Jonathan Bachman/Reuters
Jonathan Bachman/Reuters

Refletindo sobre os custos financeiros da mudança climática

O ser humano conseguiria se adaptar gradualmente, como já fez em outros momentos da história, mas há o risco de o aquecimento global se mostrar imediato

Neil Irwin, The New York Times

26 de janeiro de 2019 | 06h00

A esta altura, é claro que a mudança climática traz para o meio ambiente riscos que superam tudo o que já foi visto na era moderna. No entanto, estamos apenas começando a encarar os seus possíveis efeitos econômicos.

Utilizando modelos cada vez mais sofisticados, os pesquisadores calculam que cada décimo de um grau do aquecimento global provavelmente será sentido de maneira equivalente em termos econômicos. Suas projeções contêm uma grande dose de incerteza, por causa das flutuações do comportamento humano e das outras questões sobre a rapidez com que o planeta reagirá ao acúmulo dos gases do efeito estufa.

Um relatório do governo dos Estados Unidos divulgado em novembro levantou a perspectiva de que um planeta mais quente poderá implicar um grave golpe para o Produto Interno Bruto nas próximas décadas. Portanto, muitas das questões econômicas fundamentais das décadas futuras dirão, essencialmente, respeito ao clima. Consideremos algumas delas.

 

Os custos serão permanentes?

Quando pensamos nos prejuízos econômicos decorrentes de um planeta mais quente, é importante lembrarmos que nem todos os custos são equivalentes, mesmo quando os valores em dólares são semelhantes.

Há uma grande diferença entre custos elevados, mas administráveis, e os que poderão decorrer de eventos catastróficos, como escassez de alimentos e crises de refugiados em massa. Pensemos em três possíveis maneiras pelas quais a mudança climática poderia acarretar um custo econômico:

- Uma área agrícola anteriormente fértil experimenta um clima mais quente e secas, resultando em safras menores.

- Uma estrada destruída pela inundação, por causa da elevação do nível dos mares e por furacões mais frequentes, precisa ser reconstruída.

- Uma companhia de eletricidade gasta centenas de milhões de dólares na construção de uma rede de energia mais eficiente porque a antiga talvez não suporte o clima extremo.

O declínio das safras agrícolas constitui um prejuízo permanente para a capacidade produtiva da economia - a sociedade ficará consequentemente mais pobre, por um futuro indefinido. É pior do que  o que acontece em uma crise tipicamente econômica. Em geral, quando as fábricas permanecem ociosas em uma recessão, há uma expectativa razoável de que voltarão a operar assim que a economia se tornar novamente saudável.

A reconstrução de estrada poderá ser cara, mas pelo menos este dinheiro pagará as pessoas e as empresas que fazem o serviço. O custo para a sociedade, acima de tudo, é o fato de que os recursos que se destinam à reconstrução da estrada não estarão disponíveis para algo talvez mais valioso.

É um prejuízo, mas não uma redução permanente do potencial econômico, como a terra menos fértil. E em uma recessão, poderá até mesmo ser algo positivo, pela mesma lógica de que o estímulo fiscal pode ser benéfico em uma crise.

Por outro lado, novos investimentos na rede elétrica poderiam render benefícios a longo prazo em termos de eficiência da energia e em maior confiabilidade. Vejamos alguns paralelos com os gastos militares. Nos anos 50 e 60, durante a Guerra Fria, os Estados Unidos gastaram mais de 10% do PIB com a defesa nacional (atualmente, gastam menos de 4%).

A maior parte dos gastos gerava outras formas de atividade econômica; muitas casas, carros e lavadoras deixaram de ser fabricados e construídos por causa dos recursos que precisavam ser investidos na produção de tanques, bombas e caças. Mas alguns destes gastos também criaram benefícios a longo prazo para a sociedade, como as inovações que levaram à internet e a viagens em aviões comerciais a jato confiáveis.

Certas iniciativas destinadas a reduzir as emissões de carbono ou a adaptar-nos aos impactos do clima  provavelmente gerarão benefícios semelhantes, afirma Nicholas Stern, presidente do Instituto de Pesquisa Grantham sobre Mudança Climática e Meio Ambiente na London School of Economics.

"Não poderíamos erguer defesas contra o mar em larga escala sem investimentos extremamente pesados, mas não são investimentos deste tipo que obtemos das coisas que geram o progresso tecnológico", afirmou. "As adaptações defensivas não contêm algo como o dinamismo que decorre de maneiras diferentes de fazer as coisas."

Há um terreno mais fértil em áreas como transportes e infraestrutura, ele disse. Os carros elétricos, em lugar dos carros com motor de combustão interna, significariam menos poluição atmosférica nas cidades, por exemplo.

De que maneira  a mudança climática aumentaria a desigualdade?

Quando o relatório de um governo levanta a possibilidade de uma perda de 10% do PIB em consequência do aquecimento do clima, talvez seja fácil imaginar que as rendas de cada cidadão se reduzirão na mesma proporção.

Na realidade, é provável que venha a existir uma enorme variação do impacto econômico, dependendo de onde as pessoas vivem e do tipo de emprego que elas têm. As regiões mais baixas, sujeitas a inundações, enfrentarão um risco particularmente elevado se a vida se tornar impossível nelas - ou pelo menos não confiável.

Algumas indústrias em determinadas localizações sofrerão particularmente, ou deixarão de existir; muitas pistas de esquis se tornarão quentes demais para se cobrirem de neve, e o mapa da agricultura global mudará.

A adaptação provavelmente será mais fácil para os ricos do que para os pobres. Os que têm condições de se mudar para uma área em que os impactos serão mais favoráveis, no caso do aquecimento do clima, provavelmente o farão.

Portanto, as implicações econômicas da mudança climática incluirão consideráveis modificações em termos geográficos, demográficos e tecnológicos. 

"Olhar as coisas em termos do PIB realmente não dará uma ideia do que isto significará para a vida das pessoas", afirmou William Nordhaus, economista em Yale, que foi o pioneiro dos modelos nos quais a moderna economia do clima se baseia e que ganhou o Prêmio Nobel pelo seu trabalho. "Olhar apenas para a média de todas as coisas que experimentamos, no mercado ou fora dele, é insuficiente. O impacto será extremamente diferente."

Poderemos nos adaptar a um clima mais quente?

Apesar de todos estes riscos, é importante lembrar que a humanidade tende a se adaptar com considerável facilidade. Há um século, a maioria das pessoas vivia sem um automóvel, um refrigerador, ou a possibilidade de viajar de avião. Vinte anos antes disso, quase ninguém tinha água encanada em casa.

As mudanças na vida das pessoas, e a tecnologia que elas utilizam, poderão abrandar o impacto da mudança climática e garantir que os custos sejam menores no caso de um prejuízo meramente econômico, e maiores se se tratar de modificar totalmente a maneira como a civilização funciona.

A maior parte dos investimentos de capital dura apenas uma década ou duas; as pessoas reconstroem constantemente estradas, edifícios e outra infraestrutura. E um clima mais quente, se ocorresse de maneira suficientemente lenta, poderia mudar apenas onde se dão os reinvestimentos.

Mas há o risco de que a mudança ocorra muito rapidamente. A adaptação que seria possível administrar ao longo de uma geração talvez seja impossível - e cause sofrimento em massa ou mesmo morte - se ocorrer em poucos anos.

Imaginemos grandes quantidades de safras de alimentos eliminadas por causa de alguns anos consecutivos de secas ou de outro clima extremo. Ou se uma grande cidade costeira for varrida em uma  única tempestade extrema.

"Sejam os empregos, o padrão de consumo ou de habitação, se as coisas mudarem tão rapidamente a ponto de não podermos nos adaptar a elas, tudo isto será enormemente dispendioso", disse Nordhaus. "Sabemos que podemos nos adaptar a mudanças lentas. As mudanças rápidas seriam as mais prejudiciais e dolorosas."

É claro que a mudança climática e os seus efeitos em cascata provavelmente serão o desafio que definirá a economia do século 21. Mas há enorme variedade de resultados possíveis. Teríamos de reconhecer também que o ambiente econômico da sociedade está sempre mudando.

Projetar o que isto  significará para as pessoas comuns não é apenas uma questão de dinheiro. "Passei os últimos 20 anos tentando comunicar este fato, e ele não é fácil de processar", afirmou Joseph Aldy, que ensina na Escola de Políticas Públicas Kennedy de Harvard, falando da relação entre mudança climática e economia. "É realmente difícil transmitir algo que está no longo prazo e será gradativo, enquanto ainda não é."

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