Quando a família racha
Jane E. Brody, The New York Times

15 de janeiro de 2021 | 05h00

Se alguém me mostrar uma família que nunca passou por uma ruptura - temporária ou permanente - causada por uma briga séria entre dois ou mais membros, começarei a acreditar em milagres. Quase todo mundo que conheço já passou por uma situação estressante, muitas vezes com dolorosos efeitos psicológicos, e às vezes físicos, que também se estenderam aos familiares que nada tinham a ver com a disputa inicial.

Esses rachas podem começar com conflitos financeiros, religiosos, políticos ou mesmo existenciais. Entre as causas comuns estão a contestação de heranças, disputas sobre cuidados parentais, a rivalidade entre irmãos e acusações de favoritismo.

Às vezes, o incidente pode ter sido imaginado. Uma mulher que foi abusada na infância acusou falsamente o marido da mãe de abusar de seu filho e cortou todo o contato entre o homem e seus filhos.

Assim como ocorreu com a filha molestada, as rixas podem ter origem em traumas que distorcem a capacidade individual de interpretar a realidade. Ou uma disputa que provoca a ruptura de um relacionamento pode ser fruto de anos de ressentimentos acumulados que não foram devidamente expressos ou abordados.

Em um livro baseado na primeira pesquisa nacional sobre separação familiar e em longas entrevistas com cem homens e mulheres que se reconciliaram, Karl A. Pillemer, sociólogo de família e professor da Universidade Cornell e da Faculdade de Medicina Weill Cornell, descobriu que as rixas familiares são surpreendentemente comuns e frequentemente resultam em danos emocionais e psicológicos duradouros.

Sua pesquisa envolvendo 1.340 pessoas escolhidas aleatoriamente sugeriu que "cerca de 25% da população vive distanciada de algum familiar. Para uma parte desses cerca de 67 milhões de norte-americanos, isso não faz muita diferença. Porém a maioria das pessoas encara essa ruptura como algo negativo", disse Pillemer em entrevista.

Conforme escreveu no livro Fault Lines: Fractured Families and How to Mend Them (Linhas de fratura: famílias divididas e como consertá-las, em tradução livre), publicado em setembro, "até mesmo em nossa sociedade em rápida transformação, os relacionamentos familiares são importantes". Para a maioria das pessoas, o afastamento é fonte de estresse crônico e ameaça "o bem-estar físico, mental e social", concluiu.

Sei disso porque já passei por algo parecido. Uma tia muito querida, que se tornou minha mãe de consideração depois do falecimento de minha mãe biológica, quando eu estava no ensino médio, cortou relações comigo depois que me casei com um cristão, em vez de me casar com um judeu. Fiz três tentativas sérias de reconciliação, cada uma das quais ela inicialmente aceitou e, em seguida, sabotou, até que meu marido disse: "Acabou, ela já machucou você muitas vezes."

Eu continuava dizendo que não conseguia acreditar que isso estava acontecendo na minha família, algo que Pillemer ouviu muitas vezes das pessoas que entrevistou. Ele também descobriu que, em muitos casos, havia "danos colaterais", quando outros membros da família eram envolvidos em uma disputa com a qual não tinham nada a ver. Com isso, perdi também a relação próxima e amorosa que tinha com a filha da minha tia, minha prima em primeiro grau. Nunca recuperamos o contato.

Entre as pessoas entrevistadas por Pillemer estão incluídas crianças que não conheceram os avós ou que deixaram de participar de todo tipo de evento familiar - festas de fim de ano, aniversários, casamentos, viagens de férias e até mesmo funerais - por causa de uma rixa entre dois parentes adultos.

Rixas não resolvidas podem causar estresse crônico em um envolvido ou em ambos, afetando sua saúde física e mental. A ansiedade e a depressão causadas pela situação podem agravar problemas cardíacos e o diabetes, além de levar a problemas reprodutivos, prejudicar a imunidade e até mesmo encurtar a vida, de acordo com alguns estudos.

Por outro lado, muitas vezes as rixas podem contribuir para a saúde de quem se rebela. Por exemplo, as pessoas podem se afastar de parentes que são fisicamente ou emocionalmente abusivos e que se envolvem em atividades criminosas ou em outros comportamentos antissociais que elas considerem ameaçadores ou repulsivos.

Um primo que costumava frequentar minha casa desapareceu completamente da minha vida depois que se casou e que sua esposa rompeu com toda a família porque o sogro era um pilantra.

"O afastamento pode ser uma forma de adaptação, uma maneira de lidar com tensões e ansiedades insuportáveis", afirmou Kathleen Smith, terapeuta familiar em Washington e autora do livro Everything Isn't Terrible (Nem tudo é terrível, em tradução livre).

Contudo, acrescentou Smith, as pessoas devem entender que as rixas familiares muitas vezes têm um custo, especialmente em relação ao que Pillemer chama de "perda de capital social": as pessoas que podemos procurar em busca de conforto espiritual, físico ou mesmo financeiro em épocas de dificuldade ou estresse. Quem vai ajudar a cuidar dos filhos ou gerir a empresa da família quando os pais ficarem gravemente doentes ou feridos?

Com frequência, não é fácil se reconciliar, mas as pessoas que foram entrevistadas por Pillemer e que conseguiram fazer isso disseram que o esforço valeu a pena. Eu ajudei a resolver um racha entre dois parentes meus - pai e filho - que eu sabia que se amavam muito e precisavam um do outro, mas que tinham pontos de vista radicalmente diferentes de como viver. Embora resultasse de uma longa tensão, o conflito final foi alimentado por uma série de e-mails magoados, repletos de acusações enraivecidas por parte do filho e afirmações como "Você arruinou minha vida e não consigo continuar vivendo com você por perto", o que levou o pai a responder detalhadamente, negando que tivesse cometido algum erro.

Ainda que eu não tenha formação em psicologia, entendo e amo os dois, sei que ambos me respeitam e que, ao mesmo tempo, eu tinha afastamento emocional suficiente para manter a racionalidade. Felizmente, minha intervenção resultou em uma feliz reaproximação, que trouxe consigo as ferramentas necessárias para que se mantivesse. Essas estratégias coincidem com muitas das sugestões de Pillemer. Mais importante: eu disse aos dois que, para que uma reconciliação funcione, mexer nas feridas do passado ou negar o que aconteceu não funciona. Assim, eles reataram o relacionamento de maneira diferente, olhando para a frente em vez de olhar para trás. Pillemer se refere a isso como "seguir adiante".

Conforme escreveu: "As pessoas desejam impor sua visão do passado do relacionamento aos outros. Insistem que a outra pessoa precisa entender o que 'realmente' aconteceu e admitir suas falhas." Porém, como descobriram duas irmãs sobre as quais ele escreveu, que passaram muito tempo brigadas e se reconciliaram: "Falar sobre o passado não estava funcionando para nós. Aprendemos a seguir adiante juntas."

"Afastar-se de alguém pode trazer alívio imediato do conflito e da negatividade, mas a maioria das pessoas deseja retomar o relacionamento e sente que a rixa impediu a realização de uma vida bem vivida", de acordo com Pillemer. Declarações como "Não aguento mais" ou "Acabou" nem sempre significam uma decisão definitiva. Tanto Pillemer como Smith sugerem procurar a pessoa periodicamente para manter o contato e tentar uma reconciliação. As pessoas e as circunstâncias mudam, e um dia pode ser possível construir uma ponte onde antes havia um abismo.

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