Brian Rea/The New York Times
Brian Rea/The New York Times

Questionando se o amor vale a pena (enquanto trabalho para um aplicativo de namoro)

As primeiras semanas de trabalho foram brutais, à medida que centenas de apelos cheios de ansiedade inundavam a caixa de entrada

Loré Yessuff, The New York Times - Life/Style

29 de julho de 2020 | 05h00

Por mais fascinante que possa parecer, trabalhar num serviço de atendimento ao usuário de um aplicativo de namoro é algo mundano e repetitivo. Durante cada turno de oito horas, com frequência, eu me sinto como uma espécie de líder de torcida robô à medida que procuro responder às queixas e acalmar o nervosismo de pessoas em busca de namoro em plataformas digitais em todo o mundo.

Meu cargo oficial, ao ser contratada, me fez achar que estaria envolvida em conversas interessantes sobre amor e relacionamento. Na realidade, na maior parte das vezes, acabo lidando com assuntos envolvendo reembolsos, senhas esquecidas e contas duplicadas. Tento responder da maneira mais pessoal para cada usuário, mas em muitos casos, para economizar tempo, acabo dando respostas prontas do tipo copiar e colar.

“Obrigada por nos contatar. Vamos examinar o caso”.

“Lamento que você tenha tido uma experiência negativa”;

“Obrigada por chamar nossa atenção para isto. Gostaríamos de ajudar”.

Copiar e colar. O tempo todo. Até alcançar ou superar minha cota de respostas por hora. Alguns telefonemas fogem do padrão. Já troquei mensagens com usuários que dizem achar que seu parceiro está mentindo, transgêneros que querem mudar de gênero nas configurações e homens que se sentem abandonados e confusos depois de serem repetidamente ignorados. Esses diálogos dão um maior sentido de humanidade que muda o ritmo do meu trabalho e me lembra do impacto potencial que ele tem. Em meio à raiva e à insensibilidade está a ternura do anseio romântico, o desejo universal de ser amado.

Essa oportunidade de trabalho surgiu como uma dádiva durante um verão bastante desanimador. Eu havia me formado recentemente na faculdade e me recuperava de um término com uma pessoa que não queria se comprometer comigo. Foi minha primeira separação, mas como negra não foi minha primeira mágoa.

Essa dor era familiar. Os sintomas são fáceis de decifrar. Sempre começa na garganta, vai para o pulmão e desce para o estômago. Aguda, intensa, premente. A primeira vez que senti isto foi na escola primária, no ônibus escolar, quando dois meninos brancos gritaram comigo, dizendo que eu era feia, e puxavam minhas tranças recém feitas. Fiquei tão chocada que congelei, esperando que eles parassem.

A dor ressurgiu no ginásio, quando uma amiga me disse que eu seria uma pessoa bonita se a minha pele fosse mais clara. Passei a evitar tomar sol naquele verão e outros mais tarde. Desnecessário dizer que não mudou nada. Um número enorme de mulheres negras acha que fantasias românticas não pertencem a elas, que nunca somos a primeira, segunda ou terceira opção de alguém e que devemos nos sentir felizes se formos desejadas, o que na verdade deveríamos achar algo suspeito.

Em filmes e na TV, normalmente somos tratadas como aquela amiga confiável ou bem humorada. Séries recentes como I May Destroy You, da HBO, e Insecure refletem versões mais nuançadas de nossas diversas experiências. E embora seja grata por essas histórias, fico surpresa ao perceber quanto tempo demorou para elas aparecerem na mídia tradicional. O desejo de romance é algo complicado para todo mundo, mas para nós com frequência é político.

Quase todas as garotas negras que conheço têm uma história de rejeição por causa da sua cor, e quando não é uma rejeição flagrante então são transformadas ou descartadas de alguma outra maneira com conotação racial. Durante minha adolescência, consumia mensagens que igualavam meu valor à minha situação em termos de relacionamento. Minha mãe e minhas tias enfatizavam a importância de ser uma boa menina para ser um dia uma boa esposa.

Meus mentores evangélicos idealizavam a pureza sexual e o casamento. Aos 16 anos, compreendi que ser valorizada por homens devia ser minha prioridade. Entretanto, os garotos que eu gostava aceitavam minha amizade, mas descartavam a possibilidade de namoro. Meus amigos e pessoas pelas quais me apaixonava me diziam abertamente que não iriam namorar mulheres negras, confessando esta verdade contundente com tanta facilidade como se estivessem afirmando uma preferência por pizza. Diante de tudo isto, imagine como foi estranho para mim, uma negra insegura e recentemente rejeitada, aceitar um emprego num aplicativo de namoro.

As primeiras semanas de trabalho foram brutais, à medida de centenas de apelos cheios de ansiedade inundavam a caixa de entrada, algumas pessoas enviando mensagens com uma urgência perturbadora: “Por que ninguém responde às minhas mensagens???”. “Sou uma pessoa horrível?”. “Não encontro ninguém há meses”, “Este aplicativo é uma fraude!”. No início, não sabia como aplacar a raiva das pessoas. Com o tempo, aprendi a ver o lado humano de cada mensagem. Havia alguma coisa muito vulnerável no caso de alguém dizer que desejava “apenas ser amada”.

Repassava as mensagens que chegavam diariamente tentando não ficar insensível, traduzindo mensagens como “Não há nada de errado comigo”, “Pareço ser uma pessoa OK, inteligente. Há algo de errado com o seu aplicativo!” no tipo de perguntas que todas fazemos: “Sou atraente o bastante? Sou inteligente? Há algo de errado comigo?”. Às vezes, respondia com as palavras que eu própria necessitava ler. Meus supervisores haviam me instruído a me endereçar às pessoas com gentileza e cautela.

Apesar dos clichês que enviava, meu sentimento era autêntico. “Namoro é realmente algo difícil. Mas acho que você merece um relacionamento mais profundo. Com frequência, leva tempo para isto. Estou torcendo por você!”. Meu incentivo brega normalmente derrubava as barreiras de comunicação. "Obrigada, isso significa muito”, algumas respondiam. “Sim, namoro é muito difícil. Espero conhecer alguém em breve. Estou torcendo!”.

Naturalmente eu estava nos aplicativos também. Aprendi todos os truques para criar um perfil atraente. Fotos que exibem sua personalidade, biografias que acabam com uma questão cativante, um sinal de verificação para mostrar que você é real. Eu ajudava outras pessoas, mas sentia-me incapaz de melhorar meu próprio carisma digital.

E eu sabia que as chances eram contrárias a mim. Pesquisa que fiz mostra que as mulheres negras estão entre as que recebem menos atenção de qualquer categoria no quesito namoro. Sabendo disto, é difícil acreditar. Uma amiga branca certa vez me mostrou seu perfil num aplicativo de encontros. “Sei exatamente porque esses homens buscam direto informações sobre mim”, disse.

Como seria saber que você é naturalmente o tipo de alguém ou de muitas pessoas? Como seria saber que você é desejada? Fiquei me perguntando essas coisas até meus pensamentos chegarem no fundo da minha garganta – uma dor aguda, densa, premente. Fiquei tão acostumada ao amor não correspondido e ser uma espécie de líder de torcida para minhas amigas não negras encontrarem o amor que, acreditava, não era para mim.

Quando começava a nutrir algum sentimento por uma pessoa eu lutava contra ele para não ficar depois desapontada. Se alguém expressava um interesse em mim eu pensava demasiado a respeito, chegando ao ponto da autossabotagem. Mesmo quando me encontrei com meu primeiro namorado passei a maior parte do nosso relacionamento duvidando da autenticidade da sua afeição. Mais recentemente, aceito melhor o brilho da minha cor negra e ficou mais fácil sentir-me segura em minha identidade.

Não apenas me aceitar, mas celebrar e admirar a mulher que sou. Mas sei o bastante para entender que a autoestima, apesar de todos os seus benefícios, não me propicia um beijo na testa, um olhar apaixonado, e embora hoje finalmente tenho consciência de que tenho valor, às vezes ainda duvido que outros conseguirão ir além do seu condicionamento social e também acreditarem nisso. No Dia dos Namorados deste ano, trabalhei no turno da noite e ri das circunstâncias em que me encontrava.

Em vez de mãos dadas com alguém que eu adorava, passei a noite digitando mensagens para outras pessoas incentivando-as na busca de mãos para apertarem. Senti-me patética e sozinha, isolada totalmente daquilo que estava ajudando as pessoas a encontrarem. À medida que a noite avançava, uma mulher negra enviou uma mensagem apenas para expressar sua gratidão.

Por meio do aplicativo, disse ela, havia encontrado seu antigo namorado – o que jamais pensou que ocorreria com ela. Sorri ao ver as fotos anexadas, dela e do namorado, resplandecentes em seu amor. Isto me deu uma espécie de segurança cósmica. Bati no peito quando comecei a digitar mais uma resposta clichê, mas tudo o que eu queria dizer era: “Também espero encontrar este tipo de amor algum dia. Obrigada, obrigada”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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