Anna Godeassi/The New York Times
Anna Godeassi/The New York Times

Um questionário para achar casais compatíveis e tirar a cabeça do 'fim do mundo'

Uma tarefa dos estudantes da Universidade de Stanford com 50 questões sobre namoro se espalhou por outros campi

Sandra E. García, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2021 | 05h00

Começou como uma tarefa para estudantes universitários: dois alunos da Universidade de Stanford, encarregados de elaborar um trabalho de conclusão para uma aula de economia prepararam um questionário de namoro com a finalidade de mostrar os fatores que regem o mercado romântico. E por brincadeira, o chamaram “Pacto de Casamento”.

Os estudantes começaram a promover o questionário no boca a boca e receberam quatro mil respostas em cinco dias. A esta altura, ficou evidente que se tratava de algo mais do que apenas um trabalho da faculdade.

“É um exercício forçado de introspecção a que você não é submetido com muita frequência,” disse Shan Reddy, 21 anos, aluno da universidade que fez a pesquisa em 2019. “Não é sempre que, como aluno de faculdade, você pensa em quantas garotas quer ou onde gostaria de criar a sua família ou que tipo de valores pretende transmitir para seus filhos”.

O questionário é composto de 50 itens em que os estudantes devem classificar as próprias respostas em uma escala que vai de “discordo veementemente” a “concordo veementemente”. Alguns exemplos: “Seria ótimo se eu passasse a minha vida fazendo o bem para os outros, mas não recebesse nenhum reconhecimento por isto”; “Prefiro o humor politicamente incorreto”; “Os papéis de gênero existem por uma boa razão”; e “Gosto de drama”. Ao contrário dos aplicativos de namoro, não há fotos dos candidatos.

Depois de cerca de uma semana, a pesquisa se encerra, as respostas passam por um algoritmo, e os respondentes são escolhidos para formar casais para desfrutarem de um casamento duradouro.

Evidentemente, a parte do “casamento” é uma brincadeira - ou pelo menos opcional. Mas os criadores do pacto, Liam McGregor e Sophia Sterling-Angus, acham que falsos interesses fazem parte do jogo.

McGregor, que mora em Seattle e transformou o Pacto de Casamento em um negócio de tempo integral, disse em uma entrevista por telefone que o questionário pretendia aproximar estudantes com “um plano B” ou “um escolha prática”, uma pessoa com a qual você poderia casar se, “aos 35 anos, quando todos os seus amigos estiverem casando, você começasse a se perguntar, ‘O que é que está acontecendo?’”.

Ele e Sophia, 24 anos, que mora em Nova York e é analista de negócios para a McKinsey & Co., escreveram os itens baseados em publicações de revistas acadêmicas sobre relacionamentos compatíveis. Eles também leram a pesquisa em que se baseiam as “36 Perguntas que Levam ao Amor”, mas McGregor esclareceu que eles não estavam pretendendo ajudar pessoas estranhas a se apaixonarem; ao contrário, queriam formar pares compatíveis dentro de um grupo de indivíduos.

“Se você quer fazer um pacto de casamento na faculdade, quais são as probabilidades de que a pessoa que você já conhece seja a melhor escolha para você ?”, disse McGregor. “É totalmente possível que você nunca encontre a melhor pessoa porque o número de indivíduos é muito grande”.

Para Reddy e Cristina Danita, a escolha levou a um namoro de verdade. Eles começaram em janeiro de 2020, dois meses antes de os estudantes serem obrigados a deixar o campus por causa da pandemia.

Cristina, estudante internacional, decidiu ficar na casa dos pais de Reddy, em Las Vegas. Foi mais simples do que voar de volta para a sua casa na Moldávia, principalmente porque os voos internacionais foram suspensos.

“Embora nos relacionássemos há apenas dois meses, os pais dele me convidaram”, disse Cristina.

Oito meses mais tarde, os dois decidiram voltar ao campus, mas desta vez solicitaram um alojamento para casal. E continuam juntos.

O Pacto de Casamento se espalhou para 51 universidades, mas nem todos os pares arranjados continuaram como Cristina e Reddy. Alguns sequer se procuraram e nunca se conheceram. Em alguns campus, a proporção de gênero dos respondentes pode limitar o número de casais de acordo com a orientação sexual.

No Middlebury College, por exemplo, 260 mulheres héteros ficaram sem parceiro este ano, segundo o jornal The Middlebury Campus. Foi lançada uma campanha por e-mail e por Instagram, em que os homens atraídos por mulheres hétero, foram chamados para “serem heróis” e “preencherem o hiato”.

Muitas universidades, como Vanderbilt e Tufts, levaram o Pacto de Casamento para o seu campus em 2020, especificamente por causa da pandemia, na esperança de consolidar os seus campi fragmentados durante um ano repleto de inquietação social.

Ameer Haider, 21 anos, estudante da Vanderbilt, ouviu falar do pacto do primo em Duke, que também lançou a pesquisa. Ele procurou McGregor para começar o ‘casamento’ no campus depois de um ano difícil. Embora os criadores do pacto original contribuam na realização das pesquisas, cada pacto de casamento é específico para as demografias de cada campus participante.

“Achei que a minha universidade estaria preparada para algo parecido com isto”, disse Haider. “O campus ficou cada vez mais isolado por causa das restrições impostas pela covid-19. Nós não tivemos uma pausa na primavera, infelizmente, dada à política da universidade, e as aulas era tão chatas. Os estudantes ficaram realmente entediados, praticamente apáticos, ou se sentiram sobrecarregados, um pouco desunidos”.

Haider - e oito amigos que ele convocou- organizaram e promoveram o questionário. Em seis dias, 4.086 estudantes enviaram suas respostas, disse Haider. “Foi uma coisa que virou o nosso campus de ponta cabeça!”, ele disse.

Os boatos começaram a circular. Os casais que haviam terminado o namoro fizeram a pesquisa, deram match e voltaram. Outros se separaram. Alguns ignoraram seus parceiros. Foram feitas novas amizades. O campus voltou a ser um campus de novo, afirmou Haider. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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