Quando o casamento é apenas mais uma discoteca badalada

Quando o casamento é apenas mais uma discoteca badalada

Ser solteira aos 30 anos pode fazer com que uma mulher se sinta como se estivesse na fila de espera de uma discoteca badalada, e, então, entrar e pensar: 'Grande coisa!'

Katerina Tsasis, The New York Times/LifeStyle

21 de agosto de 2020 | 05h00

As pessoas a tratam de maneira diferente quando você continua solteira. Nem todos, e nem o tempo todo, nem sempre abertamente, nem necessariamente de maneira grosseira. Elas perguntam por que ninguém ainda a agarrou, se oferece para lhe arranjar encontros às cegas, mesas para solteiros em eventos formais. Arrumam convites na última hora em jantares quando outra pessoa caiu fora.

Elas fazem com que a gente se sinta como se saísse da norma, apesar do fato de que os dados do censo dos EUA dizem que ser solteiro, na realidade, está se tornando cada vez mais a norma.

Quando criança, eu pertencia a uma comunidade de imigrantes que considerava o casamento e a maternidade o objetivo primeiro de uma mulher. As histórias ao meu redor estavam repletas de casamentos com finais felizes: Friends, Sex and the City, Full House. Todas as comédias românticas. Todas as sitcoms. Orgulho e PreconceitoAdoráveis Mulheres, todos os contos de fadas. Brangelina, Kim e Kanye, o interesse exagerado que os americanos têm pelos casamentos reais britânicos.

Eu fiz o que era típico: fui à faculdade, trabalhei, fiz amigos, saí, encontrei homens em bares, na escola, no escritório. Encontrar pessoas era fácil: o difícil era estabelecer relações. Era o início dos anos 2000 em Los Angeles, um lugar onde parecia que todos queriam manter suas opções em aberto. Frequentemente, me encontrei no purgatório de uma relação - encontrando alguém , mas sem estar namorando. Saindo, mas não em uma relação de verdade. Ou em uma relação, mas não uma relação com futuro.

Foi por volta dessa época que minha irmã mais nova terminou a faculdade e anunciou seu noivado. Eu estava prestes a ir para o exterior onde participaria de um programa de MBA. Os comentários das “titias” a respeito da minha vida se tornaram mais mordazes. “Não vá esperar demais!” insistiam em tom de provocação, brincando, mas não totalmente. Do seu ponto de vista, eu estava desperdiçando meu tempo com as prioridades erradas. Aos 26, eu precisava levar isso a sério.

“Ainda planeja ir?” minha mãe perguntou.

Aqui está outra coisa que acontece quando você é solteira. O seu tempo e os seus planos são vistos como menos fixos e menos válidos do que no caso de uma pessoa casada.

Você é a única da qual se espera que faça longas viagens para visitar os entes queridos nos feriados ou ficar até mais tarde no trabalho quando suas colegas precisam pegar os filhos na escola. Com o casamento da minha irmã no horizonte, havia uma expectativa muda de que eu não perdesse nenhuma das oportunidades que poderiam se apresentar até o feliz evento.

Quando voltei para casa para o casamento de minha irmã, o agente da alfândega estranhou a minha sacola de viagem com apenas duas mudas de roupa.

“É só isto que a Sra. tem?” perguntou.

Nunca me senti mais leve antes ou desde então, viajando com pouca bagagem como se estivesse flutuando, ansiosa por voltar para as minhas aventuras.

No ano seguinte, aprendi novas matérias, viajei para uma dúzia de países, pratiquei outras línguas, assisti a uma ópera encenada nos degraus de um castelo, subi no Kilimanjaro, dirigi na terrível rotatória do Arco do Triunfo.

Foi também um ano em que sofri abordagens agressivas de colegas de classe homens. “Conversas de banheiro” soltas em conversações casuais, e uma lista constante de sexismo disfarçado e a condescendência dos homens. A ideia de namorar nunca me pareceu mais assustadora ou menos atraente.

Quando retornei à Califórnia, constatei que muitas das minhas amigas haviam se assentado em relacionamentos sérios que levariam ao casamento. A esta altura, parei de acreditar que uma pessoa precisasse de um parceiro para se sentir realizada na vida, mas ainda achava que, de alguma maneira, me faltava algo fundamental - não ser boa o suficiente, atraente o suficiente, bonita o suficiente, ou qualquer outra coisa suficiente - em comparação com elas.

Amigas, parentes, conhecidos e até mesmo estranhos gentilmente apontarão o que parece faltar em uma  mulher solteira. Uma amiga minha foi ao médico por um problema de saúde mental e o que ele prescreveu foi um namorado. Parentes bem-intencionados a aconselharam a ir à igreja para encontrar um homem, embora ela seja agnóstica.

Houve quem me dissesse que eu era exigente demais, que não ficaria jovem para sempre, que deveria me mostrar mais, que tinha de lutar pelo amor, e deveria procurar um sujeito mais atraente ou menos atraente, menos azarado, mais azarado, mais decidido, menos decidido.

Os homens que mal conheci ou não conheci absolutamente disseram que eu deveria me maquiar mais, mudar de atitude, dormir mais tarde, vestir-me de maneira diferente, sorrir mais. Ouvi isto em um primeiro encontro, caminhando pela rua cuidando da minha vida e no meio de uma conversa a respeito de um assunto completamente diferente.

É estranho continuar procurando a pessoa “certa” enquanto se luta contra a expectativa de fazer justamente isto. Continuei encontrando pessoas: em happy hours, grupos de encontro, namorando on-line, tentei fazer coisas novas: dancei salsa, andei de scooter, passei meu tempo em amizades, hobbies, aventuras.

No meio de toda essa festa houve momentos tristes e de solidão, maus relacionamentos e rompimentos dolorosos, mas eu já não acreditava que me faltasse alguma coisa, apesar dos conselhos que continuava recebendo de amigos, familiares, da sociedade. A vida era bela, me preenchia e eu me sentia plena. Não precisei esperar por alguém mais para criar o meu ‘feliz para sempre’.

Quando tinha cerca de 35 anos, mudei para Austin, Texas, e meus pais preocupados falavam comigo por telefone. Suas vidas não haviam sido fáceis, e eles só tinham um ao outro para se apoiar. Meu pai temia que eu não encontrasse ninguém para tomar conta de mim. E se eu ficasse doente? E se precisasse de ajuda?

Minha mãe, espantada com a minha incapacidade de encontrar alguém, disse: “Mas ela não tem três cabeças!”

Namorei mais. Namoros no cafezinho que se dissipavam mais rapidamente do que a espuma de um cappuccino. Um namoro em uma happy hour onde bebi demais de estômago vazio e paguei uma rodada para todo mundo no bar. Um namoro em um jantar com alguém que ficava se desculpando por responder ao celular. Um relacionamento com alguém que não estava pronto para um compromisso. Um relacionamento com alguém que padecia de amores por uma ex.

E então, um relacionamento que funcionou.

Não foi nenhuma mágica, nenhum despertar da minha alma, nenhum cálculo pessoal, nenhuma explicação clara e límpida de que funcionava quando tantos outros não haviam funcionado. Encontrei um homem que é um ser humano adorável. Descobrimos que compartilhávamos dos mesmos interesses e da mesma química. Nos tratamos com carinho e respeito. Tenho a plena certeza de que se eu o tivesse encontrado anos antes, ou anos mais tarde, o resultado seria o mesmo: casamos.

Sou a mesma pessoa, moro no mesmo lugar.

Tenho os mesmos amigos e os mesmos hobbies. Não havia nada pior a meu respeito antes. Não houve nada pior do que me dissesse respeito antes. Não há nada melhor no que me diz respeito, agora. E, no entanto, as pessoas que viam o fato de eu ser solteira com curiosidade, piedade ou indiferença agora são mais calorosas, mais acolhedoras. É como se eu agora tivesse entrado no clube.

Agora me fazem menos perguntas a respeito da minha vida pessoal. Meu marido e eu somos convidados em programas com outros casais. É aceito sem questionamentos ou queixas quando quero ficar em casa nas férias em lugar de viajar para visitar a família. Avanços indesejados são cortados abruptamente, basta dizer: “Sou casada”, quando “Não, obrigada” era inadequado antes.

O que  a declaração legal de outra pessoa diz realmente a nosso respeito? Será que isto confere uma validação? Faz você parecer mais normal? Traça novos limites ao seu redor? Faz você se sentir mais segura?

Adoro meu parceiro e gosto do fato de compartilharmos as nossas vidas no dia a dia, mas o casamento - esta coisa que as jovens são ensinadas a venerar - não transformou a minha vida. É mais como tecer novos fios em uma tapeçaria existente do que rejeitar um padrão sem graça por outro mais colorido.

Quando morava em Los Angeles, costumava sair com meus amigos e ficava horas em filas para conseguir entrar em uma nova discoteca exclusiva, e quando finalmente entrava, descobria que não havia muito que valesse a pena. A pressão social em relação ao casamento parece um pouco isto, uma ênfase em atravessar a porta sem o devido cuidado com aquilo que encontramos lá dentro.

As nossas experiências são distintas. Eu só posso escrever sobre a minha. Punimos e premiamos as pessoas pelo fato de não se coadunarem com os nossos ideais sem sequer nos darmos conta disso. Punimos a nós mesmas quando as coisas que nos ensinam a querer nos impede de apreciar e usufruir o que temos.

Alguém poderá ler isto e achar as minhas reflexões óbvias, banais, ultrapassadas. Alguém poderá ler isto e pensar o que eu deixei de não incluir na vida. Estou escrevendo de qualquer maneira, pelas vezes em que pensei: “Talvez eu esteja imaginando coisas” e “Talvez eles estejam certos” e ‘Talvez haja algo de errado com a minha vida”.

O que preciso dizer às minhas amigas que sentem a pressão da família ou da sociedade se estão namorando, relacionando-se com alguém ou continuando solteira, às quais disseram que de certo modo são elas menos do que o todo por estarem sozinhas: “Vocês não são nada disso. Uma vida plena e cheia de significado pertence a nós todos, o casamento não é imprescindível.” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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