Carolina Hidalgo para The New York Times
Carolina Hidalgo para The New York Times

Refugiados que ajudaram a reviver St. Louis estão saindo da cidade

Bósnios estão saindo do centro da cidade em busca de bairros mais seguros e melhores oportunidades

Melina Delkic, The New York Times

03 de outubro de 2019 | 06h00

ST. LOUIS, MISSOURI - Beriz Nukic levou cerca de dois anos para abrir o seu negócio depois da sua chegada aos Estados Unidos como refugiado de guerra. Nukis aprendeu inglês enquanto montava a sua empresa - um café turco torrado na hora para a população bósnia, que o consome como água. Logo, expandiu a empresa em uma loja de especialidades, e então abriu um restaurante, Berix.

Tudo isto em Bevo Mill, um bairro anteriormente dilapidado na região sul de St. Louis, que rapidamente se tornou a realização do sonho americano. Nos anos 1990, milhares de refugiados fugidos de uma limpeza étnica brutal começaram a estabelecer-se com seus projetos de vida nas casas ao longo da rua cujas janelas tinham sido tapadas com tábuas e onde as iniciativas de urbanização da prefeitura haviam sido interrompidas. Eles aprenderam inglês, abriram cafés e salões de barbeiro, e logo levaram vida e colorido ao bairro que ficou sendo conhecido como Pequena Bósnia.

Amer Iriskic, 28, lembra que chegou no bairro aos sete anos de idade, em 1998, três anos depois do fim da sangrenta guerra civil na Bósnia e Herzegovina. As pessoas ficavam na rua o tempo todo, e a atmosfera era muito agradável”, contou. Seu pai e um tio abriram um açougue onde vendia carne de cordeiro e de vitela, tão procurados pelos bósnios.

Para St. Louis, uma cidade que estava se esvaziando havia dezenas de anos - de mais de 800 mil habitantes nos anos 1950, em 1990 restavam 400 mil - a chegada do que que é considerado o maior contingente de bósnios fora da Bósnia, pareceu algo mágico. Pela primeira vez em gerações, o panorama urbano das casas abandonadas, empresas estagnadas e moradores que desapareciam, começou a mudar. Mas não durou muito.

Hoje, St. Louis, como algumas outras cidades do Centro-Oeste, enfrenta uma nova onda de crise: economia estagnada, escolas ameaçadas e um dos mais altos índices de criminalidade do país. Em poucos anos, as pessoas que haviam fugido da violência brutal em sua pátria,  decidiram fugir mais uma vez, agora, para os subúrbios.

Um dos pioneiros do êxodo foi Nukic, que transferiu o Berix de Bevo Mill para um shopping que ele construíra nos subúrbios de St. Louis County, em 2010. A família Iriskic também se mudou para o sul da cidade e abriu seu açougue no subúrbio, três anos mais tarde. Desde então, salões de barbeiro, alfaiatarias, açougues e uma variedade de outros estabelecimentos bósnios deixaram o centro da cidade, juntamente com os bósnios que os frequentavam.

Histórias semelhantes desenrolam-se nas cidades americanas desde as décadas do Baby Boom, no século XX, e tem disso difícil mudar esta situação. Depois da fuga em massa para os subúrbios, até mesmo dispendiosos investimentos nos centros urbanos muitas vezes não conseguiram ajudar as cidades a recuperar os moradores perdidos.

Os Iriskic mantiveram sua antiga casa em St. Louis e agora a alugam. Mas contam que, depois de sua saída, o bairro declinou ainda mais. “Cada vez que vou até lá para receber o aluguel, percebo que não é mais o mesmo”, disse Iriskic. “Não se veem mais crianças andando, brincando na rua”.

No seu auge, no final dos anos 1990 e início de 2000, a população bósnia, incluindo os bósnios nascidos nos Estados Unidos, chegava a cerca de 70 mil pessoas em St. Louis e no condado ao redor, segundo o International Institute de St. Louis, uma instituição da assistência que patrocina diversos refugiados da região. Agora, a instituição calcula que este número tenha baixado para menos de 50 mil.

E embora seja difícil dizer quantos permanecem nos limites da cidade, Anna Crosslin, a diretora do instituto, disse: “Não me surpreenderia se se tratasse de centenas, e não de milhares”. Segundo muitos dos que se transferiram para os bairros, Little Bosnia não desapareceu, ela apenas se mudou.

Nukic aluga o espaço para duas outras lojas de propriedade de bósnios. Duas casas mais adiante, está a Lemay Meat, o segundo açougue e uma mercearia de propriedade da família Iriskic. No mesmo shopping, funciona uma agência de seguro bósnia. Do outro lado da rua, um banco atende à clientela bósnia, e um pouco mais distante há também uma mesquita bósnia.

St. Lois busca soluções para tornar a região sul da cidade um lugar atraente para se morar para novos habitantes, de onde quer que eles venham. As escolas públicas da cidade voltaram a obter a autorização para funcionar dois anos depois de um lapso de dez. E um novo plano que visa reduzir a violência, o Cure Violence, começa a ganhar força. No ano passado, teve início um projeto de reurbanização de US$ 12 milhões, e outro de US$ 19 milhões transformou uma YMCA próxima em um edifício de apartamentos de luxo.

“Em lugares como o Centro-Oeste, ao contrário do Nordeste ou da Califórnia, é preciso convencer as pessoas de que é uma ótima ideia, não apenas ir ocasionalmente para o centro, mas morar e até mesmo criar os filhos lá”, disse Philip Kasinitz, diretor do programa e graduação em estudos internacionais sobre migração na City University de Nova York. “Para tanto, será necessária uma reviravolta do pensamento americano dos últimos 50 anos”, afirmou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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