Denis Lovrovic/Agence France-Presse — Getty Images
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Ex-refugiada da Bósnia vira ministra de governo anti-imigração da Áustria

Alma Zadic chegou a Viena da Bósnia aos 10 anos. Agora, ela é ministra da Justiça em uma coalizão que envolve conservadores anti-imigrantes

Katrin Bennhold, The New York Times

13 de fevereiro de 2020 | 06h00

Alma Zadic fica nervosa quando está em frente às largas janelas de seu escritório. Desde que se tornou ministra da Justiça da Áustria, as ameaças não param. “Temos uma bala reservada para você”, dizia uma, recente. Zadic está sob proteção policial. Filha de refugiados bósnios e membro do progressista Partido Verde, Zadic, de 35 anos, entrou na política com uma meta: combater a extrema direita ascendente. Mas hoje ela tem que defender políticas que mantêm pessoas como seus pais fora do país.

Esse é também o dilema moral dos verdes, pró-refugiados, ao unirem forças com os conservadores do chanceler Sebastian Kurz. Os verdes substituíram o Partido da Liberdade, de extrema direita, como parceiros menores do governo e sua missão era mudar ou abrandar a agenda política. Mas acabaram se tornando parceiros da política de imigração de extrema direita de Kurtz.

Ninguém personifica melhor esse pacto faustiano do que Zadic, primeira ministra austríaca com ascendência imigrante. Ela era adolescente em 2000, quando o Partido da Liberdade aderiu a um governo conservador sob o líder antissemita Jörg Haider. Os pais de Zadic, ambos engenheiros, temeram ser deportados. Seu mandato e o de seu partido visam não apenas a promover uma agenda verde, mas a resistir ao populismo e proteger direitos fundamentais.

No programa do governo do qual ela faz parte, uma taxa de carbono em passagens aéreas e subsídios para o transporte público estão juntos com a proibição de lenços de cabeça para garotas de até 14 anos, centros de deportação e uma controversa nova forma de “detenção de segurança” para os que buscam asilo, medida que Zadic chamou de “retrocesso autoritário”. Kurtz teve 37% dos votos e os verdes apenas 14%. “Mas estamos dando nosso melhor”, disse ela.

Zadic nasceu na cidade industrial de Tuzla, na Bósnia e Herzegovina. A cidade foi palco de um massacre em 1995, na Guerra dos Bálcãs. A família de Zadic fugiu para a Áustria quando ela tinha 10 anos. Mais tarde, ela obteve um Ph.D. em direitos humanos na Universidade Colúmbia, em Nova York.

“Durante anos, me debati com a dúvida: sou bósnia ou austríaca? Em Nova York, descobri que posso ser bósnia, austríaca e europeia ao mesmo tempo”, afirma ela. De volta à Áustria, Zadic decidiu entrar para a política, em 2017. Uma manchete de jornal daquele ano não sai de sua memória. “Eles me chamaram de ‘filha de refugiados’”, disse. “Vivi na Áustria por 25 anos e sou advogada com Ph.D. Nunca fui refugiada ou filha de refugiados.” E concluiu: “É isso que me define”.

Depois que Zadic entrou no governo, seus colegas verdes celebraram-na como a “primeira muçulmana ministra do país”. “Num Estado secular, não deveria importar qual é sua religião, se é que você tem alguma, desde que esteja pronta a servir a seu país”, afirmou. Ela se diz ateia e as constantes a ser muçulmana a irritam.

Zadic sabe que é um modelo para garotas e garotos descendentes de imigrantes, muitos deles, muçulmanos. “Quando estava na escola, era impensável que alguém como eu pudesse ser ministra”, lembra-se. “Não quero desapontar essas meninas e meninos. Não quero desapontar a Áustria.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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