Mustafah Abdulaziz/The New York Times
Mustafah Abdulaziz/The New York Times

A reforma que fez a Neue Nationalgalerie voltar no tempo

Depois de uma renovação que custou US$ 165 milhões, a aparência da Neue Nationalgalerie é exatamente igual a quando o museu foi inaugurado, em 1968. E a ideia é exatamente essa

Christopher F. Schuetze, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2021 | 05h00

BERLIM - As reformas levaram seis anos e custaram US$ 165 milhões, mas o que impressionou Julia Büttelmann quando ela visitou a Neue Nationalgalerie foi que nada havia mudado.

“Me lembra muito Berlim Ocidental”, afirmou Büttelmann, de 60 anos, a respeito do templo de arte moderna de Ludwig Mies van der Rohe, que ficava a poucas centenas de metros do muro que dividia a cidade quando ela visitou o museu pela primeira vez, ainda adolescente, nos anos 1970. “É como uma cápsula do tempo”, acrescentou ela.

Büttelmann foi uma das primeiras 1,5 mil berlinenses que reservaram ingressos com duas semanas de antecedência e doaram máscaras de uso médico para redescobrir o marco histórico da cidade, que estava um pouco desgastado antes da reforma: os carpetes estavam puídos; o estofamento, desgastado; e as enormes janelas do salão principal embaçavam nos dias mais frios.

“Realizar tamanha tarefa em um prédio onde não há onde se esconder é algo assustador”, afirmou em um comunicado David Chipperfield, arquiteto britânico que coordenou as reformas. “Mas esperamos ter devolvido este amado paciente em boa condição, aparentemente intocado, exceto por alguma melhora na saúde”.

A reforma no edifício foi orientada pelo princípio de alterá-lo o mínimo possível, enquanto modernizou sistemas mecânicos antiquados, como ar-condicionado, aquecimento, segurança e prevenção anti-incêndio.

Ainda assim, Joachim Jäger, diretor da Neue Nationalgalerie, afirmou que considera a reinauguração um novo começo.

“É como um reset, um tipo de revisita à arquitetura e à coleção”, afirmou Jäger. O fechamento de seis anos permitiu ao museu repensar questões fundamentais a respeito de sua missão e programação, afirmou ele. “O que é a Neue Nationalgalerie? O que ela significa? O que há para ver? E também, para onde queremos ir?”

O museu reinaugura com três exposições. As gigantescas e interativas esculturas de aço da mostra principal, “Alexander Calder: Minimal/Maximal”, em cartaz até 13 de fevereiro de 2022, parecem projetadas destacar o iluminado andar superior.

Outra exposição, “Rosa Barba: In a Perpetual Now” (Rosa Barba: em um perpétuo agora), com obras da artista que vive em Berlim, foi instalada em um salão obscurecido, no andar de baixo, onde são exibidas as obras da coleção permanente do museu, de autoria predominantemente de homens europeus famosos no século 20.

Em agosto, um pequeno grupo de mulheres se juntou diante do museu para protestar contra a falta de artistas mulheres em exibição. Jäger afirmou que, apesar de a reforma ter feito o tempo voltar para os anos 1960 no museu, sua programação não seria como a daquela época.

“Mostrar as limitações da coleção é muito importante para nós”, afirmou ele, acrescentando que vê com bons olhos debates capazes de determinar a direção do museu.

Michael Eissenhauer, diretor da associação Museus Estatais de Berlim, organismo que supervisiona a Neue Nationalgalerie, afirmou que, para sua geração, “o museu representava, de certa maneira, um espírito de tolerância e abertura sem precedentes, no momento de sua inauguração, em 1968”.

Mies, o arquiteto alemão-americano que foi o último diretor da Escola de Bauhaus de artes antes de deixar a Alemanha, em 1937, esteve no museu quando seu gigantesco teto de aço foi içado e instalado sobre as vigas do edifício, em 1967. O projeto viria a ser sua única grande construção no pós-guerra em seu país de nascimento.

Para a recente reforma, 35 mil peças do edifício, incluindo 14 mil placas de granito e 3,5 mil luminárias foram removidas.

Um fabricante de vidros chinês reproduziu as 200 janelas do salão principal, cada uma de 1,2 tonelada. Todas foram adaptadas para acomodar pequenas distorções das vigas de 53 anos.

Jäger e sua equipe resistiram à decisão de manter as janelas com vidraças únicas, como no projeto original de Mies, porque janelas mais modernas seriam mais bem equipadas para controlar umidade e temperatura no interior do recinto, especialmente no verão e no inverno.

“Foi uma decisão muito difícil”, afirmou ele. “Mas foi a decisão correta, porque era a única maneira de manter a visão de Mies”.

Em uma concessão à modernidade, o museu decidiu atualizar o antiquado sistema de iluminação com 2,4 mil lâmpadas de LED, que emitem um pouco mais de brilho e gastam muito menos energia.

Outros detalhes mais anacrônicos foram preservados. Depois de longas discussões, os carpetes originais dos anos 1960 foram reproduzidos e instalados, apesar de seu estilo retrô e industrial não agradar todos os gostos.

“Não sei se concordo com o fato de terem se agarrado tanto ao passado”, afirmou Büttelmann, a visitante, apontando para o carpete. “Eu provavelmente faria algumas mudanças”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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