Gabriella Demczuk para The New York Times
Gabriella Demczuk para The New York Times

Relação entre Thomas Jefferson e sua escrava reacende discussão sobre estupro

Um dos ‘pais fundadores’ dos EUA teve filhos com a escrava Sally Hemings

Farah Stockman e Gabriella Demcuk, The New York Times

15 Julho 2018 | 11h00

CHARLOTTESVILLE, Viginia - O quarto - com o piso de tijolos e as paredes de reboco, vazio - é simples. A vida que ele representa era tudo menos isto.

Na exposição recém-inaugurada em Monticello, a plantação de propriedade de Thomas Jefferson no alto da montanha, o que está sendo apresentado é descrito como a habitação de Sally Hemings, uma escrava que teve alguns dos filhos de um dos fundadores deste país.

A exposição é o fecho de um esforço que nasceu há 25 anos, cuja proposta era mostrar a realidade da escravidão no lar de um dos mais eloquentes defensores da liberdade. O quarto foi aberto ao público no dia 22 de junho, juntamente com um espaço dedicado às histórias orais dos descendentes de escravos no local, e a primeira cozinha do lugar, onde o irmão de Sally, John, preparava as refeições.

A abertura ao público é o golpe final desfechado a dois séculos de desconhecimento, menosprezo ou acobertamento do que constituía um segredo escancarado da vida de Jefferson: o seu relacionamento com uma escrava que durou cerca de 40 anos, desde a época em que ele viveu em Paris até sua morte.

Para tornar possível esta mostra, os curadores se viram às voltas com algumas questões. Com que precisão seria retratada uma mulher da qual não existe uma única fotografia? (A solução foi projetar uma sombra sobre uma parede.) Como tratar o ceticismo dos que persistem em não se deixarem convencer da evidência cada vez mais clara de que Jefferon era o pai dos filhos da escrava? (A solução foi contar a história unicamente através de citações do filho dela, Madison.)

E, em uma era em que “Vidas de negros são importantes”, assim como #Me Too, como definir o relacionamento sexual de Jefferson e Sally Hemings que durou décadas? Deveria ser descrito como estupro?

“Realmente, não há como saber qual foi a dinâmica”, afirmou Leslie Greene Bowman, presidente da Fundação Thomas Jefferson. “Terá sido estupro? Havia afeto entre os dois? Percebemos que seria preciso tratar de uma variedade de questões, inclusive a mais dolorosa”.

Depois de um teste de DNA, em 1998, a fundação sem fins lucrativos proprietária de Monticello, determinou que havia uma “grande probabilidade” de Jefferson ter sido o pai de pelo menos um dos filhos de Sally, e que é possível que fosse o pai de todos eles.

A fundação preocupou-se em destacar as histórias dos escravos de Monticello. E embarcou em um projeto de 35 milhões de dólares, que tomou muitos anos para a restauração de Monticello como era na época em que Jefferson viveu. Reconstruiu a cabana dos escravos e as oficinas em que eles trabalhavam, e hospedou reuniões para os descendentes da população escrava. Além disso, retirou um banheiro público instalado nos anos 40, em cima da habitação dos escravos.

E está eliminando gradativamente a “visita da casa”, que fazia apenas uma rápida menção à escravidão. Mais de 400 mil turistas visitam Monticello todos os anos.

Graças a uma descrição feita por um dos netos de Jefferson, os historiadores acreditam que Sally vivia na habitação dos escravos na Ala Sul. Em lugar de transformá-la em um ambiente daquele período histórico, os curadores deixaram o local vazio, projetando as palavras do filho dela na parede para contar a história.

Acredita-se que o relacionamento sexual entre Jefferson e Sally tenha começado na França, onde a 

escravidão era proibida. Sally queria permanecer em Paris onde poderia ser libertada, mas acabou voltando para a Virginia com Jefferson, depois que ele lhe ofereceu privilégios extraordinários, bem como a liberdade para todos os filhos que ela viesse a ter, segundo um relato de Madison Hemings.

Seus filhos, todos de pele clara, que receberam o nome de amigos de Jefferson, foram libertados ao chegar à idade adulta.

No final, os historiadores optaram por adotar o uso da palavra “estupro” com uma interrogação. A pergunta consta de uma placa fora da mostra de Sally intitulada “Sexo, Poder e Propriedade”. E explica que, segundo a lei do Estado de Virginia, ela era propriedade de Jefferson.

A dúvida a respeito da possibilidade de Jefferson ter sido culpado de estupro provocou discussões entre os descendentes de escravos de Monticello. “Eu não acho que as escravas tivessem alguma escolha”, disse Rosemary Medley Ghoston, uma cabeleireira aposentada de Ohio, que nos anos 80 descobriu que era descendente de Madison Hemings.

Sally Hemings era meia-irmã da esposa de Jefferson, Martha, cuja morte deixou o ex-presidente arrasado. O casal Jefferson teve seis filhos.

A mostra foi considerada ultrajante pelos entusiastas que insistem em afirmar que ele não era o pai dos filhos de Sally. “A acusação contra ele é extremamente grave”, disse Mary Kelley, uma escultora de Chevy Chase, Maryland, que fazia parte da Thomas Jefferson Heritage Society, um grupo que contestava a sua paternidade dos filhos de Sally Hemings.

Annette Gordon-Reed, professora de história da Universidade Harvard que escreveu “Thomas Jefferson and Sally Hamings: An American Controversy”, disse que levaria tempo para as pessoas aceitarem as acusações.

“Alguns chegam aqui e falam: ‘Não vim até aqui, uma plantação de escravos, para ouvir falar de 

escravidão’”, ela disse. “Não há o que fazer senão continuar discutindo”.

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