Imagens: TikTok e Douyin. Ilustração por The New York Times
Imagens: TikTok e Douyin. Ilustração por The New York Times

Rei da internet na China está de olho nas telas do mundo

Ainda desconhecidos por muitos, os aplicativos da chinesa Bytedance estão conquistando crianças e adolescentes dentro e fora da Ásia

Raymond Zhong, The New York Times

17 de novembro de 2018 | 06h00

PEQUIM - Uma empresa chinesa da internet que distribui vídeos caseiros de usuários dançando break, breves chamadas de notícias e engraçados desafios usando hashtags tornou-se uma das startups mais valorizadas do planeta, avaliada em aproximadamente US$ 75 bilhões. E ela tem grandes planos para tomar de assalto também as telas de celulares do restante do mundo.

Talvez você nunca tenha ouvido falar na empresa, Bytedance. Talvez nunca tenha usado seus apps coloridos e leves. Mas o adolescente mais próximo de você provavelmente já está obcecado com o Musical.ly, plataforma de compartilhamento de vídeos que a Bytedance comprou por cerca de US$ 1 bilhão no ano passado e incorporou ao seu próprio serviço de vídeo, o TikTok.

"Na verdade, é um conteúdo sem importância", comenta o universitário Dong Yaxin, 20 anos, de Pequim, que se diz um usuário ativo do Douyin, versão chinesa do TikTok. A Bytedance diz que mais de meio bilhão de pessoas em todo o mundo usam o Douyin ou o TikTok ao menos uma vez por mês.

Mas, mesmo para uma empresa do ramo do supérfluo, atravessar a barreira mais traiçoeira do mundo da tecnologia não será sem seus percalços. Hoje, o mundo se divide em duas internets: a chinesa e a do restante do mundo. Faz tempo que as duras regras de Pequim para o conteúdo e as operações fazem da China um território difícil, ou mesmo impossível, para as empresas americanas da internet. Essas regras também limitaram as gigantes locais como a Tencent, cujos planos de expansão internacional foram reduzidos por conta das demandas únicas do atendimento à população online da China.

Até o momento, a Bytedance - que obteve recentemente US$ 3 bilhões em novos recursos com investidores como SoftBank e outros - obteve um sucesso raramente visto em ambas as internets com uma abordagem um  pouco diferente.

Para começar, a empresa não pretende ser uma ponte entre os dois universos. Os usuários do Douyin não podem interagir com os usuários do TikTok, e vice-versa; assim é mais fácil controlar o material visto pelo público chinês. O controle cada vez mais rigoroso de Pequim transformou a época atual num momento muito monótono para se trabalhar no ramo da diversão. Empresas de jogos eletrônicos, blogueiros que acompanham celebridades e astros das transmissões ao vivo vêm sendo pressionados pelo governo, que tenta bloquear aquilo que considera conteúdo prejudicial. A Bytedance não foi poupada: em abril, as autoridades ordenaram o fechamento do seu app de compartilhamento de piadas.

A Bytedance venceu as fronteiras com relativa facilidade ao se concentrar em conteúdo leve e afirmativo, atraindo um público jovem - muito jovem. Mas o Partido Comunista chinês não está sozinho na denúncia de um lado sórdido das plataformas da Bytedance.

Mesmo antes de a empresa comprar o Musical.ly, pais indignados e outros disseram ter visto adolescentes praticando coreografias sugestivas e imitando letras que descreviam cenas de sexo e outros conteúdos impróprios. Na Grã-Bretanha, a polícia investigou denúncias de adultos usando o Musical.ly para fazer propostas indecentes a crianças.

Em junho, a Bytedance acrescentou ao TikTok novas configurações de privacidade e controle dos pais. Mas se a empresa (que não respondeu aos pedidos de entrevista) não puder ampliar sua capacidade de lidar com problemas desse tipo tão rapidamente quanto cresce seu número de usuários, seus produtos podem ganhar inimigos entre pais e governos de outros países.

Basta abrir o Douyin ou o TikTok e o usuário é mergulhado diretamente num vídeo. Depois, é só correr o dedo para cima sobre a tela para assistir a outro, recebendo outra dose de dopamina. Os vídeos preenchem completamente a tela do celular, ocultando o relógio exibido no alto e impedindo que o usuário perceba quantas horas já passou assistindo a vídeos de filhotes e coreografias.

A empresa abriu escritórios no Japão, Brasil, Índia, Estados Unidos e além. Ainda assim, funcionários chineses em escritórios da China supervisionam aspectos significativos dos aplicativos internacionais da Bytedance. Chegam até a produzir algum conteúdo voltado para culturas específicas, como notificações sugerindo vídeos ao usuário. A empresa está contratando linguistas de idiomas como português, polonês e árabe para cargos na China, de acordo com um site de empregos.

E a empresa tenta reforçar suas tentativas de manter boas relações com os governos. O TikTok foi bloqueado temporariamente este ano após um alerta emitido pelo governo da Indonésia, acusando a plataforma de disseminar "pornografia, conteúdo inapropriado e blasfêmia".

Recentemente, a Bytedance contratou Helena Lersch, diretora de políticas públicas do Instagram para a região Ásia-Pacífico, para o cargo de diretora de políticas públicas globais. Diretores de políticas públicas do Facebook na Indonésia e no Japão também entraram recentemente para a Bytedance.

Para a jornalista Tao Ni, 25 anos, que trabalha como repórter no leste da China, a popular plataforma Weibo, semelhante ao Twitter, pode ser desgastante. Mas não o Douyin. Segundo ela, é justamente o fato de cada vídeo ser tão curto que a leva a passar horas navegando pelos canais. "Qualquer coisa mais longa que 15 segundos começa a me cansar".

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