Andrew Testa para The New York Times
Andrew Testa para The New York Times
Kimiko de Freytas-Tamura, The New York Times

28 de fevereiro de 2019 | 06h00

BELTURBET, IRLANDA - Recentemente, ao cruzar a fronteira para a Irlanda do Norte, Patrick O’Reilly sentiu novamente muita tensão, uma sensação outrora familiar, mas que pensava nunca mais experimentar. Agora, medo e ansiedade voltavam a tomar conta dele. O’Reilly culpa a Grã-Bretanha por despertar mais uma vez esta preocupação. A saída da União Europeia, o Brexit, reabre antigas feridas infligidas à Irlanda por seu antigo senhor colonial.

“Os britânicos”, afirmou, O’Reilly, dono de um pub, hoje aposentado, “logo irão tratar a gente a pontapés de novo”. Na atormentada história entre as duas nações, o Brexit é a mais recente desconsideração dos britânicos em relação aos irlandeses. E agora, com a possível exceção da Grã-Bretanha, nenhum país perderá mais com o Brexit do que a Irlanda.

Não só a decisão será um desastre econômico, se resultar no retorno de uma forte fronteira internacional, como poderá prejudicar o acordo de paz assinado com a Irlanda do Norte, conhecido como o Acordo da Sexta-Feira Santa, afirmou Diarmaid Ferriter, autor do livro “The Border”. “A fronteira não é apenas uma questão comercial técnica, mas é também psicológica e social”, afirmou.

Embora o impacto final do Brexit seja discutível, não há dúvida de que a questão intensifica as tensões entre os países. As farpas disparadas por partidários britânicos do Brexit contra a Irlanda sobre o chamado “recuo de proteção”, uma espécie de apólice de seguro contra uma forte barreira que está em discussão nas negociações da saída, inflamaram os sentimentos irlandeses.

“O discurso geral em algumas partes da Grã-Bretanha é extremamente arrogante e condescendente, um sentimento como ‘essa gente não sabe o seu lugar’”, disse Tony Connelly, editor europeu da RTE News e autor do livro “A Irlanda e o Brexit”. “Isto, por sua vez, despertou uma espécie de desafio antigo também do lado irlandês”, ele disse. “Todos estes terminais nervosos históricos que foram enterrados pelos processos de paz anglo-irlandês como que se reavivaram”.

O Acordo da Sexta-Feira Santa encerrou cerca de 30 anos de combates na Irlanda do Norte, que faz parte do Reino Unido, entre as comunidades predominantemente católicas favoráveis à República da Irlanda, e os partidários protestantes da coroa britânica, apoiados pelas tropas britânicas. Durante os conflitos, morreram pelo menos 3,5 mil pessoas e as relações entre Dublin e Londres ficaram tensas.

Os últimos anos foram os melhores na memória da Irlanda, com uma economia em franco crescimento na Europa e o melhor relacionamento com a Grã-Bretanha. Mas a taxa de crescimento de 7,8% do ano passado está ameaçada, e o primeiro-ministro irlandês, Leo Varadkar, afirmou que os laços com Londres estão “desgastados”.

Um relatório do governo britânico calculou que a Irlanda poderá registrar uma queda de 7% da produção econômica anual, em comparação a 5% da Grã-Bretanha. Embora alguns setores, como finanças e serviços legais, possam beneficiar-se com a saída britânica, muitos outros dependem consideravelmente das importações de matérias primas ou de peças da Grã-Bretanha.

No dia 22 de fevereiro, o governo irlandês publicou um amplo projeto de lei para permitir que pessoas e serviços - mas não mercadorias - se desloquem com facilidade através da fronteira com a Irlanda do Norte no caso da aprovação de um Brexit ‘sem acordo’.

O setor agrícola arcará com o ônus do Brexit. A Irlanda exporta cerca da metade da sua carne bovina, 25% dos seus laticínios e quase toda a sua produção de cogumelos para a Grã-Bretanha, segundo dados oficiais. A carne bovina e os laticínios poderão estar sujeitos a tarifas de até 70% no caso de o Brexit ocorrer ‘sem acordo’.

Eugene Kiernan é dono da Breffni Mushrooms, produtora de cogumelos que vende 95% da sua mercadoria para a Grã-Bretanha. Com margens de lucro de 2% a 3%, a companhia teria muitas dificuldades para sobreviver a uma possível tarifa de 12%. Os britânicos “não pensaram nas consequências” do Brexit, ele disse. “É a sua mentalidade. Eles continuam achando que são os donos e senhores do mundo. Eles vêm, causam todo tipo de problema e saem deixando para trás a maior confusão”.

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