Adam Ferguson para The New York Times
Adam Ferguson para The New York Times

Rei da alga marinha enfrenta alta do nível do mar

Agricultores de algas marinhas lutam contra mudanças climáticas que estão varrendo ilhas do Pacífico

Damien Cave, The New York Times

05 Agosto 2018 | 10h30

ILHA MAKARU, ILHAS SALOMÃO - A primeira ilha para onde David Tebaubau se mudou, 14 anos atrás, foi engolida pelo mar e desapareceu.

"Ficava bem aqui", disse ele, apontando para o leste, onde via-se apenas mais oceano. "Pensamos que ficaria tudo bem, mas a situação está cada vez mais difícil".

O pedacinho de terra que ele agora ocupa nesta remota região do Pacífico Sul tem metade do tamanho de cinco anos atrás, quando ele chegou. No período entre as marés, seu ponto mais largo tem 24 passos, além dos 58 passos de comprimento.

Na maré alta a ilha é ainda menor, apenas uma gota de areia e corais com espaço suficiente apenas para a família dele e algumas toneladas de alga marinha que eles cultivam nas águas.

É essa alga que os mantém ali. Os bancos de areia perto dessa ilha - e de duas outras nas proximidades que foram colonizadas por famílias de agricultores - são o habitat perfeito para uma variedade de alga que é exportada por toda a Ásia. E Tebaubau, 50 anos, um ex-mecânico que usa a barba longa como se fosse um sábio, domina os procedimentos de cultivo dessa alga.

Com seus ganhos, ele já conseguiu mandar os filhos para uma escola particular numa ilha maior. Para os outros cultivadores da região, ele não é apenas uma pessoa reclusa, e sim o Rei da Alga. Ao menos enquanto seu reino resistir.

As três ilhas de areia estão sendo varridas por poderosas correntes e pela alta do nível do mar causada pela mudança climática. Precária e preciosa, a vida na região é adorável em meio à calma dos trópicos, mas lembra um pouco a sensação de viver numa banheira de água quente que fica cada vez mais cheia, sem nunca esvaziar.

É a situação observada em muitas partes das Ilhas Salomão, um maravilhoso país formado por aproximadamente 900 ilhas e 570 mil habitantes.

O nível do mar ao redor vem se elevando à razão de cerca de 7 a 10 milímetros por ano desde 1993, quase o triplo da média global atual - e um cenário que os cientistas imaginam encontrar em todo o Pacífico já na segunda metade deste século.

Os moradores de muitas ilhas foram obrigados a se mudar. Outros, especialmente aqui, nas três ilhas cercadas pela cobiçada alga, fazem todo o possível para ficar.

As famílias que moram aqui são formadas pelos filhos e netos de imigrantes reassentados pelos britânicos nos anos 1950 depois que as ilhas que habitavam originalmente, em outra parte do Pacífico, foram afetadas pela seca. les não estão ansiosos por uma nova mudança.

"Dizem que somos loucos de ficar aqui, mas estamos simplesmente sobrevivendo por nossa conta", disse Andrew Nakuau, 55 anos, líder comunitário de Beniamina, onde cerca de 60 pessoas vivem amontoadas numa ilha de poucos metros de largura. Makura fica a poucos minutos de barco.

Pequenos painéis solares reluziam no teto das cabanas de palha de Beniamina. Baldes para captar água da chuva (a única água doce disponível) estavam distribuídos pelas trilhas da ilha, à espera de uma tempestade.

Perguntei a Nakuau a respeito da sensação de viver tão distante das causas da mudança climática, longe dos carros e do carvão, mas tão próximo dos seus efeitos. Ele deu de ombros e caminhou até sua linha particular de defesa. À esquerda do banheiro equilibrado em palafitas sobre a água azul, onde antes havia terra, ele apontou para uma pilha de coral que se erguia da areia até uma altura de vários metros. Era mantida no lugar com vigas de madeira.

"Essa é a segunda muralha que construí", disse ele. "A primeira foi há quatro anos".

Algumas horas mais tarde, com a maré baixa, chegou a hora de voltar ao trabalho. Era possível ver os jovens na água, colhendo a alga em suas canoas, ou amarrando mudas a cordas que são mantidas em baixo d'água.

O calor era típico da região equatorial, mesmo na água. Quando uma tempestade tropical se aproximou, os homens protegeram a colheita com lonas.

Ao observar os adolescentes da ilha brincando durante um anoitecer, era quase possível acreditar que a vida aqui poderia continuar para sempre. Mas, a certa distância, viam-se as árvores secas e cinzas que antes ficavam e terra firme, e também as ondas azuis batendo contra o recife.

Ninguém parecia reparar, especialmente o Rei da Alga. "Não tenho intenção de sair daqui", disse ele. "Aqui não há chefe; o chefe sou eu". A muralha de coral criada por ele era bastante alta. "Continuaremos na nossa tentativa de resistir".

Com exceção do rosnado de alguns cães, ele estava sozinho, enfrentando com estoicismo a alta do oceano.

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