chora a morte do pai, um chefão do tráfico, e planeja a vingança contra a mãe, enquanto um trio de mulheres fatalistas funciona como coro que se expressa meio em espanhol e meio em inglês.

Produzida mais de 30 vezes nos Estados Unidos Electricidad inaugurou uma trilogia grega de Alfaro que dá a latinos marginalizados uma dignidade mítica. Em 2017, Épido Rei lotou o Public Theater de Nova York. Este mês, será a vez de Mojada, a mais recente obra de Alfaro adaptada da tragédia Medeia, de Eurípedes.

“Os gregos são fundamentais”, disse Alfaro. “Eles vão até a essência: por que motivo nós nos ferimos reciprocamente; por que esta incapacidade de perdoar”. Para o filho de trabalhadores agrícolas de Chicago, contar estas histórias primordiais é uma missão cultural.

Na peça de Eurípedes, Medeia é uma feiticeira do Oriente que se apaixona por Jasão, o argonauta, e o ajuda a surrupiar a Flecha de Ouro do pai. Ela abandona o lar e regressa com ele à Grécia, mas quando Jasão a abandona pela filha de um rei de Corinto, Medeia envenena a sua nova esposa e mata os seus próprios filhos antes de fugir em um carro celestial.

Medeia é “a mais antiga história da imigração jamais escrita”, segundo Chay Yew, que dirige Mojada no Public Theater, onde estreou no dia 17 de julho. Há seis anos, quando começaram a trabalhar na tragédia, Yew encorajou Alfaro a recolher histórias de imigrantes ilegais a fim de basear a jornada de Medeia na América contemporânea. O coro grego de Medeia reforça esta interpretação na visão de Alfaro. “As mulheres dizem: ‘Ela está sujando a nossa terra’, e eu pensei: ‘Está aí a história de uma imigrante, uma mulher em um país em que é vista como pessoa indesejada’”.

Alfaro, 56, há muito pesquisa os aspectos dolorosos de sua comunidade. Nascido em uma família pobre nos anos 1960, em Los Angeles, perto de onde agora ensina dramaturgia na Universidade do Sul da Califórnia, escreveu um ensaio no colegial sobre o assassinato que testemunhara do outro lado da rua: a vítima era um homem com um taco de bilhar enfiado no abdome.

O diretor o suspendeu por causa do tema abordado, mas seu pai, um membro da Union Farm Workers, falou por ele. “Nós precisamos trazer à luz estas cenas que se passam na escuridão”, lembra. Alfaro se deparou com o palco, adolescente ainda, quando foi preso e ofereceram que escolhesse entre a pena na prisão e o serviço comunitário em um teatro do bairro.

Ele escolheu o teatro. Ele adapta as suas peças para as comunidades onde são apresentadas. Para o Public Theater, Medeia e Jasão chegarão a Queens, onde mora uma população de imigrantes mexicanos cada vez mais numerosa. “Alfaro deu a voz a pessoas que nós não vemos, que sofreram traumas na travessia”, explicou Yew. “Ele torna visíveis pessoas invisíveis”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Tudo o que sabemos sobre:
Grécia [Europa]

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.